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Apesar de ter como foco principal a memória de Clara acerca de sua formação pré- acadêmica e do papel das professoras como mediadoras no processo de constituição de sua subjetivação profissional – a pesquisa visa priorizar essa constituição, privilegiando o ambiente escolar e seus atores –, a primeira categoria de análise apresentada diz respeito à família da professora, pois em sua história Clara destaca como “imenso” o papel de sua família em relação à sua escolha profissional.

Falar em família é falar de origem. A família é uma importante referência na vida das pessoas, onde geralmente acontecem as primeiras relações sociais, os primeiros contatos com a cultura, as primeiras mediações. E ao falar em constituição humana pessoal e profissional em uma perspectiva histórico-cultural, é fundamental destacar as relações humanas e os contextos em que estas ocorrem e considerar que a história de uma vida, de uma profissão, assim como a memória que narra esta história é constituída nas e pelas relações sociais, pela mediação de signos presentes na cultura (Vigotski, 2000).

Destaquei da narrativa de Clara trechos que ilustram aspectos fundamentais em sua constituição pessoal/profissional, iniciando pelas relações familiares.

Nascida em 1967 em uma cidadezinha do interior de Minas Gerais, Clara conta que desde pequena percebeu que tinha um grande valor na vida dos pais ao saber da história de seu nascimento que, diz, a marcou muito.

“ (...) a minha c he g a d a fo i e é p a ra mim a té ho je , uma liç ã o a ssim... d e a mo r!”

Para a cultura local da época, uma jovem solteira de dezessete anos engravidar de um rapaz também de dezessete anos representava, nas palavras de nossa protagonista, um caos. Principalmente considerando que entre o casal havia diferenças como cor da pele e condições socioeconômicas. Diante da opção de interromper a gravidez, os jovens pais de Clara escolheram enfrentar juntos as dificuldades para assumir a filha. Uma escolha corajosa e definitiva que representou para a menina uma marca inicial muito forte de amor e proximidade, conforme mencionado na apresentação de sua história.

Ao destacar a proximidade e o amor que ela sempre recebeu dos pais, Clara atribui a este fato uma relação direta com uma de suas características mais marcantes, pois afirma que esta pode ter sido a “pedra inicial” em relação à afetividade26 que ela apresenta em suas

relações interpessoais. Observa-se que a constituição de uma subjetividade marcada pela afetividade começou muito cedo em Clara, uma vez que a história revelada pela mãe foi internalizada pela menina com um sentido especial ao compreender o amor entre os pais e por ela desde a gestação. Com a mediação da história narrada pela mãe, a professora re-significou a própria história.

Nos relatos da professora, fica evidente a presença de pais que buscam compartilhar com a filha o processo de desenvolvimento também em relação às vivências escolares. São pais que demonstram, em suas atitudes, a importância do estudo, como por exemplo, o esforço em garantir a continuidade do processo educacional em uma escola particular, mesmo em um momento de crise financeira.

Em casa, a mãe acompanhava atentamente as tarefas escolares apesar de sua pouca escolaridade. Clara diz que a mãe seria uma ótima professora, mas foi a única das irmãs que não estudou porque se casou muito cedo e preferiu cuidar da família. Cuidar da família significava também cuidar do material da filha, de sua aprendizagem escolar.

“ Eu te nho le mb ra nç a s, a ssim, ma ra vilho sa s d a minha mã e (...) na va ra nd a d a minha c a sa , o nd e e u ia fa ze r d e ve r, a minha mã e a sse nta va lá no c a ntinho d a va ra nd a , nó s se ntá va mo s no c hã o . A minha mã e p e g a va o s me us lá p is, p e g a va o me u e sto jo ... e la a p o nta va ... e la e ra muito c a p ric ho sa , e la a p o nta va tud o c o m e stile te (...)”

“ To ma va liç ã o . (...) Minha mã e nã o sa b ia a s c o isa s q ue ... à s ve ze s a g e nte e stud a va a lg uma c o isa e m q ue e la tinha d úvid a s, e la p e g a va me u c a d e rno e lia tud o . Ma nd a va -me e xp lic a r o q ue a p ro fe sso ra tinha fa la d o e d e p o is e la ia fa ze nd o um jo g o d e p a la vra s p a ra mim. Ela c o me ç a va uma fra se p a ra te rmina r d e a c o rd o c o m a q uilo q ue e u e sta va e stud a nd o . A minha mã e p a ssa va e xe rc íc io s no c a d e rno p a ra mim, c o p ia nd o o c a d e rno ... Entã o p a ra mim fo i d e fund a me nta l imp o rtâ nc ia . Fo i d e c isivo p a ra mim, muito imp o rta nte .”

