1. INTRODUCTION
1.5.2 MSC and inflammatory niches
O título dos livros de Marília Scalzo e de Tim Holmes e Liz Nice – Jornalismo de
Revista/Magazine Journalism – é um desafio aos críticos que apontam o universo das
revistas como paralelo ao dos jornais. Jenny McKay afirma que “uma coisa curiosa
acerca do jornalismo de revista [tal como qualquer outra perspetiva de análise envolvendo a revista, como se viu no ponto anterior] é a muito menor atenção
académica que tem atraído, quando comparado com o jornalismo de jornais”. E isso,
sublinha a autora britânica, “é verdade para todos os aspetos das revistas que os académicos poderiam estudar: história, questões éticas, influência de órgãos reguladores, linguagem, sociologia, etc.” (Mckay, 2000: 4).
Para a académica britânica, há razões que tornam compreensíveis esta atitude
por parte da academia nesta área científica. “As hard news [características dos jornais]
são vistas como excitantes, na linha da frente e mordazes, maioritariamente sobre guerra ou crime ou assuntos do Estado. As revistas, com os seus deadlines menos frequentes, são consideradas ligeiras, menos importantes e menos relevantes,
ocupando-se a maior parte das vezes com assuntos que não importam muito” (Mckay,
2000: 4).
Como se percebe pela diversidade que caracteriza este tipo de publicações, não é preciso ser jornalista para criar, dirigir ou trabalhar numa revista. A própria designação “jornalista” denuncia uma relação íntima com os jornais e não remete para o mundo das revistas. Apesar disso, da distinção mais fina de Johnson e Prijatel apresentada no ponto I.5, é defensável que as revistas de consumo, nas vertentes “interesse geral” e “especializadas” possam reunir características jornalísticas. Em particular, as da primeira categoria, onde se inserem as newsmagazines.
É esse o caminho apontado por Ana Fragoso35 na tese de doutoramento
Formas de Expressão da Comunicação Visual em Portugal – Contributo para o Estudo da Cultura Visual do Século XX, através das Publicações Periódicas, que divide as
publicações em dois grandes grupos: “periódicas informativas”, onde inclui os jornais e
as revistas ilustradas de informação, e “periódicas especializadas”, que exploram as
39 mais diversas temáticas (2009: 161). Esta classificação bipartida da autora é tanto mais interessante por corresponder a um olhar exterior aos Estudos do Jornalismo, uma vez que a tese foi apresentada à Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa para obtenção do grau de Doutor em Design. Isto significa que, de um ponto de
vista visual, às “revistas ilustradas de informação” são reconhecidas características que
as colocam lado a lado com os jornais. Entre as revistas que a autora classificou como “revistas ilustradas de informação” encontra-se a Visão (Fragoso, 2009: 389,390).
Nos casos em que se pode falar de jornalismo de revista, ou seja, da autoria de uma redação de jornalistas profissionais, guiados por um código deontológico e práticas de trabalho idênticos àqueles que trabalham em jornais, fica evidente que, se o produto revista tem características próprias, os seus conteúdos jornalísticos textuais
e imagéticos serão também particulares. Wilder Vieira afirma que “o jornalismo de
revista pode ser traduzido como a arte de seduzir e envolver o seu público alvo por
meio de conteúdo que realmente atenda as suas expetativas” (Vieira, 2005: 10). Para o
autor brasileiro, “a revista incorpora uma espécie de paradoxo jornalístico”, uma vez que em vez da imparcialidade exigida aos profissionais e ensinada aos alunos de
jornalismo, “a revista surge na contra-mão com uma estrutura pautada na
periodicidade e através de um texto interpretativo, permeado por uma construção subjectiva a encargo do repórter” (Vieira, 2005: 8).
Um elemento que desempenha um papel muito importante na disposição das peças jornalísticas nas revistas é o design: embora se possa dizer o mesmo dos jornais, é indiscutível que neste tipo de publicações não periódicas, que usam a cor em todas as páginas, a complexidade neste campo é superior. Tim Holmes clarifica muito bem o papel desta espécie de “cimento” que liga palavras e imagens: “pense em quase todos os tipos de revistas e pensará não só em palavras a preencher as páginas, pensará também nas imagens e como estas se relacionam com as palavras, como esses elementos trabalham juntos dentro de um contexto: esse contexto visual é o design da revista” (Holmes, 2000: 158).
