Pensar o trabalho na sua dimensão humana é recorrer à sua história ligada ao campo social, em que se reconhece a questão da escravidão dos homens e do constrangimento desencadeado por esse momento vivido por parte da sociedade mundial, bem como evocar o seu lado capitalista, no qual o “saber-fazer” apresenta uma dimensão significativa e menos individualizada, mas, ao mesmo tempo, “coletiva” na sua configuração.
Assim, se de um lado, podemos observar a despersonalização do trabalho escravo em um regime de servidão e de humilhação humana, de outro, podemos constatar que o trabalho humano é influenciado pela história, pelas coerções econômicas e pela tradição das profissões, momento em que as características coletivas são mais evidentes em relação ao anterior. O enfoque sobre o trabalho aqui apresentado mostra uma análise que se baseia, principalmente, nos princípios sociológicos e históricos do trabalho e leva particularmente em conta as mudanças de enfoque sofridas pelo trabalho humano no decorrer da história: primeiramente, a visão do trabalho escravo despersonalizado e, por conseguinte, a perspectiva do trabalho fruto de concepções capitalistas.
Se o enfoque dado por esses campos das ciências humanas – Sociologia e História-, em linhas gerais, apresenta essas características, como, então, a Ergonomia e a Ergologia, enquanto ciências que também estudam o trabalho, abordariam esse tema do ponto-de-vista de suas especificidades individuais e coletivas? Derivadas desse questionamento, outras indagações mais relativas a esta pesquisa sobre o trabalho do professor também são pertinentes nesse momento: a partir das noções de trabalho individualizado e trabalho coletivo, o que vem a ser a noção de gênero profissional e estilo profissional em relação ao trabalho e, mais precisamente, em relação ao trabalho do professor? E quais influências essas noções exercem sobre o estudo do trabalho educacional?
Tendo sido colocadas essas questões, partimos, novamente, para o nosso propósito delineado no início desta dissertação que é compreender a imagem discursiva do trabalho do professor nos documentos oficiais, buscando investigar de que forma essa imagem é construída, tendo por base as características históricas e particulares dessa profissão.
Já que nossa tendência para se buscar a compreensão das características de uma determinada profissão, passa pela urgência de se entender discursivamente as histórias e particularidades da mesma, a questão das relações coletivas é, então, um traço inaugural para que esse estudo seja efetivado. Partindo dessa premissa, acreditamos que a dimensão coletiva arraigada das e nas profissões configura a essência delas; trata-se de entender a dimensão coletiva como o espectro profissional acima do trabalhador, impondo-lhe comportamentos e metas de pensar, agir e produzir em seu ambiente de trabalho.
Os especialistas do trabalho, ergonomistas e ergologistas, inscrevem essa atividade humana numa perspectiva histórico-cultural que visa manter juntamente o caráter institucional e tradicional do trabalho ao lado das experiências subjetivas na realização da ação do trabalhador. Esse enfoque, em relação ao trabalho do professor, é desencadeador de discussões inovadoras, pois, o pesquisador, ao adotá-lo, não se pauta em somente estudar a ação do docente em um determinado momento ou estágio de atuação, mas procura ressaltar os atos coletivos que são constitutivos de sua profissão, isto é, a dimensão histórica de seu trabalho, as suas tradições, ou seja, todos os discursos passados e presentes que compõem o espectro profissional docente e que o fazem interagir nas situações reais de trabalho.