As relações entre mãe e filha, narradas pela docente, também podem ser consideradas constitutivas de sua formação pré-acadêmica; uma intensa relação afetiva, de troca, de criatividade, capricho, aspectos lúdicos e uma presença efetiva na busca de promover a aprendizagem. Uma constituição dialética da formação, na medida em que se alternavam em papéis ora de quem ensina, ora de quem aprende. Fato que nos remete ao que afirma Moita (1995) a respeito da formação:

Ninguém se forma no vazio. Formar-se supõe troca, experiência, interacções sociais, aprendizagens, um sem fim de relações. Ter acesso ao modo como cada pessoa se forma é ter em conta a singularidade da sua história e sobretudo o modo singular como age, reage e interage com os seus contextos. Um percurso27 de vida é assim um percurso de formação, no sentido em que é um processo28 de formação. (p.115). Além das experiências com os pais, entra em cena a família da mãe de Clara. Isto porque os seus pais se casaram e a necessidade de ajuda os levou a morar por um ano na casa de sua avó materna. Segundo Clara, a família de sua mãe sempre foi mais próxima e, de fato,

27 Em itálico no original. 28 Em itálico no original.

foi no contexto familiar da mãe que a menina nasceu e vivenciou as primeiras relações sociais. Ela afirma que na família da mãe teve mais exemplos.

Uma característica da família materna de Clara29 precisa ser destacada ao pensar em sua constituição profissional. Clara conta:

“ A minha mã e te m se is irmã s, se is p ro fe sso ra s! Se is p ro fe sso ra s... A únic a q ue nã o é p ro fe sso ra é a minha mã e .”

Desta forma, a menina se viu inserida muito cedo em um ambiente em que a profissão docente estava muito presente. A escola em que as tias trabalhavam ficava próxima de sua casa, o que proporcionava uma convivência cotidiana com o trabalho das tias-professoras. Clara começou a perceber em suas tias uma prática que promovia a aprendizagem de fato, a ponto de dizer que

“ (...) na e sc o la e u re a lme nte ia a p re nd e r tud o , p o rq ue a s minha s tia s c o nse g uia m e nsina r.”

A concepção de escola passa a ser mediada por uma prática que representa este espaço como um lugar onde a aprendizagem efetivamente acontece. Uma escola e uma aprendizagem que estavam relacionadas a um modo de ensinar, ao modo das tias. Nesse momento, em que a família e a escola configuram-se como instâncias não separadas, a instituição educacional é vista como familiar e não algo que está no mundo “lá fora”. Reitero a importância de destacar esse contexto inicial de Clara no âmbito acadêmico por acreditar que, como afirma Pino (2005, p.156), “o que a criança internaliza do meio cultural se torna parte integrante de sua constituição como pessoa”.

Clara conta que “brincava de professora” e, quando isso acontecia, suas tias falavam:

“ Está ve nd o , C la ra , vo c ê va i se r uma ó tima p ro fe sso ra !”

29 É importante ressaltar que a docência, assim como a enfermagem, foi considerada uma atividade profissional que, ao envolver o “cuidado dos outros”, estava ligada a características consideradas essencialmente femininas (Codo, 1999). Essa marca histórica e social ainda estava muito presente nesta época em que Clara era criança e, provavelmente, também está relacionada ao fato de que em uma família de sete filhas, seis sejam professoras.

Ela achava aquilo o máximo e as palavras das tias eram muito significativas para ela, pois faziam-na acreditar que “ia conseguir ser uma professora”. Uma das tias que dizia isso era a tia Beatriz, figura importante em sua história.

Pode-se afirmar que a escola, com seus componentes, passava a fazer parte da realidade da menina Clara e de sua imaginação, presente inclusive em suas brincadeiras. De acordo com Vigotski (1988),

No brinquedo, a criança opera com significados desligados dos objetos e ações aos quais estão habitualmente vinculados; entretanto, uma contradição muito interessante surge, uma vez que, no brinquedo, ela inclui, também, ações reais e objetos reais. Isto caracteriza a natureza de transição da atividade do brinquedo: é um estágio entre as restrições puramente situacionais da primeira infância e o pensamento adulto, que pode ser totalmente desvinculado de situações reais. (Vygotsky, 1988, p.112).

Estas relações, portanto, começavam a constituir em Clara uma possível professora, de acordo com o modelo e a fala das tias. Conforme a contradição de que fala Vigotski (Vygotsky, 1988), as brincadeiras da menina incluíam ações e objetos reais relativos ao ser professora, vivenciados em sua infância, e sinalizavam a construção de sentidos e significados posteriormente presentes em sua vida profissional quando adulta.