Para além desse jogo diferenciador entre imagem e palavra, uma característica que torna o jornalismo de revista completamente diferente do de jornais é o facto de,
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média para serem os primeiros em coisa alguma” (Mckay, 2000: 71), ou seja, não estão
preocupadas em conseguir cachas. O tratamento jornalístico dos temas pode, por isso,
ser mais profundo e menos apressado. O valor-notícia “novidade”, característica
essencial do jornalismo de jornais, média audiovisuais e digitais, encontra-se arredado do universo das revistas, e o imediatismo não faz parte do vocabulário deste tipo de
publicações. Espaço e tempo – os dois maiores constrangimentos da prática
jornalística – tornam-se, assim, consideravelmente menos importantes quando se fala
de jornalismo de revista. “A construção de textos para revistas”, sublinha Poliana Rollo,
“possui maior liberdade em relação ao estilo, uma vez que elas possuem maior disponibilidade de tempo para informar, analisar e interpretar o fato do que os demais
meios de comunicação” (2008: 18). Existe, por isso, uma preocupação com a
contextualização que ultrapassa a dos jornais. “Uma revista tem uma cobertura em maior profundidade” também afirmam Johnson e Prijatel, e o facto de lidar com um horizonte temporal mais dilatado, permite-lhe abordar tendências e problemáticas, duas questões que os jornais trabalham com dificuldade. Em suma, “os seus artigos vão para lá das notícias” (Johnson e Prijatel, 2007: 5).
Para Jean-Marie Charon, uma característica distintiva da informação nas revistas é o facto de esta não ser apenas transmitida com eficácia e rigor, mas ser
também encenada. Afinal, a revista centra-se no leitor e é avaliada “pela sua
capacidade de surpreender e de propor temas inesperados” (Charon, 2008: 77). Segundo o autor francês, o jornalismo de revista é o mais forte quando é necessário “ajudar a compreender questões complexas, dar conselhos ou fornecer uma informação prática” (Charon, 2008: 77,78). O jornalista de revista tem de ser “criativo,
imaginativo, ultrassensível a tudo o que movimente e possa interessar aos leitores”. A
criatividade, diz o autor, tem de se aliar a outras qualidades: competência, especialização, rigor, elegância de estilo, sentido estético, capacidade de seduzir
(Charon, 2008: 81). Para o autor francês, o conteúdo informativo de revistas “deve ser
original, atraente, interessante, mas deve ser também sedutor, capaz de dar prazer”. Uma vez que a curiosidade e a emoção dos acontecimentos já arrefeceu, explica o sociólogo, no jornalismo de revista é especialmente importante saber contar uma boa história que entrecruze texto e imagem (Charon, 2008: 81).
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Por isso mesmo, ao contrário do que acontece nos jornais, “a notícia ‘nua e
crua’ nunca teve lugar de destaque em revistas” (Scalzo, 2011: 42). Reportagem, perfil, entrevista e géneros híbridos, como a crónica e o dossier, são os géneros jornalísticos
privilegiados. O tom das “estórias” é também diferente nos dois tipos de imprensa –
uma reportagem ou um perfil num jornal corresponde a uma estrutura mais factual, neutra, concisa e curta do que os mesmos géneros jornalísticos tratados numa revista, que permite e incentiva um cunho pessoal do jornalista na forma de construir a narrativa. Essa diferença é notória mesmo entre as peças que os jornais semanários publicam no caderno principal e nas revistas que os acompanham como suplementos. Em Portugal, é o que acontece no caso dos semanários Expresso e Sol, por exemplo.
Jenny Mckay lembra a famosa frase de Lord Northcliff36 – “São as hard news que
captam os leitores. As estórias mantêm-nos37” –, para sublinhar que se esta é
“parcialmente verdadeira nos jornais, é muito mais verdadeira nas revistas”. Muitas revistas, explica, são preenchidas quase na totalidade por peças jornalísticas que se distanciam da notícia. É isso que torna o jornalismo de revista distinto, uma vez que as
notícias são idênticas em todos os média, enquanto as estórias “criam um caráter e um
tom únicos” (Mckay, 2000: 80).
