402 CAPELLARI. Marcos. Sob o olhar da razão: as Religiões não católicas e as Ciências Humanas no Brasil (1900-2000). São Paulo/SP: USP, 2000 (Tese de Doutorado), p. 169. Campos, num levantamento
sobre pentecostalismo e carismatismo na América Latina, apresenta dados na mesma direção da catalogação feita por Capellari: Cf. CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, Templo e Mercado – Organização e Marketing de um Empreendimento Neopentescostal. 2. ed. Petrópolis: Edições Simpósio,
UMESP e Vozes, 1997, p. 32.
403 CAPELLARI, Marcos. Op.cit., p. 169.
404 WATANABE, Tiago Hideo Barbosa. Escritos nas Fronteriras... p. 25. 405 Cf. WATANABE, Tiago Hideo Barbosa. Ibid., p. 25.
Quando Léonard por aqui aportou, em 1948, a presença protestante em nosso país não tinha completado 100 anos. Não nos referimos à vinda dos “protestantes de imigração”, nas primeiras décadas do século XIX, e, sim, ao estabelecimento dos missionários a partir de 1855, com a chegada do casal Kalley no Rio de Janeiro406. Tratava-se, segundo a opinião de Léonard, de um protestantismo “ainda em sua primeira adolescência ou primeira infância”407. O francês vinha de um contexto no qual o
movimento reformista acumulava mais de 400 anos, já em declínio, com nítidos sinais de letargia e perda de vitalidade.
Uma vez aqui, Léonard imediatamente se debruçou sobre a literatura produzida pelos protestantes, sobre os autores e obras clássicas da história do Brasil e iniciou seus contatos e conversações com estudiosos e líderes das igrejas evangélicas. O que foi lido e como julgou esse material à luz da sua experiência de vida e das pesquisas de campo, é o que vamos considerar agora, e também observar algumas características da produção bibliográfica evangélica dos primeiros decênios do século XX.
Nosso trabalho é facilitado pelo próprio Léonard que, em sua “Bibliographie sommaire du protestantisme brésilien” assim como no capítulo “Fontes e Bibliografia” de seu O Protestantismo Brasileiro, nos apresenta as fontes consultadas. Podemos agrupar o material por ele listado em três categorias: obras gerais/estudos de pesquisa, histórico das diversas denominações e biografias/diversos.
Eis as obras consultadas e a opinião dele sobre aquelas que ele reputava como principais408:
1. Religiões Acatholicas no Brazil, de José Carlos Rodrigues, “important pour les débuts”;
2. The Bible in Brazil, de Hugh C. Tucker;
3. As religiões no Rio, de João do Rio, “pittoresque”; 4. Pan-americanismo: aspecto religioso, de Erasmo Braga;
5. O Problema Religiso da América Latina, de Eduardo Carlos Pereira;
406 Mencionamos isso porque o objeto de estudo que Léonard cunhou de “protestantismo brasileiro” diz
respeito tão somente às igrejas implantadas pelos missionários a partir da segunda metade do século XIX. Cf. LÉONARD, Emile-G. O Protestantismo Brasileiro, p. 16 e, especialmente, p. 20. Os alemães luteranos dentre outros estrangeiros, por um lado, e os pentescostais – aos quais ele denominava de “iluministas” -, por outro, não foram por ele analisados. τs pentecostais, ou “iluministas”, até foram estudados, mas a parte dos “históricos”.
407 LÉONARD, Emile-G. O Protestantismo Brasileiro, p. 16.
408 Os comentários apostos estão presentes nos seguintes textos: LÉONARD, Émile-G. Bibliographie sommaire du protestantisme brésilien. p. 1-2. Mimeografado; e LÉONARD, Emile-G. O Protestantismo Brasileiro, p. 19-25.