Vigotski afirma que o “brinquedo é muito mais a lembrança de alguma coisa que realmente aconteceu do que imaginação. É mais a memória em ação do que uma situação imaginária nova” (Vygotsky, 1988, p.117). A brincadeira “de professora”, recordada no presente ao narrar a história oral de vida, já era no momento de sua realização uma lembrança de ações que faziam parte do cotidiano de Clara na relação com as tias-professoras e através delas com a escola, com o aprender, com a educação.

Uma família de professoras. Todas as tias de Clara eram professoras, mas cada uma com características muito diferentes. Na sessão final da história oral de vida, ao ser indagada

sobre o papel das tias-professoras em sua formação, Clara apontou como “modelo de

inspiração” a tia Beatriz e, a partir desta, apresentou algumas outras

“ (...) a tia He le na fo i p ro fe sso ra p o r d o ze a no s. Ma s e la d e sistiu. Ela p re fe riu mo nta r uma lo ja d e p e ç a s. E ho je e u a o lho e a c ho -a tã o triste ! Se e la fo sse ... e la te m tud o o q ue ta lve z nã o te ria se e la tive sse c o ntinua d o na sa la d e a ula , e m te rmo s d e b e ns ma te ria is. Ela é uma c o me rc ia nte b e m- suc e d id a ... ma s o o lho d e la é d ife re nte d e q ua nd o e la e ra p ro fe sso ra . Q ua nd o e la e ra p ro fe sso ra , q ue a s me nina s d e la e ra m p e q ue nininha s, e u muita s ve ze s fiq ue i c o m a s me nina s p a ra e la ir tra b a lha r. E e la e ra uma b o a p ro fe sso ra . Ma s e la d e sistiu.”

“ A tia Luísa é uma p ro fe sso ra e xc e le nte . Ma s e la é muito b ra va . (...)”

“ A tia Líg ia fa la va c o mig o q ua nd o e u e ra p e q ue na (...): ‘ Vo c ê va i fa ze r ma g isté rio , minha filha , p o rq ue ma g isté rio é p ro fissã o d e mulhe r. Po rq ue vo c ê tra b a lha q ua tro ho ra s só lá na e sc o la e d á te mp o d e vo c ê c uid a r d a sua c a sa , d o s se us filho s...’ a tia Be a triz fa la va a ssim p a ra mim: ‘ Nã o é a ssim, nã o ! Vo c ê te m q ue ir só se vo c ê g o sta r. Se vo c ê nã o g o sta r, vo c ê nã o va i nã o , q ue vo c ê nã o d á c o nta . Sa la d e a ula nã o é fá c il!’ ”

“ (...) e la s nã o sã o ig ua is a tia Be a triz, d e je ito ne nhum, e la s sã o linha d ura ...”

Tia Beatriz ganha papel de destaque e serve de parâmetro para Clara falar das outras tias-professoras. Ainda que sejam diferentes entre si, para a menina são diferentes da tia com quem ela gostava de ir para a escola, que não era “linha dura”. Ao contrário da tia Beatriz, a tia Helena desistiu da docência e tornou-se uma pessoa triste; a tia Luísa era muito brava, apesar de excelente professora, e a tia Lígia via o magistério como opção de trabalho conveniente para a mulher.

As dificuldades intrínsecas à docência e a necessidade de haver um prazer em ser professora como condição para a atuação profissional são elementos importantíssimos da fala

Esta fala pode ser descrita como um dos aspectos do processo de constituição da consciência de Clara em relação ao que significa ser professora. Toassa (2006), ao estudar o conceito de consciência em Vigotski, afirma que as fontes da formação da consciência são sócio-históricas. A “consciência é sempre consciência socialmente mediada de alguma coisa” (Vygotski apud Toassa, 2006, p.72). Nesse sentido, o discurso de Beatriz, ao ganhar significação e ser internalizado por Clara, passa a constituir a consciência e a memória desta a ponto de ser rememorado no presente.

As tias-professoras de Clara ensinaram-lhe diferentes visões a respeito da profissão, da relação com a profissão e da inserção desta na vida pessoal. Em cada espaço que não o da escola, também havia conteúdos de um currículo oculto: os diferentes modos de constituir-se e atuar como professora. No que se refere ao currículo oculto30, esta é também uma aprendizagem muito importante e significativa: o que faz um professor. Nesse sentido, é fundamental um olhar mais cuidadoso para as professoras que Clara encontrou em sua formação. Fica uma pergunta: se Clara tivesse tido mais exemplos da família paterna, em que não havia professoras, teria se constituído docente?