• No results found

O ambiente de trabalho está ligado diretamente à saúde do trabalhador. De acordo com o BRASIL (2001), esse ambiente apresenta cinco tipos de riscos: riscos físicos, químicos, biológicos, acidentais e ergonômicos. Em ambientes laborais, são desenvolvidas atividades diferenciadas, que variam de acordo com cada situação e tarefa a ser executada, apresentando tipos de riscos também diferenciados. Para fins deste estudo, aqui nos deteremos em ressaltar a importância da atenção quanto aos riscos ergonômicos e físicos, evidenciando a existência de componentes humanos diretamente ligados aos aspectos psicológico e fisiológico do trabalhador, que podem ser abalados através da adoção de mobiliário inadequado, posturas incorretas, controle rígido de tempo para produtividade, jornadas de trabalho prolongadas, situações causadoras de estresse, dentre outros (SESI 2005). Desta maneira, parte dos cuidados concernentes aos gestores de uma determinada empresa, no que diz respeito ao processo de mudança organizacional, deve também abranger a reconfiguração de seu ambiente físico de forma a acompanhar o novo ritmo de vida dos funcionários, estimulá-los e beneficiá-los, além de representar um novo marco na instituição, positivamente.

Acredita-se que esse novo local deve ser projetado de maneira a proporcionar satisfação, conforto e segurança nas tarefas desempenhadas no dia a dia. Dentre as principais fontes de estudo empenhadas na compreensão e na efetivação dos meios que proporcionarão tais aspectos benéficos, destaca-se a ergonomia. Segundo Wisner (1994), a ergonomia é o conjunto de conhecimentos científicos relativos ao homem e necessários à concepção de instrumentos, máquinas e dispositivos que possibilitem o máximo de conforto e eficiência ao trabalhador.

De acordo com Laville (1977), o termo ergonomia foi utilizado pela primeira vez por um cidadão inglês chamado Murrel, e só então, no ano de 1949, passa a ser oficialmente

utilizado por profissionais ingleses preocupados com o trabalhador e sua adaptação em seu ambiente físico laboral. O panorama ideal dos princípios ergonômicos é a sua ampla aplicabilidade dentro do ambiente de trabalho (IEA, 2000). Pensando mais além, deve-se aplicar a ergonomia desde a idealização do projeto de uma máquina, instrumento, dispositivo, dentre outros, à projeção de espaços físicos, com o intuito de prevenir a ocorrência de futuras complicações patológicas (IIDA, 1993).

No contexto organizacional, é possível perceber que o ambiente físico nem sempre foi considerado decisivo para as decisões e ações empresariais. As organizações eram consideradas sistemas fechados, inicialmente preocupadas com as estratégias internas e o aumento da produção (MORGAN, 1996). Posteriormente, passou-se a entender as organizações como sistemas abertos, influenciáveis pelas necessidades do ambiente físico, tecnológico, cultural e social; relacionando-as, a partir de então, de igual maneira às necessidades do ser humano nas empresas (SCOTT, 1998).

Na atualidade, as organizações funcionam em constantes mudanças, requerendo observação, estudo e acompanhamento desse fenômeno que a cada dia se torna mais intenso (TORTATO; MACHADO-DA-SILVA, 1999). Ainda com o foco nessa temática, Pereira (2000) afirma que é para benefício próprio e estratégico que as organizações se submetem às diversas mudanças em seus ambientes.

O homem passa grande parte de seu dia no trabalho, necessitando, portanto, que esse local seja adaptado à sua realidade e necessidade trabalhista.

O psicanalista Dejours (2012) traçou importantes considerações relacionadas à ergonomia: uma delas evidencia um desnível inevitável entre o trabalho prescrito ao trabalhador e o trabalho efetivamente realizado por ele. Os trabalhadores nunca se limitam à execução estrita das prescrições, isto é, ao que em ergonomia define-se como a tarefa; a saber: o objetivo a se atingir e o caminho a percorrer-se para isso de modo operatório. Os trabalhadores reajustam a prescrição, transformam as ordens, cometem infrações, trapaceiam nos procedimentos. Não pelo prazer de transgredir ou por indisciplina, mas para fazer bem o seu trabalho, da forma mais cômoda possível.

Para Corbella (2003), uma pessoa está confortável em um ambiente quando se sente em neutralidade em relação a ele. Para que tal neutralidade se configure, alguns aspectos ligados ao ambiente de trabalho devem ser observados e estudados, tais como: ruído, conforto térmico, vibração, iluminação e cores do ambiente (CORBELLA, 2003), uma vez que eles

estão diretamente ligados ao desempenho do empregado e das organizações. Iniciando uma breve análise sobre os elementos da lista anterior, Carvalho, Pedreira e Aguiar (2005) atestam que o excesso de ruídos prejudica a execução de atividades que exigem concentração mental, atenção, velocidade e precisão dos movimentos, chegando até causar distúrbios comportamentais, resultando em estresse (CARVALHO; PEDREIRA; AGUIAR, 2005).

Segundo o Mistério do Trabalho, no ano de 2000, o ruído configura-se como um risco do tipo físico, que pode ser definido como som ou um grupo de sons que podem causar alguma patologia. Para Gomes e Fisher (2003), ruídos elevados podem ocasionar lesão na membrana do tímpano e até a surdez. Essa ocorrência é considera um acidente de trabalho, prejudicando não apenas o desempenho de suas atividades, mas também a qualidade da vida social dos trabalhadores.

