2. TEORIFORANKRING OG BEGREPSAVKLARING
2.4 O MSORG OG Å VÆRE AGENT I EGET LIV
Já há um certo carinho moderno pela crise. O dia em que a crise for embora, o que faremos? O que será de nós, sem assunto, sem tremor, relegados a tarefas menores como, digamos... trabalhar? Teremos então um intenso tédio conjugal pela Pátria
(JABOR, Contracapa, 1993).
Arnaldo Jabor está entre a subjetividade e a aferição da história, buscando através da influência literária e das figuras de linguagem, principalmente a ironia, a análise social e crítica do cotidiano do Brasil. O sincretismo de linguagens presente em seus textos faz com que haja atenção a um estilo de escrever que se confunde muitas vezes com “cinema no jornal”, ou “cinema escrito”.
Jô Soares (1995) definiu Arnaldo Jabor como o “cineasta da palavra”. E não seria para menos, tendo em vista que os textos de Jabor mesclam uma influência forte da linguagem cinematográfica, através de um quase roteiro em forma de prosa. As imagens mesclam-se com as palavras através de um estilo que só Arnaldo Jabor tem.
Por isso, ler um texto de Jabor é como assistir a um filme. O autor escreve como quem fala, com um olhar cinematográfico, de alguém que olha através dos fatos, ou melhor, por entre os fatos, mostrando mais do que se percebe na realidade.
Sobre a relação de Jabor com a imagem e com o cinema no texto impresso, Suzuki Junior (1993, p. 8) diz que:
(os textos de Jabor) (inserção minha) são roteiros ou pré-roteiros. Sua técnica preferida é a da justaposição, como são justapostas as imagens no cinema. Nesses textos, as imagens – imaginadas mesmo em alguns casos, evocadas pela memória em outros, ou ainda sendo desocupadas ou desmontadas ideologicamente – são tudo. E, sendo cinema, os textos de Jabor trazem talvez a marca mais preciosa da sua geração: o desejo de interpretar o Brasil (grifo meu).
Mais do que representar, Jabor propõe a necessidade de interpretar o cotidiano tratando-o não como causa e efeito, mas como um apanhado de situações que culminaram em determinadas ações. Quando discorre sobre obras literárias, cinema ou mesmo a sua própria realidade pessoal, Jabor vai mais longe e enfatiza a liberdade de escrita num estilo que se funde em outros estilos e levantando uma realidade muitas vezes ufanística, saudosista ou lamuriosa.
Suas crônicas produzem sentido no cotidiano através da relação que exerce com o mesmo, revelando mais do que o próprio dia-a-dia, possibilitando ao leitor uma relação com outros textos, através de “hipertextos” expostos. Esses hipertextos se caracterizam pela relação que há entre o que está sendo dito e o aprofundamento que podemos fazer do assunto. As crônicas estão permeadas por novas possibilidades de interpretação do mundo, a partir da concepção que o autor faz dele e também com novas interpretações da realidade, possibilitando novas opiniões para o leitor.
Comentários caracterizam o texto, em que as imagens ilustram acontecimentos e dão a eles uma espécie de “vida própria”, pois o autor discute os episódios sociais e políticos brasileiros, acrescentando aos mesmos questionamentos pertinentes numa quase “gesticulação” das palavras.
Para Límoli (2005, p. 51): “Jabor conseguiu ao longo dos anos consolidar um estilo híbrido, ímpar na literatura nacional, onde desaparecem as fronteiras entre o verbal e o não- verbal, o texto escrito e a imagem, e principalmente, os diferentes gêneros textuais”.
Na maioria das crônicas de Arnaldo Jabor, os assuntos se referem à política brasileira, e o cronista, com um olhar aguçado e com palavras ácidas, discorre acerca dos fatos e personalidades inseridas no contexto político-social.
Em relação à ironia, Jabor utiliza diferentes referenciais para que a mesma se concretize em seu discurso, pois através de afirmações que muitas vezes não condizem com a realidade, Jabor considera a possibilidade de “brincar” com as palavras.
Outros autores também fazem isso, como Hutcheon (2000, p. 18), que diz usar a ironia: “como sendo uma estratégia discursiva de maneira a fazer sentido para os outros além de mim mesma”.
A ironia só se torna possível, assim, através da idéia de afirmar algo pela sua negação; e contextualizando a sociedade de hoje, em termos de liberdade de escrita, a ironia torna-se uma arma a favor da veiculação de idéias e críticas, tal qual Arnaldo Jabor utiliza, pois:
nos dias de hoje, dado o impacto das teorias pós-estruturalistas da impossibilidade de significado unívoco e estável, a ironia adquiriu uma condição um tanto privilegiada para algumas pessoas [...] a ‘solução’ irônica de significados plurais e separados – o dito junto com o não dito (grifo meu)– mantidos em suspensão (como óleo e água) pode desafiar a noção de que a linguagem tem uma relação referencial de um para com uma realidade externa a ela (HUTCHEON, 2000, p. 89).
Essa consideração possibilita pensarmos como Jabor se refere aos acontecimentos políticos através de afirmações que caracterizam determinados fatos pela negação dos mesmos. Essa maneira de utilizar a linguagem está presente no estilo das crônicas de Arnaldo Jabor e por vezes contextualiza e se aproxima do sentido da imagem.
A formação de cineasta de Arnaldo Jabor lhe permite escrever crônicas roteirizando as ações das personagens e a direção dos acontecimentos. Como uma câmera, o seu texto percorre detalhes do cotidiano, das pessoas e personalidades descritas com minúcias que não percebemos no dia-a-dia.
Dividindo opiniões, há quem ame e quem odeie Arnaldo Jabor devido ao seu estilo cáustico e irônico de escrever. Entretanto, a influência e a importância do autor para o jornalismo e para o cinema no Brasil não podem deixar de ser percebidas, mesmo porque é um autor presente nos diversos meios de comunicação do país.
Vamos conhecer, agora, quem é Cido Gonçalves, o ilustrador das crônicas de Arnaldo Jabor e de que forma o texto não verbal, ou seja, a imagem, também possui peculiaridades próximas à opinião do ilustrador.