Os resultados da regressão do modelo que investiga a relação entre os ciclos econômicos do Brasil e a DPCLD efetivamente registrada pelos bancos brasileiros (tabela 17; coluna “DPCLD”) indicam relações estatísticas, ao nível mínimo de significância de 10%, para cinco das nove variáveis explicativas.
Os resultados revelam a existência de relação negativa (sig. < 5%) entre a variação do PIB e a DPCLD efetivamente registrada pelos bancos brasileiros. Esse achado evidencia que a DPCLD registrada pelos bancos brasileiros estimula a característica pró-cíclica dos empréstimos bancários, pois os bancos tendem a constituir menos PCLD em épocas de expansão econômica (variação positiva do PIB) e provisionam mais em períodos recessivos (variação negativa do PIB).
Resultados semelhantes foram encontrados na pesquisa de Araújo (2014) sobre a ciclicidade da DPCLD em bancos comerciais e no estudo de Dantas (2012), o qual investigou os determinantes da qualidade da auditoria em instituições financeiras. Esses achados corroboram com a visão de que, em épocas de expansão econômica, os bancos tendem a ser menos exigentes na avaliação de risco de crédito de seus clientes para concessão de empréstimos e, durante períodos recessivos, justamente quando a demanda por créditos aumenta, os bancos restringem os níveis de concessões de empréstimos e, dessa forma, contribuem para agravar ainda mais os períodos recessivos (BOUVATIER; LEPETIT, 2008; BEATTY; LIAO, 2011; BUSHMAN; WILLIAMS, 2012).
Também se observa relação negativa (sig. < 5%) entre a variável representativa do nível de capitalização dos bancos (CAP) e a DPCLD registrada pelos bancos brasileiros, o que pode indicar gerenciamento de capital por parte dos bancos brasileiros, por meio de um trade-off entre DPCLD e patrimônio de referência. Esse achado é diferente daquele encontrado por Araújo (2014) em sua pesquisa, mas, por outro lado, condiz com os resultados das pesquisas de Kim e Kross (1998) e Alali e Jaggi (2011).
A relação positiva (sig. < 1%) entre a variável representativa do lucro antes dos tributos e da DPCLD (LAIMP) e a DPCLD registrada pelos bancos brasileiros é um indicativo da
utilização da DPCLD para práticas discricionárias de gerenciamento de resultados pelos bancos brasileiros. Em seus trabalhos, Dantas (2012) e Araújo (2014) encontraram resultados semelhantes, que sugerem a utilização da DPCLD dos bancos brasileiros para práticas de gerenciamento de resultados. Araújo (2014) pondera que o gerenciamento de resultados pode contribuir para a redução da pró-ciclicidade da DPCLD, entretanto, há estudos indicativos de que a parcela da DPCLD constituída com o objetivo de gerenciamento de resultados não influencia a flutuação do nível de empréstimos bancários (BOUVATIER; LEPETIT, 2008; BUSHMAN; WILLIAMS, 2012).
Observa-se, ainda, relação positiva (sig. < 1%) entre a variável representativa do tamanho (porte) da instituição financeira (LnAT) e a DPCLD registrada pelos bancos brasileiros, que é um indicativo de que instituições financeiras maiores tendem a constituir mais provisões para créditos de liquidação duvidosa. Infere-se que tal fato possa decorrer de duas situações:
a)! bancos maiores possuem carteiras de créditos mais diversificadas e mais recursos para emprestar;
b)! bancos de maior porte possuem sistemas de gerenciamento de riscos de crédito mais robustos e, por isso, tendem a ser mais exigentes nas suas avaliações de riscos de crédito.