Visto desse modo, o trabalho traz uma memória impessoal e coletiva, mobilizada pela ação. Segundo Clot et al. (2001:18), seria o gênero social do
ofício ou gênero profissional 16 que trazem a memória impessoal, ou seja, as
16 Para esta pesquisa, adotamos a designação gênero profissional por entendermos que esta representa o caráter amplo e, ao mesmo tempo peculiar, que as profissão apresentam.
obrigações que são inerentes da profissão. Segundo os autores, o gênero profissional poderia ser identificado como
os antecedentes ou os pressupostos sociais da atividade em curso, uma memória impessoal e coletiva que dá dimensão à atividade pessoal em situação: maneiras de se portar, maneiras de comunicar-se, maneiras de iniciar uma atividade,e de terminá-la, maneiras de conduzi-la com eficácia a seu objeto. Estas maneiras de abordar coisas e pessoas num dado ambiente de trabalho formam uma lista de atos previstos e redirecionados que a história deste ambiente selecionou.
Entender o trabalho sob essas perspectivas, é procurar compreender a dimensão impessoal que todas as profissões apresentam, isto é, todas têm organizadas atribuições e obrigações que são pertinentes ao grupo de trabalhadores pertencentes àquela profissão, as quais são conhecidas através da tradição e da história compartilhadas pelo grupo e não provenientes das necessidades subjetivas de cada indivíduo 17. Assim, poderíamos recuperar a idéia do espectro profissional que as profissões apresentam no sentido de que essa designação “atrai” uma pré-definição das ações que os profissionais daquela profissão devem ou não devem executar, configurando-se como uma espécie de memória coletiva do grupo.
Ao apresentarem a questão do gênero da atividade por meio da bipartição gênero social do ofício ou gênero profissional e estilo da ação, os autores explicitam a questão da memória coletiva para o agir, de Berthoz (1997, apud Clot et al., 2001:02)
é preciso falar de memória para o futuro, constituída de uma gama sedimentada de técnicas intelectuais e corporais tecidas entre as palavras e
17É provável que a profissão de professor seja uma das poucas sobre a qual se pode dizer que o gênero é de domínio não só dos profissionais da classe, como também da sociedade, pois todos aqueles que passaram pelos bancos escolares, vivenciaram o modo de agir dos professores, carregando, assim ,em sua memória, os
os gestos do ofício, o todo constituído, para o profissional deste meio, um esquema “pronto para a ação”, um meio econômico de se colocar no mesmo diapasão da situação.
As formas de ação ou os gestos do ofício que, num primeiro momento podem estar simplesmente inseridos no gênero da atividade, justamente por apresentarem uma “memória impessoal e coletiva que dá sua característica à atividade em questão: maneiras de lidar, de dirigir maneiras de começar e terminar uma atividade...” compõem um conjunto de regras coercivas que “sufocam”, mas que, ao mesmo tempo, servem de recurso ao trabalhador, e essa memória impessoal e coletiva a que os autores se referem, caminha, a nosso ver, para uma esfera maior, pois, os gêneros da atividade e aí constituídos o gênero social do ofício ou gênero profissional, enquanto esquema “pronto para a ação”, configuram- se dentro de um campo maior que se definiria como o gênero profissional, segundo os autores, conforme já dito.
Portanto, para nós, quando tomamos emprestada a designação gênero
profissional, adotamos uma ampliação desse conceito no sentido de avançar a noção de “memória impessoal do grupo” para as relações sociais, culturais, políticas e econômicas que influenciam o trabalho do profissional. É uma posição de não nos atermos somente à situação, à atividade, ao agir diante dos imprevistos, mas também de recuperar todos os movimentos desse coletivo profissional face à sociedade.
É dessa forma que, quando se pensa no trabalho do professor depreendido das prescrições oficiais, recorremos à ampliação da noção de gênero profissional na medida em que recuperamos não só os atos convencionados que a história de um determinado meio preserva, mas também o contexto sócio-histórico e político nos quais esses documentos estão inseridos.