Para Jean-Marie Charon, quando considerada na sua globalidade, a informação de revistas tem uma característica muito específica: é positiva (2008: 88). Este tipo de publicações inclui numerosas rubricas que dão conselhos, dialogam com os leitores. Na maior parte das revistas, informação significa “explicação, descoberta,
acompanhamento do leitor, partilha de um hobby ou de uma paixão” (Charon, 2008:
88). Quanto mais especializada for a revista, mais próxima dos leitores será a sua linguagem, uma vez que sabe exatamente para quem está a falar e o que esse público
36 Jornalista e empresário inglês que fundou, entre outros títulos, o Daily Mail e o Daily Mirror (1865- 1922).
37 No original: “It is hard news that catches readers. Features hold them”. O termo inglês feature não tem tradução para português. Optou-se por estórias por oposição a notícia, no seu sentido jornalístico mais estrito. O conceito de feature corresponde a vários tipos de peças jornalísticas que partilham características comuns: são mais longas e com uma estrutura menos rígida que as notícias, não têm ligação direta à atualidade, e permitem um tom mais pessoal na forma como são redigidas. Mckay divide os features em: news backgrounder, traduzível por reportagem de contextualização; entrevista ou perfil; entrevista composta (com vários testemunhos individualizados sobre o mesmo assunto); histórias de interesse humano; ensaio; advice (peças que dão conselhos sobre como fazer alguma coisa); reportagem (Mckay, 2000: 85-91).
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gosta de ler. Marília Scalzo afirma até que a revista fala com o leitor “diretamente e, às
vezes, com intimidade” (2011: 37).
Este conjunto de características leva Charon a interrogar-se sobre se todos os conteúdos das revistas podem ser classificados como informação, no sentido jornalístico do termo. Em muitos casos, responde o autor, não. E aponta as revistas juvenis, femininas e de televisão, como exemplos em que os conteúdos se afastam
muitas vezes do jornalismo (Charon, 2008: 88). Para Marília Scalzo, “recorrendo à
história, o que se percebe é que o entretenimento”, explica, “é uma das vocações mais evidentes do veículo revista” (2011: 52). Um facto que, para a autora, não é motivo para polémicas. Uma revista pode até dedicar-se inteiramente ao entretenimento, tal como pode apenas trabalhar informação. “Há espaço para as duas coisas, desde que se perceba, é claro, os limites e as possibilidades de cada área, sem querer misturar uma com a outra” (Scalzo, 2011: 52). A autora brasileira aponta como problemática uma outra questão: a confusão entre factos e opinião quando a intenção é redigir peças jornalísticas informativas. Scalzo defende que “o bom texto de revista deve estar
calcado prioritariamente em informações” uma vez que “são sempre as informações
que garantem a qualidade e a consistência do texto jornalístico” (2011: 58).
O jornalismo de revista distingue-se também pelo seu caráter explicativo, que se traduz não só em reportagens como também em dossiers e entrevistas com o objetivo de “dar a compreender”, afirma Charon (2008: 88). Segundo o autor, esta função pedagógica conduz as revistas a selecionar jornalistas especializados, numa lógica diferente da que acontece nos jornais. Leva também profissionais de outras áreas, como juristas, médicos, economistas ou psicólogos, a fazerem parte das redações (Charon, 2008: 89). A informação que ajuda o leitor no seu dia-a-dia e nos aspetos práticos da sua vida é, assim, central no jornalismo de revista. Marília Scalzo sintetiza: “enquanto os jornais nascem com a marca explícita da política, do engajamento claramente definido, as revistas vieram para ajudar na complementação da educação, no aprofundamento de assuntos, na segmentação, no serviço utilitário que podem oferecer aos seus leitores” (2011: 14). Apesar de também existir jornalismo nas páginas das revistas, este tipo de imprensa “une e funde
43 entretenimento, educação, serviço e interpretação dos acontecimentos” (Scalzo, 20011: 14). Constrói, por isso, uma forma específica de fazer jornalismo.