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A Multiple-Aspect Account of Harm

4. A Multiple Aspect Account of Harm

4.2. A Multiple-Aspect Account of Harm

Ao comentarem sobre os materiais já analisados em suas pesquisas sobre o Cerrado, especialmente os Livros Didáticos (LD), todos os pesquisadores apontaram para uma visão reduzida e superficial do bioma, repleta de estereótipos e preconceitos. A abordagem do Cerrado é sempre restrita a apenas uma de suas fitofisionomias, o Cerrado Sentido Restrito (Sensu Strictu), e costuma destacar os mesmos aspectos da vegetação e das espécies animais existentes, não abrangendo efetivamente a variedade de paisagens, espécies e importância do bioma. Os estereótipos e preconceitos também aparecem quando apenas características como a presença do fogo, do Lobo-Guará ou do Ipê-amarelo (espécies chaves) são destacadas.

Os depoimentos colhidos nas entrevistas, no que diz respeito às críticas aos materiais já produzidos sobre o Cerrado, corroboram para as leituras desenvolvidas neste trabalho a respeito dos LDs e reforçam a influência dessa abordagem na prática escolar – ponto que será melhor descrito no próximo tópico. O que pode ser exemplificado pelas falas abaixo:

A gente analisou os livros didáticos e chegou à conclusão mais ou menos que você viu: o Cerrado não é trabalhado, mas não só o Cerrado, quase todos os biomas. Só aparecia nos livros didáticos a Amazônia e um pouquinho da Mata Atlântica. E dos seis temas prioritários do PROBIO, que eram: bioma, biodiversidade, fragmentação de ecossistemas, UCs, fauna ameaçada de extinção e espécies invasoras, praticamente também só era trabalhado o conceito de biomas. (...) a realidade, o que a gente vê é assim... uma desinformação dos professores, uma baixa valorização dos demais biomas em detrimento da Amazônia, e isso acaba aparecendo nos LDs que os professores e alunos utilizam (Entrevistado 1, entrevista concedida em – 22/10/2013).

Existe uma ideia dentro dessa pesquisa que eu fiz que o Cerrado seja feio, triste, inútil e sem graça, então como é que eu vou proteger uma coisa que eu não valorizo? Como eu vou cuidar de algo que eu não conheço? (Entrevistado 3, entrevista concedida em – 15/10/2013).

...em linhas gerais o conteúdo sobre cerrado é muito reduzido, genérico e preconceituoso. E as coisas que podem ser exploradas estão espalhadas, pulverizadas em diversas partes de um livro ou em toda a coleção. Quer dizer, tem fotos belíssimas da Chapada dos Guimarães, na aula de relevo, mas não é dito que aquilo é o Cerrado. (Entrevistado 2, entrevista concedida em – 09/10/2013).

A fala do Entrevistado 1 demonstra nitidamente um aspecto já debatido na análise dos LDs e percebido também no levantamento de materiais sobre o Cerrado,

que é a valorização das vegetações florestais em detrimento das não florestais, entre elas o Cerrado. A exaltação desse tipo de vegetação é percebida no surgimento da ética antropocêntrica apontada por Grün (1995) e também por Diegues (2001) ao abordar o mito da natureza intocada. A objetificação da natureza gera uma valorização da natureza intocada, percebendo essa como bela e passível de ser preservada. As florestas4 e demais vegetações florestais passam a ser vistas

como sinônimo de natureza e únicas vegetações que devem ser preservadas, excluindo as demais vegetações esse cuidado.

Tal visão dificulta a conservação dessas áreas não florestais, uma vez que reforça a percepção dessa vegetação como ambiente sem beleza e valor, como apontado também na fala Entrevistado 3 e no trabalho de Bizerril e Faria (2003) que encontram essa ótica nos LDs.

Essa abordagem também demonstra uma visão reduzida e preconceituosa por parte dos autores, uma vez que a visão do Cerrado fica restrita aos campos de gramíneas, com árvores retorcidas bem espaçadas entre si. Porém, o Cerrado, em sua grande diversidade de vegetações apresenta, inclusive, formações florestais – Mata Seca, Mata de Galeria e Mata Ciliar, que não são mencionadas ou valorizadas pelos materiais criticados pelos pesquisadores.

Siqueira (2012) afirma que ainda hoje se tem uma visão distorcida desse bioma que é visto como "feio, seco e sem utilidade" (SIQUEIRA, 2012, p.14) reforçando a percepção encontrada por Bizerril e Faria (2003) sobre o Cerrado:

(...) como um ambiente pobre em espécies animais e vegetais, composto por plantas mirradas devido à escassez de água e às queimadas frequentes, e assim, desprovido de beleza e utilidade para o homem, parece estar presente no imaginário de boa parte da população brasileira na atualidade. Essa percepção por parte da população agrava a falta de cuidado com o bioma e dificulta sua conservação (BIZERRIL; FARIA, 2003, p.20).

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Floresta, de acordo com o Sistema Nacional de Informações Florestais (2014) é uma área medindo mais de 0,5 ha com árvores maiores que 5 m de altura e cobertura de copa superior a 10%, ou árvores capazes de alcançar estes parâmetros in situ. Mas qualquer vegetação que apresente predominância de indivíduos lenhosos, onde as copas das árvores se tocam formando um dossel, são cotidianamente chamadas de florestas.

O pouco conhecimento sobre o bioma apontado no depoimento, também é percebido por Bizerril e Faria (2003) ao analisar as impressões manifestadas pelos professores a respeito do Cerrado:

Quando são analisadas as impressões manifestadas pelos professores a respeito do Cerrado, nota-se uma ampla variação de conceitos e percepções. Alguns se manifestam de modo afetivo e com preocupação com a conservação do bioma, mas outros se restringem a comentar o assunto como mais um “conteúdo” formal de ensino. Alguns ainda se referem ao Cerrado com uma visão claramente econômica e utilitária, considerando-o um ambiente ‘pouco explorado’ e ‘subutilizado’ (tab. 3). Essas impressões dos professores devem certamente se refletir nas opiniões de seus alunos e no maior ou menor interesse sobre o Cerrado. (BIZERRIL; FARIA, 2003, P. 25)

Como apontado pelos autores, a percepção dos professores exerce influência sobre a opinião dos estudantes e essa concepção utilitarista pode ser pouco educativa, como reconhece Siqueira (2012). Esse conhecimento reduzido sobre Cerrado implica também em não abordar toda a complexidade da multifacetada relação humanos - meio ambiente, correndo o risco de realizar um trabalho incompleto de EA, como apontado por Sauvé (2005). A partir dessas impressões, dedicamos o próximo item deste trabalho a investigar essa relação com a prática docente, com base nos depoimentos colhidos nas entrevistas.