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2.1.1 Bisol – A sílaba e seus constituintes

Bisol (1999), na linha de Selkirk (1982) e Harris (1983), desenvolve um estudo da sílaba do português sob a visão de que a sílaba possui uma estrutura de constituintes imediatos. A partir do template abaixo (fig.14), que representa o padrão silábico do português, discute a silabificação como um processo de mapeamento entre segmentos e estrutura padrão com vistas à estrutura interna da sílaba.

Figura 14 –Padrão de Construção da Sílaba Base (PCSB)

Padrão geral A R N (Cd) (C) (C) V (C) [+soan] [+soan] ou /S/ [-nas] Fonte: BISOL, 1999, p.103.

i.A sílaba do português tem estrutura binária, representada pelos constituintes ataque e rima, dos quais apenas a rima é obrigatória.

ii.A rima também tem estrutura binária, núcleo e coda. O núcleo é sempre uma vogal, e a coda é uma soante ou /S/.

iii.O ataque compreende ao máximo dois segmentos, o segundo dos quais é a soante não- nasal.

O template representa o padrão canônico da língua e determina o que sejam estruturas bem ou mal formadas. Uma cadeia de sons é escandida em sílabas, conforme o padrão canônico, da seguinte forma: identificado o núcleo, projeta-se a rima e a sílaba; em seguida forma-se o ataque, simples ou complexo, de acordo com o Princípio de Maximização do Ataque; e finalmente, expande-se a rima com a formação da coda.

Essa descrição conta com os Princípios Universais que seguem: o Princípio de Sonoridade Sequencial (PSS), o Princípio de Preservação de Estrutura (PPE), o Princípio da Maximização do Ataque (PMA), o Princípio do Licenciamento Prosódico (PLP) e o Princípio de Integridade Prosódica (PIP). O Princípio de Sonoridade Sequencial permitirá a identificação do núcleo da sílaba, além de determinar que haja ascendência da sonoridade do ataque ao núcleo e queda de sonoridade em direção à coda. Isso reflete o contorno de sonoridade ideal para a sílaba, com o aumento brusco de sonoridade do ataque ao núcleo e uma pequena queda a partir do núcleo em relação à coda. Dessa forma, platôs, no português, são permitidos apenas entre sílabas e não no seu interior.

O Princípio de Preservação de Estrutura dita que a silabificação seja um processo contínuo e exaustivo. Isso quer dizer que, no léxico, fica proibida a formação de estruturas que difiram das permitidas pelos PCSBs. Variações desse molde são encontradas apenas no pós-léxico, onde tal princípio é desativado.

O Princípio de Maximização do Ataque reza que primeiramente se forme o ataque e seja dada preferência à construção da estrutura não-marcada CV. Quanto à qualidade dos elementos que poderão compor o ataque, isso será determinado pelos princípios de língua particular.

Semelhantemente ao PPE, o princípio do Licenciamento Prosódico determina que a silabificação seja exaustiva, com o objetivo de não deixar material fonológico não analisado ou não associado, o que resulta em apagamento, conforme Itô (1986). A alternativa para que não ocorra apagamento de material não analisado é a extraprosodicidade, ou extrametricidade, que pode atingir elementos nas extremidades. Esses elementos ficam invisíveis para a regra e

ao final são reincorporados à sílaba ou à palavra pela regra de Adjunção de Sílaba Extraviada. A autora refere-se à possibilidade de enfraquecimento da condição de coda para aceitar determinadas estruturas e da epentetização para salvar consoantes sem linha de associação com a criação de uma nova sílaba, ou seja, silabificação no vazio.

A epêntese faz parte da silabificação. O processo busca sempre salvar estruturas mal formadas através da adaptação ao padrão canônico da língua. A epentetização licencia segmentos através da silabificação no vazio que é posteriormente preenchido por default ou por assimilação. A vogal default no português é [i], podendo variar com [e] em posição pretônica. A epentetização também pode ocorrer no nível da flexão, uma vez que no português, o /s/ denominador de plural precisa apoiar-se em uma vogal. As vogais epentéticas não recebem acentos primários na língua, mas podem ser portadoras de acentos secundários.

O Princípio de Preservação da Integridade Prosódica defende que se mantenha a estrutura de elementos que não sejam afetados com o acréscimo de material fonológico, seja sílaba ou acento.

Observando que (14) não é suficiente para dar conta da boa formação da sílaba, a autora entra nas condições de língua particular, assim postas (fig.15):

Figura 15 – Condição do Ataque

Ataque

C C

[-cont] [+soa,-nas] [+cont,lab]

Fonte: BISOL, 1999, p.718

A condição do ataque, que no português é formado maximamente por dois elementos, permite grupos compostos por obstruintes não-contínuas ou contínua labial seguidas por líquida, vibrante simples ou lateral.

Dessa combinação são excluídas as sequências dl e vl, inexistentes na língua, além de

sr, sl, zr, zl, r, l, r, l, xr, xl. A condição do ataque também garante que haja diferença de

sonoridade entre os segmentos que coexistem no ataque, sempre crescente em direção ao núcleo. A condição de coda permite que qualquer soante ou /S/ ocupe essa posição para a

coda simples. Já a coda complexa é formada por uma soante seguida de uma consoante contínua coronal.

Quanto ao domínio, no português a silabificação ocorre na palavra e a ressilabificação na frase, atingindo elementos já silabificados.

No que concerne à ditongação, Bisol (1999) defende a ideia de que todo ditongo crescente é derivado de hiato, isto é, não existe na estrutura profunda, mas se forma no pós- léxico por ressilabificação. Os ditongos lexicais em português são originalmente decrescentes, a rima é ramificada e a segunda vogal da sequência ocupa posição de coda. Os ditongos crescentes da língua que não podem ser analisados como hiatos lexicais são excepcionalmente os grupos kw e gw seguidos de /a/ ou /o/, como em Paraguai, água, adequar. Segundo Bisol, teríamos um ditongo registrado no léxico, ou seja, não formado no pós-léxico, ou essas palavras são registradas no léxico com um segmento complexo no ataque, kw e gw. A segunda alternativa é a preferida.

No caso de sequências de três vogais na língua, ocorre um ditongo decrescente na rima de uma sílaba seguida de uma sílaba iniciada por uma vogal. Na existência de duas vogais idênticas, segue-se a abordagem de Harris (1985) que relata que em uma sequência de vogais de mesma altura, a segunda é sempre mais sonora, criando-se um ditongo crescente.