Immanuel Kant foi muito influenciado pelo empirismo inglês de John Locke (1632 – 1704), mas integrava tal referência com o iluminismo Wolffiano52. “Locke tinha feito prevalecer no empirismo duas proposições fundamentais: 1) “A razão não pode ir mais além
dos limites da experiência”; 2) “A experiência é o mundo do homem, o mundo daqueles problemas que preocupam o homem”53. Mas este ponto de vista articulava-o e fundia-o ao
mesmo tempo com o método do iluminismo Wolffiano que defendia que “a razão deve
fundamentar, precisamente nestes limites, a capacidade e os poderes do homem”54. Com o
enxerto e a fusão destas duas exigências nascia a filosofia crítica de Kant que representa uma síntese das filosofias empirista e racionalista.
No mundo antigo, o paradigma da verdade é a natureza, mas esta lógica é rica em extensão e pobre em compreensão na visão tanto dos empiristas como dos racionalistas. No século XVII, especialmente os primeiros, tiram a natureza como finalidade e desorganizam tudo. Não é mais a natureza, mas o eu cognoscente, epistêmico que começa ser a medida das coisas. O que faz Kant diferente? Ele destaca a necessidade de se ter um “plano prévio” para conhecer.
Compreenderam que a razão só entende aquilo que produz segundo os seus próprios planos; que ela tem que tomar a dianteira com princípios que determinam os seus juízos segundo leis constantes e deve forçar a natureza a responder às suas interrogações em vez de se deixar guiar por esta; de outro modo, as observações feitas ao acaso, realizadas sem plano prévio, não se ordenam segundo a lei necessária, que a razão procura e de que necessita55.
Kant critica a lógica de Aristóteles que até então ainda predominava na filosofia que colocava a primazia na demonstração das regras, mas o importante, como dito acima, é estabelecer um plano para conhecer a natureza e não submeter-se a ela. “Pode reconhecer-se
que a lógica, desde remotos tempos, seguiu a via segura, pelo fato de, desde Aristóteles, não
51Esta lógica começou a ser questionada com a prova do geocentrismo, mas isso veio efetivamente com Galileu (1564 –
1642) e filosoficamente com Kant.
52 Christian Wolff (1679-1754) é um dos maiores representantes do iluminismo alemão que pregava a liberdade filosófica e
defendia que a filosofia deveria ter uma finalidade prática, por exemplo, a felicidade.
53 Abbagnano, 1984, Vol. VIII, p. 58. 54 Ibid., p. 58.
55
ter dado um passo atrás”56. A lógica é apenas uma ciência que “expõe minuciosamente e
demonstra rigorosamente as regras formais de todo o pensamento57. Ou seja, Kant retira todo aspecto da finalidade do conhecimento enfatizado por Aristóteles que predefinia o conhecimento e impossibilitava chegar ao conhecimento real dos objetos.
Kant concorda de que a lógica é uma formalidade que não pode ser descartada, mas ao ser utilizada como única referência, sua tendência é permanecer “somente em si” e não “tratar
dos objetos”. Conclui-se então que a lógica é uma “antecâmara das ciências” por que não
chega aos objetos. Pode-se chegar ao objeto de duas maneiras: “ou pela simples determinação
do objeto e de seu conceito ou então realizando-o”58. O primeiro refere-se ao “conhecimento
teórico” e o segundo ao “conhecimento prático” da razão.
Então, Kant traz um referencial determinante que altera totalmente o status quo do conhecimento até então:
Até hoje admitia-se que o nosso conhecimento se devia regular pelos objetos; porém, todas as tentativas para descobrir a priori, mediante conceitos, algo que ampliasse o nosso conhecimento, malogravam com este pressuposto. Tentemos, pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento, o que assim já concorda melhor com o que desejamos, a saber, a possibilidade de um conhecimento a priori desses objetos, que estabeleça algo sobre eles antes de nos serem dados59.
A tarefa de sua grande obra Crítica da Razão Pura consiste em “alterar o método da
metafísica”, pois até então a metafísica não havia alcançado a mesma legitimidade que alcançaram a física e a matemática. Kant com isso, não almejava eliminar a metafísica, mas dar-lhe um “status” tão seguro como as ciências da matemática ou da física.
Kant deixa muito claro que “nosso conhecimento começa pela experiência” (...) mas isso não prova que todo ele derive dela. Pergunta: (...) haverá um conhecimento assim,
independente da experiência e de todas as impressões dos sentidos? Sim, o conhecimento puro! 60.
A filosofia que Kant estabelece é o que ele chama de “filosofia transcendental”, pois esta parte do pressuposto que o conhecimento nasce de “dois troncos”, mas oriundos de “uma 56 Ibid., p. 15 57 Ibid., p. 16. 58 Ibid., p. 16. 59 Ibid., p. 20. 60 Ibid., p. 37.
raiz em comum”: um é a “sensibilidade” e outro é o “entendimento”; “pela primeira são-nos dados os objetos, mas pela segunda são esses objetos pensados”61. Assim, podemos
considerar dois elementos - a intuição e os conceitos - que são os elementos necessários para o nosso conhecimento e estes podem ser “empíricos” ou então “puros”. São empíricos quando tem sensação e são puros quando nada de empírico se mistura. Então, a capacidade de receber as sensações consideradas representações e o entendimento é a capacidade de produzir estas representações. Na segunda parte da Crítica da Razão Pura referente à Lógica Transcendental há uma passagem que resume toda a primeira parte da obra e que nos auxilia no entendimento:
Pelas condições da nossa natureza a intuição nunca pode ser senão sensível, isto é, contem apenas a maneira pela qual somos afetados pelos objetos, ao passo que o entendimento é a capacidade de pensar o objeto da intuição sensível. Nenhuma destas qualidades tem primazia sobre a outra. Sem a sensibilidade, nenhum objeto nos seria dado; sem o entendimento nenhum seria pensado. Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas. Pelo que é tão necessário tornar sensíveis os conceitos (isto é, acrescentar-lhes o objeto na intuição) como tornar compreensíveis as intuições (isto é, submetê-las aos conceitos). Estas duas capacidades ou faculdades não podem permutar as suas funções. O entendimento nada pode intuir e os sentidos não podem pensar. Só pela sua reunião se obtém o conhecimento. Nem por isso se deverá confundir a sua participação; pelo contrário, há sobejo motivo para os separar e distinguir cuidadosamente um do outro62.
Para Kant, o conhecimento é sempre conhecimento de um objeto para um sujeito, por isso consideramos que sua interpretação sobre a consciência é sempre consciência a partir de um objeto que é produto de uma representação de uma coisa (objeto) resultante da chamada capacidade de apreensão por meio dos sentidos. Quando o ato de apreensão pelos sentidos está voltado para objetos exteriores (em sentido empírico), a consciência empírica toma a forma de uma percepção, mas quando o ato de apreensão se volta para os próprios estados ou eventos internos, a consciência em questão toma a forma de uma introspecção ou uma representação interna.
Enquanto a consciência em sentido empírico é percepção das representações, em um sentido intuitivo consciência significa saber que o percebido pertence à esfera de um determinado conceito. Além disso, se a consciência em sentido intuitivo é o saber do que aparece representado como pertencente a um determinado conceito, a consciência de si como
61 Ibid., p. 54 62 Ibid., p. 89.
sujeito é o saber que está vinculado como uma realidade objetiva, independentemente do próprio sujeito. Ou seja, com isso o ser humano está aprisionado numa subjetividade sem fim.
1.3 Autoconsciência e Consciência infeliz na concepção do idealismo objetivo