Os procedimentos adotados emergiram dos instrumentos acima discutidos e de nossa experiência de estágio e atuação em OP, da monografia do Bacharelado em Psicologia e dos estudos realizados ao longo do Mestrado. Além disso, a experiência de intercâmbio em um centro de referência em OP, localizado na região sudeste brasileira15, foi de significativa
importância para a sistematização dos nossos dados. Nessa experiência, pudemos cursar uma disciplina específica intitulada “morte e câncer”, conversar com diversos psicólogos e demais profissionais de saúde envolvidos em OP e em projetos de pesquisas, além de atualizarmos inquietações no tocante ao nosso processo de descobertas e de questionamentos relacionados à dissertação e à nossa própria prática.
Diante disso, resolvemos fazer uma investigação preliminar através de entrevistas-piloto com três psicólogos pertencentes ao centro de referência supracitado, a fim de sistematizarmos melhor as entrevistas oficiais, as quais seriam posteriormente realizadas em Natal-RN. Nesta etapa, vivenciamos a experiência de intercâmbio científico não apenas no sentido de
15
articulações intelectuais, mas, sobretudo, existencial. O contato com toda aquele contexto que é modelo de atenção em saúde, além da oportunidade de conhecermos e convivermos com autores outrora apenas estudados e citados nos possibilitou uma abertura de horizontes. Ir a campo antes mesmo do previsto equivaleu a nos lançarmos na trama de significados de nossas reflexões e escolhas. Foi assim que o sentido desta pesquisa foi se atualizando e consolidando.
Ao nosso ver, tal experiência contribuiu para que refletíssemos, mais criticamente, acerca da práxis do psicólogo com crianças em sofrimento oncológico, uma vez que estávamos em contato direto com o contexto local, com a observação da prática e com a apresentação de pesquisas afins ao longo da disciplina cursada.
As entrevistas-piloto foram realizadas de forma aberta com três psicólogos e as perguntas foram surgindo de acordo com o diálogo estabelecido. Pedimos a permissão para gravar a entrevista, e em seguida, literalizá-las a fim de obter o retorno posterior de cada um. E assim foi feito.
Após as entrevistas-piloto, percebemos que a pergunta disparadora já pensada nas etapas de planejamento da pesquisa permaneceria (Como é para você ser psicólogo na oncologia pediátrica?), uma vez que a mesma mobilizara um leque de possibilidades no decorrer das falas. A partir disso, identificamos algumas temáticas recorrentes nas narrativas que foram: a história de inserção na área, a dificuldade de lidar com a iminência de morte das crianças, o sentido de gratidão atribuído ao trabalho desenvolvido, a consideração e o respeito pela espiritualidade e religiosidade da clientela, o sentido fortalecedor do trabalho em equipe, a relevância da pesquisa e da formação na construção de um saber-fazer psicológico, dentre outras. Essas temáticas foram incluídas (quando necessário) como perguntas acessórias nas entrevistas oficiais, dada sua significativa ocorrência e relevância. Além disso, serviram como intercâmbio de experiências e testemunho do vivido. Contudo, para fins de dados oficiais desta pesquisa, consideramos apenas as nove entrevistas feitas com psicólogos da OP
da cidade do Natal-RN. Isto se deu como forma de especificar melhor nosso contexto local de abrangência.
Depois deste intercâmbio, retornamos a Natal e coletamos nossos dados. Inicialmente foi necessário fazer um levantamento oficial da população-alvo da pesquisa, já que até então só tínhamos conhecimento de alguns serviços. Este levantamento foi feito com base em diversas fontes, tais como: indicadores do Conselho Regional de Psicologia, indicações de colegas de trabalho e contatos com os serviços de oncologia de Natal-RN. Este levantamento permitiu que identificássemos com precisão a quantidade de psicólogos atuantes em OP, que naquele momento (2003) era composta por nove psicólogas. Vale ressaltar que dentre as nove colaboradoras, apenas uma delas trabalha como psicóloga, exclusiva, da oncologia pediátrica em Natal-RN. As demais prestam assistência psicológica à criança com câncer em paralelo a atendimentos em diferentes áreas e especialidades médicas. Isto parece estar refletir a realidade das políticas públicas de saúde no Brasil, exemplo disso é a cidade do Natal-RN, que não dispõe de verbas para contratar um número suficiente de profissionais para seu quadro regular e também por ser uma área muito especializada e complexa. Embora a demanda para a atenção psicológica seja crescente e a lei seja clara no que tange à obrigatoriedade da presença de um psicólogo nos serviços especializados de tratamento oncológico, parece que pouco se tem feito para mudar essa realidade local e nacional. Vale ressaltar que nossos colaboradores provêm de instituições especializadas em oncologia tanto de caráter público quanto privado.
O primeiro contato estabelecido com nossos colaboradores ocorreu via telefone, a fim de marcar um encontro individual para a realização da entrevista. Nesse primeiro contato, citamos o tema da pesquisa e a instituição da qual fazíamos parte. Percebemos que todos os colaboradores acolheram com muita abertura o tema pesquisado, mostrando-se disponíveis em contribuir. As entrevistas foram realizadas nas instituições de trabalho às quais as colaboradoras
estavam vinculadas, exceto uma delas que optou pela realização da entrevista em seu consultório. Isto se deu num intervalo médio de quatro meses (período em que procedemos à transcrição das entrevistas e a literalização das narrativas). Em seguida, os contatos foram retomados via telefone, email e/ou pessoalmente a fim de receber o retorno das narrativas.
Todos as entrevistadas foram previamente informadas quanto aos procedimentos metodológicos, não havendo, portanto, nenhuma objeção aos mesmos, sendo que todas as entrevistas foram gravadas em fitas cassete e posteriormente literalizadas no intuito de mostrá- las ao respectivo colaborador, a fim de que este confirmasse e/ou a modificasse a versão final do seu depoimento. E por fim, conferimos nomes fictícios aos colaboradores, resguardando, assim, o caráter de sigilo profissional.
De posse das literalizações conferidas pelas entrevistadas, recortamos alguns fragmentos, a fim de articular melhor nossas reflexões. Este recorte foi feito com base nos momentos que nos sugeriram o modo-de-ser no-mundo dos psicólogos. Em seguida, analisamos os dados com base nos pressupostos teóricos da abordagem fenomenológica existencial.