Nessa perspectiva, encontramos, por sua vez, outra característica referente ao trabalho do professor. Se, de um lado, nós temos prescrições que apontam
para uma visão de tradição histórica da profissão, de outro, encontramos normas que nos conduzem diretamente à atividade dessa profissão. Assim, há prescrições que trazem também uma outra esfera da atividade de trabalho: o estilo
profissional. O estilo profissional possibilita a cada trabalhador desenvolver-se, ajustar-se e modificar a abrangência das suas ações pertinentes ao gênero
profissional. Clot et al. (2001:02) falam, então, sobre uma dupla emancipação: emancipação em relação à memória impessoal e emancipação em relação à memória pessoal. Na primeira acepção, o trabalhador se distancia das normas, inaugurando uma outra forma do gênero, a qual será corroborada ou não pelo coletivo de trabalho.
Sob esse ângulo, o sujeito se distancia da coerção, conservando o benefício do recurso, e, em caso de necessidade, modificando a regra, o gesto ou a palavra, inaugurando, assim, uma variante do gênero, cujo futuro dependerá finalmente do coletivo. Acontecendo isso, é o desenvolvimento, a vida mesma do gênero que é assegurada porque ele recebe novas atribuições por meio da recriação pessoal , avaliada e depois eventualmente validada pelo coletivo.(Clot et al. 2001:2)
Na segunda acepção, os autores propõem uma emancipação em relação à história pessoal, a qual vai se caracterizar pelos “esquemas pessoais que, mobilizados na ação, são ajustados sobre o duplo impulso do sentido da atividade e da eficiência das operações.” Seria a emancipação do estilo profissional que desencadearia o desenvolvimento e a eficácia do trabalho propriamente dito na prática pessoal do trabalhador.
Se há, então, um consenso sobre a existência de um grande número de trabalhos sobre o professor, desenvolvidos sob as várias dimensões (cognitivas, didáticas, sociais, históricas, psicológicas...), podemos entender, também, que um
estudo que abrigue as reflexões sobre o ensino como trabalho, a partir dessas concepções, traz contribuições ampliadas sobre o tema.18
Diante desses aspectos relativos ao gênero da atividade e estilo
profissional, como poderíamos analisar os prescritos oficiais para os profissionais da educação quando das suas características constitutivas a partir desses conceitos? E mais: os prescritos oficiais desta pesquisa privilegiariam o gênero da
profissional ou o estilo profissional do professor?
Numa primeira tentativa para responder a essas questões, poderíamos dizer que os prescritos oriundos de uma esfera institucional mais ampla, como é o caso dos documentos desta pesquisa, apresentariam, com maior evidência, características do gênero profissional do professor, justamente por configurarem vários discursos em seu processo de enunciação, ou seja, o discurso histórico da profissão, o discurso do governo, o discurso dos dirigentes do ensino, o discurso do próprio coletivo dos professores, o discurso dos alunos, enfim o discurso da sociedade como um todo. Todos esses discursos impõem uma carga de responsabilidade muito grande para o professor que não vê nesses prescritos um discurso que vá ao encontro de suas necessidades de trabalho. Talvez aqui esteja uma das causas de sua angústia enquanto profissional.
Quanto ao estilo profissional, inicialmente, parece adequado dizer que, ao se resvalar para uma vertente mais ampla da atividade docente - justamente aquela que não retrata as dificuldades de seu dia-a-dia, as situações de ação em que o professor é convocado a agir - os prescritos não privilegiariam essa instância de seu trabalho, o que, a nosso ver, também contribuiria para uma não identificação entre os coenunciadores.
Outro aspecto importante inserido na questão do gênero e do estilo profissional do professor diz respeito à influência dos discursos empresariais que
18 Essa abordagem, que se inscreve na tradição ergonômica francesa, está ainda pouco desenvolvida, segundo, Amigues (2004), mesmo na França, e não tem outro equivalente em outros países, com exceção de artigos em livro de Souza-e-Silva & Faïta (2002) e teses, produzidos por nosso grupo ATELIER.
vão permear o campo da educação e provocar efeitos de uma outra ordem no mundo do trabalho dos profissionais da educação e, mais precisamente, do professor. Essa outra abordagem apresenta-se como tema do nosso próximo momento da pesquisa.