Para que os ruídos não se tornem prejudiciais ao ser humano, a Associação Brasileira de Normas Técnicas-ABNT, no ano de 2000, estabeleceu como níveis de segurança o valor de 50dB diurno e 40dB noturno nos ambientes externos, hospitalares, escolas e áreas residenciais. Assim, observando a norma anterior, podemos constatar, que se os valores ultrapassarem o permitido, podem impedir ou dificultar a utilização plena das habilidades auditivas.

Ainda no que diz respeito aos efeitos fisiológicos dos níveis elevados de ruídos, Gomes e Fisher relatam:

O ruído inesperado provoca no organismo uma reação de alarme pelo aumento da secreção de certas substâncias como corticoides, adrenalina e noradrenalina. Esta reação de alarme a uma situação de perigo prepara o organismo para enfrentar este perigo mediante certas alterações como taquicardia, vasoconstrição periférica e elevação da tensão arterial. Esta é considerada uma reação normal e transitória, mas que, quando não é adequadamente dosada, pode ocasionar distúrbios permanentes (estresse). Na exposição ao ruído, a níveis excessivos, há uma excitação contínua, embora não tão intensa, desta reação de alarme. Como consequência do estresse ou de outros mecanismos pouco conhecidos, os trabalhadores podem apresentar sinais e sintomas, tais como: náusea, cefaleia, irritabilidade, instabilidade emocional, redução da libido, ansiedade, nervosismo, perda do apetite, sonolência, insônia, aumento da prevalência de úlcera péptica e hipertensão, distúrbios visuais (...) outros possíveis efeitos são a comofadiga e redução da produtividade (GOMES; FISHER, 2003, p.171).

Não menos importante, a sensação térmica sentida pelo corpo depende da temperatura externa, do grau de umidade do ar e da velocidade do vento, e é também apontada como importante elemento para o bem estar do trabalhador. A temperatura efetiva é aquela que

produz sensação equivalente de calor a uma temperatura medida com ar saturado (100% de umidade relativa) e praticamente parado (sem ventos). A zona de conforto térmico é delimitada entre as temperaturas efetivas de 20 e 24°C com umidade relativa de 40 e 60% e velocidade do ar em torno de 0,2m/s. Após estudos, concluiu-se que altas e baixas temperaturas trazem agravantes diversos como os acidentes no trabalho, ocasionados pela diminuição da concentração, redução da capacidade de pensar e julgar a sua ação no momento (CORBELLA, 2003). O controle muscular também pode ser afetado, reduzindo a força e a destreza manual.

Dentre outras peculiaridades referentes ao ambiente físico das organizações, há de se analisar também o elemento vibração, movimento de oscilação, balanço de objetos ou qualquer movimento, regular ou irregular, que o corpo executa em torno de um ponto fixo.

Os efeitos da vibração direta sobre o corpo podem ser bastante graves, como perda de equilíbrio, falta de concentração, visão turva, diminuição da acuidade visual, degeneração do tecido vascular e nervoso, causando perda da capacidade manipulativa e tato nas mãos. As vibrações são mais prejudiciais nas frequências mais baixas, de 1 a 80 Hz, provocando lesões nos ossos, articulações e tendões. As frequências de 30 a 200 Hz atingem o sistema cardiovascular e acima de 300 Hz, aparecem os sintomas de dores agudas e distúrbios neurovasculares (BARBOSA, 2002, p. 32).

A existência de iluminação adequada proporciona um ambiente de trabalho agradável e seguro, além de ajudar na redução do número de acidentes e amenizar a fadiga visual. Se o ambiente de trabalho estiver com iluminação abaixo ou acima do ideal, identifica-se no trabalhador sintomas como: fadiga visual, lacrimejamento, sensação de irritação, cefaléia e baixa no rendimento laboral (PEREIRA, 200l). A utilização de iluminação inadequada pode interferir, inclusive, na postura adotada pelo indivíduo na busca de controles de regulação das ações de trabalho.

As cores do ambiente podem influenciar de diversas maneiras na produtividade do indivíduo. Logo, é importante dedicar atenção à essa realidade. Cada tonalidade de cor e suas variações podem sugerir sensações diversas como calor, alegria, satisfação, criatividade irritação, bem estar, alegria, calma, dentre outras.

Diante de todos os aspectos acima mencionados, fica evidente a compreensão de que, parcela significativa de comprometimento, motivação e desempenho do trabalhador são um reflexo da noção de valor e importância que a organização possui sobre seu colaborador, realizando um conjunto de ações para implantação de melhorias e inovações, refletindo qualidade de vida no trabalho (LIMONGI-FRANÇA, 1996). Caberá à empresa planejar,

dentro da forma mais adequada à sua realidade, quais os aspetos físicos e estruturais do local de trabalho precisam ser transformados ou reorganizados, de forma a proporcionar um novo, acolhedor e saudável clima institucional, reproduzindo uma atmosfera diferenciada, capaz de transmitir o sentimento de mudança e renovação a acompanhar a todos nessa nova fase.