6. An Open Door in Brazil, de James Porter Smith;
7. The Republic of Brazil. A Survey of the Religious Situation, de Eramo Braga e Kenneth Grubb, “essential, cartes, graphiques, etc.; un modele du genre”, “é dos raros e bons exemplos de estudos de eclesiologia e de sociologia religiosa que se possui (...) excelente trabalho”, inspirado “nas exigências modernas de história”;
8. Directorio Protestante de la América Latina, de C. Crivelli;
9. Origens do Evangelismo Brasileiro, de Domingos Ribeiro, “rapide”;
10. Diretório Protestante no Brasil, de Agnelo Rossi, “utile, quoique avec grosses lacunes; complète les listes de The Republic of Brazil”, “conscienciosa e objetiva esta obra presta grande auxílio”;
11. How the Church grows in Brazil. A study of the economic and social basis of the Evangelical Church in Brazil, de J. Merle Davis, “important”;
12. Cincoenta annos de Methodismo no Brasil, de James L. Kennedy; 13. Deutschtum und Evangelium in Brasilien, de M. Dedekind;
14. Esboço histórico da Escola Dominical da Igreja Evangélica Fluminense (1855-1932), “est em réalité um historique du mouvement congrégationaliste au Brésil”; 15. Annaes da 1a Egreja Presbyteriana de São Paulo, de Vicente Themudo Lessa, “essentiel; s’étend à tout l’histoire du presbytérianisme brésilien”, “preciso”, “foi mesmo a fonte principal de nossa obra sobre Le Presbytérianisme brésilien et ses expériences ecclésiastiques”;
16. Brasilien und Wittenberg, de Ferdinand Scröder;
17. História dos Baptistas no Brasil de 1907 até 1935, de A.R. Crabtree e Antônio N. de Mesquita;
18. Lembranças do Passado, de João Gomes da Rocha, “souvenirs sur Kalley et les debute de l’ouvre congrégationaliste”;
19. Um judeu errante no Brasil, de Salomão Guisburg, “autobiographie de l’un des plus actife propagandistes; utile pour la connaissance des conflits avec le catholicisme”;
20. Autobiografia, de Bento Ferraz, “important et significatif, comme étant l’ouvre du promoteur de la dissidence de l’Eglise Presbytérienne Conservatrice”;
21. O Padre Protestante, de Boanerges Ribeiro, “sur le véritable fondateur du presbytérianisme brésilien”;
22. O apóstolo de Caldas, de Júlio Andrade Ferreira, “sur l’un des premiers pasteurs presbytériens”;
23. Bandeirantes da Fé, de Maria de Melo Chaves, “récit, en partie autobiograpique, extrêmement vivant sur l’implantation du protestantisme parmi les ruraux des campagnes de Minas”;
24. A aculturação dos alemães no Brasil, de Emilio Willems, “travail d’un sociologue, contenant des pages interessantes sur les Allemands luthériens du Brésil”;
25. Cunha. Tradição e transição de uma cultura rural no Brasil, de Emilio Willems, “travail de même caractere, avec renseignements caractéristiques sur le groupe méthódiste d’une localité rurale”.
Como se pode notar, nenhuma síntese do evangelicalismo brasileiro havia sido escrita. Existiam trabalhos dispersos e alguns poucos dedicados à história de cada denominação: um sobre a Igreja Presbiteriana (Lessa), outro sobre os batistas (Crabtree e Mesquista), um sobre a Igreja Congregacional (Rocha) e ainda um dedicado ao metodismo brasileiro (Kennedy). Estes últimos, assim como demais referidos acima, eram de importância relativa, uns mais outros menos, variados quanto à temática e nem sempre de fácil acesso.
Referindo-se à historiografia protestante dessa época anterior à pesquisa de Léonard, o historiador Odilon Nogueira de Matos (1916-2008), de família presbiteriana, que na sua meninice havia frequentado a igreja pastoreada pelo lendário Rev. Eduardo Carlos Pereira (1955-1923)409, assevera:
Durante muito tempo a história do Protestantismo no Brasil foi colocada em bases denominacionais. Cada denominação possui seus historiadores, autores de obras mais ou menos extensas, igualmente mais ou menos valiosas, todas elas indispensáveis, sem dúvida, para o conhecimento da crônica do estabelecimento e desenvolvimento das respectivas igrejas (...). Mas foi só com o livro do professor Émile G. Léonard que se fez o primeiro estudo realmente valioso sobre o Protestantismo, do ponto-de- vista sociológico410.