Os resultados também indicam uma relação positiva (sig. < 10%) entre a variável representativa da variação da inadimplência do trimestre anterior (ΔINADi) e a DPCLD do trimestre corrente, registrada pelos bancos brasileiros. Embora o nível de significância estatística seja superior a 5%, considera-se esse achado como um indício da característica predominantemente ex-post da DPCLD constituída pelos bancos brasileiros. Em sua pesquisa, Dantas (2012) não examinou a variação das operações de crédito inadimplentes com um trimestre de defasagem, mas testou e encontrou uma relação positiva (sig. < 1%) entre o saldo das operações de crédito vencidas e a DPCLD registradas pelos bancos brasileiros, o que reforça a tendência de característica de perda incorrida da DPCLD registrada pelos bancos brasileiros.
Não foram encontradas relações com significância estatística entre as demais variáveis independentes e a DPCLD registrada pelos bancos brasileiros, que são as seguintes: ΔEMP, representativa da variação trimestral do saldo da carteira de empréstimos; ΔINADa, que representa a variação do saldo das operações de crédito inadimplentes no trimestre corrente; ΔINADe, a qual representa as variações do saldo das operações de crédito inadimplentes no
trimestre seguinte; e PRJ, representativa do total das operações de créditos lançadas a prejuízo no trimestre.
Esperava-se encontrar relação positiva, com significância estatística, entre a a variação nos níveis de inadimplência e a DPCLD, já que o propósito precípuo da DPCLD registrada pelos bancos brasileiros deveria ser a proteção da instituição financeira contra perdas com créditos. Também se esperava uma relação positiva, com significância estatística, entre a variável representativa das operações lançadas a prejuízo (PRJ) e a DPCLD registrada pelos bancos brasileiros, pois, numericamente, DPCLD = ΔINAD + PRJ (ver equação 4); entretanto, não tal relação não é verificada. De forma diversa do presente trabalho, Dantas (2012) encontrou relação positiva entre a variação da inadimplência do trimestre corrente, bem como entre as operações lançadas a prejuízo, e a DPCLD dos bancos brasileiros; entretanto, o fato de o pesquisador ter considerado as diferenças regionais do País pode ter influenciado os seus achados.
Quanto à variação do saldo da carteira de empréstimos (ΔEMP), esperava-se encontrar relação positiva, com significância estatística, entre esta variável e a DPCLD registrada pelos bancos brasileiros, fato que caracterizaria a parcela da sua natureza ex-ante. Entretanto, a relação positiva, mas sem significância estatística, pode ser explicada justamente pelo fato da baixa provisão constituída no momento da concessão do credito, ou mesmo a ausência da constituição de qualquer valor a título de PCLD, para operações cujo rating de concessão é “AA”. Diferentemente dos achados deste trabalho, Araújo (2014) encontrou uma relação negativa, significante ao nível de 10%, entre a variação do saldo da carteira de empréstimos e a DPCLD constituída pelos bancos brasileiros, sugerindo que a DPCLD diminuiria com o aumento do volume das operações de crédito; entretanto, como o próprio pesquisador pondera, dado o nível de significância de 10%, não seria seguro afirmar a ocorrência de tal comportamento. Por outro lado, Dantas (2014) constatou relação positiva, com significância estatística ao nível de 1%, entre a variação do saldo da carteira de empréstimos e a DPCLD registrada pelos bancos brasileiros; porém, o fato de o pesquisador ter considerado as diferenças regionais do País em suas análises pode ter influenciado os seus achados.
Os resultados encontrados na presente pesquisa, considerando-se os parâmetros das variáveis explicativas e suas significâncias, sugerem que a motivação predominante dos bancos brasileiros ao constituírem a DPCLD está mais relacionada a práticas de gerenciamento de resultados e aos movimentos macroeconômicos, seguidos de mecanismos de gerenciamento
de capital e, paradoxalmente, em último lugar, à variação da inadimplência e, ainda assim, com relativa defasagem entre a ocorrência dos atrasos e o aumento das respectivas provisões.22
Rejeita-se, assim, a hipótese 2A desta pesquisa, de que a despesa com provisão para créditos de liquidação duvidosa registrada pelos bancos brasileiros seja anticíclica.
4.4.3.2!Análise da relação entre os ciclos econômicos do Brasil e a DPCLD calculada de