Mendonça, também comentando sobre a historiografia protestante anterior a Léonard, afirma que ele foi o iniciador “da historiografia protestante nos trilhos da
409 Cf. as reminiscências do próprio historiador em: MATOS, Odilon Nogueira de. Eduardo Carlos Pereira. Campinas: Notícia Bibliográfica e Histórica, Revista do Departamento de História da PUC, n.
118, 1985, p. 105.
pesquisa científica, pois que até então os historiadores do protestantismo eram formados em teologia e limitavam-se à uma história confessional, apologética ou polêmica e edificante411.
Ao analisar especificamente a literatura histórica produzida pelos protestantes na primeira metade do século, Watanabe situa a década de 30 como o período em que surgiu o interesse pela história denominacional nas três principais igrejas de origem missionária da época: Presbiteriana, Batista e Metodista. Para ele, nos anos 30
as igrejas passavam por um momento de nacionalização das suas estruturas eclesiásticas e, muitos dos seus pastores procuravam construir uma Teologia nacional. Os evangélicos procuravam uma independência política e financeira das juntas de missões norte-americanas, sendo os anos 1930, o momento da independência. Os livros de história serão a representação desse momento especial de autonomia e da necessidade do protestantismo pensar uma identidade histórica nacional. Ao mesmo tempo em que adquiriam independência nos anos 1930, os protestantes estabeleciam debates ácidos contra os católicos e reagiram contrariamente a aproximação feita por Getúlio Vargas com a Igreja Católica. Os livros serão a representação desse momento político e religioso do Brasil, da força da intelectualidade católica e expressão da reação protestante contra a reaproximação entre Estado e Igreja no Brasil412.
Observando especialmente, mas não exclusivamente, os livros Cincoenta annos de Methodismo no Brasil413, Annaes da Primeira Egreja Presbyteriana de São Paulo414 e História dos Baptistas no Brasil de 1907 até 1935415, Watanabe contextualiza os mesmos no quadro da produção historiográfica vigente no país e chega à conclusão de que eram obras influenciadas - na sua metodologia - pela tradição dos Institutos
411 MENDONÇA, Antonio Gouvêa. Dois Pioneiros e ‘Un Passeur de Frontières’. In: TEIXEIRA,
Faustino (org.). A(s) Ciência(s) da Religião no Brasil. 2ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 288.
412 WATANABE, Tiago Hideo Barbosa. Escritos nas Fronteriras... p. 23.
413 KENNEDY, James L. Cincoenta annos de methodismo no Brasil. São Paulo: Imprensa Metodista,
1928.
414 LESSA, Vicente Themudo. Annaes da 1ª Egreja Presbyteriana de São Paulo (1863-1903): subsídios para a história do presbyterianismo brasileiro. São Paulo: S.C.P., 1938.
415 MESQUITA, Antonio Neves de. História dos baptistas do Brasil de 1907 ate 1935. Rio de Janeiro:
Históricos e Geográficos estaduais e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, livros que procuravam, de alguma forma, servir às igrejas evangélicas no seu processo de legitimação na sociedade brasileira, majoritariamente católica, demonstrando a superioridade civilizacional do protestantismo. Ademais, havia o desejo de nacionalização, de autonomia das igrejas em relação às suas mães americanas416 - justamente num momento histórico em que a geração daqueles que conheceram os missionários fundadores já tinha desaparecido ou estava por desaparecer.
O Protestantismo Brasileiro se constitui na primeira síntese da história do movimento evangélico no país. Léonard tinha consciência disso417. Trata-se de uma obra pioneira, escrita por um historiador que, nos últimos 10 anos, na França, já vinha produzindo obras similares (“les grandes synthèses”418) de interpretação de movimentos
ou períodos históricos419.
3.3 A ANÁLISE DO PROTESTANTISMO BRASILEIRO POR ÉMILE-G.