Inicialmente, foram definidas algumas características que os sistemas precisariam apre- sentar, consideradas importantes para a modelagem: 1) possuir comunicação síncrona (troca de mensagens em tempo real, com os participantes online simultaneamente) e assíncrona (troca de mensagens em que o ouvinte não está presente no momento do envio), o que propicia uma avaliação mais completa da comunicação em sistemas co- laborativos; 2) ser gratuito ou possuir versão de demonstração, o que permite acesso durante o tempo da pesquisa; 3) ser pequeno, o que possibilita a investigação total da colaboração; e 4) focar em um domínio conhecido por nós, o que proporciona o entendimento de suas funcionalidades.
Após verificação de alguns sistemas, decidiu-se utilizar o MindMeister1 e o
Scrumwise2. O primeiro é um sistema colaborativo online que permite elaboração de
mapas mentais; é possível personalizar os mapas, criar e atribuir tarefas para os partici- pantes do mapa, acompanhar o andamento dessas tarefas e conversar em um bate-papo. A Figura 3.2 mostra um exemplo de mapa criado no MindMeister e as funcionalidades disponíveis para edição, visualização e compartilhamento do mesmo.
O Scrumwise, também online, permite elaborar os artefatos da metodologia Scrum de modo colaborativo; ele possibilita criar projetos, convidar pessoas para participar deles, criar e modificar os artefatos Scrum, alocando tarefas para os membros e acom- panhando seu andamento, e trocar mensagens entre usuários em tempo real ou não. A Figura 3.3 mostra um exemplo de projeto criado no Scrumwise.
Esses dois sistemas estudados se encaixam em diferentes modelos de colaboração [Prates, 1998]: MindMeister é de encaixe nebuloso, visto que há interação entre as
1MindMeister. Disponível em http://www.mindmeister.com/pt 2Scrumwise. Disponível em http://www.scrumwise.com
3.2. Passo 1 - Levantamento de dados 29
Figura 3.2. MindMeister - Representação de mapa mental
Figura 3.3. Projeto Scrum
tarefas dos membros mas a definição de como ela se dará acontece por meio do protocolo social (os próprios usuários definem); no Scrumwise o modelo é de encaixe rígido, já que a interação entre as tarefas é definida no protocolo tecnológico. Esse estilo da colaboração diferenciado, pode explicar por que o primeiro sistema provê bate-papo e o segundo não, visto que a necessidade de comunicação no segundo é minimizada devido ao uso do protocolo tecnológico.
30 Capítulo 3. Metodologia
3.2.2
Aplicação do MIS
Para conhecer profundamente os sistemas a serem modelados e identificar as decisões de design que seriam ou poderiam ser identificadas com a Manas e a MoLIC, aplicou-se inicialmente o Método de Inspeção Semiótica (MIS) [de Souza et al., 2006] nos dois sistemas. O MIS é um método utilizado principalmente para a avaliação de sistemas interativos. No entanto, ele também pode ser utilizado para se entender a metamensa- gem sendo passada do projetista para o usuário através do sistema. Neste trabalho, ele foi aplicado com este objetivo, possibilitando uma análise sistemática dos sistemas.
O MIS foi aplicado por duas pessoas, a autora deste trabalho e outra aluna de mestrado; ambas já haviam aplicado o MIS em outros sistemas, no entanto, esta foi a primeira vez em que aplicavam-no a sistemas colaborativos. Para cada um dos sistemas, em conjunto, foram identificados e estabelecidos durante a etapa de preparação para aplicação do método: 1) seu objetivo, 2) o perfil de usuário interessado em utilizá-lo, 3) um cenário de uso e 4) o foco da inspeção.
Após a etapa de preparação para aplicação do MIS, cada avaliadora aplicou indi- vidualmente o método, inspecionando os signos metalinguísticos, estáticos e dinâmicos e elaborando a metamensagem para cada um deles. Posteriormente, fez-se a consoli- dação das metamensagens, identificando-se rupturas de comunicação. Em seguida, as avaliadoras se reuniram para a consolidação dos resultados encontrados, gerando o rela- tório apresentado em [Santos & Barros & Prates, 2013b], com as percepções de ambas reunidas em um único documento após discussão sobre os pontos de vista de cada uma e escrita dos resultados encontrados.
A aplicação do MIS por duas avaliadoras teve por objetivo consolidar os resultados de modo mais completo e detalhado. O método permitiu, como esperado, conhecer o sistema, sua interface, como acontece a comunicação entre usuário-sistema e entre usuários através do sistema, além de possíveis impactos das decisões tomadas pelo designer a respeito da comunicação e da interação.
3.3
Passo 2 - Estudos de caso
Com o conhecimento adquirido com a aplicação do MIS, partiu-se para a modelagem dos sistemas com a Manas e a MoLIC. Optou-se por iniciar com a Manas por ser o modelo mais abstrato; em um ambiente de projeto, seria o modelo aplicado primeiro. Além disso, a autora do modelo, Barbosa (2006), previu que ele geraria insumos para a modelagem MoLIC. Pretendeu-se confirmar ou não essa expectativa e avaliar a utilidade e integração desses insumos entre Manas e MoLIC.
Em conjunto com Santos, para cada um dos sistemas identificou-se e estabeleceu- se em reunião o escopo da modelagem, que foi enunciado em falas. A seleção de falas
3.3. Passo 2 - Estudos de caso 31
foi baseada em dois critérios: 1) principais falas do sistema, relacionadas aos objetivos centrais dele, e 2) tarefas que apresentaram problemas identificados com o MIS, visando conferir se os modelos gerariam indicadores que pudessem levar à prevenção dos pro- blemas identificados. Da mesma forma, as falas estudadas na Manas foram convertidas em cenas na MoLIC.
Após a definição das falas a serem modeladas, cada uma modelou as falas separa- damente, havendo reunião posterior para discussão e consolidação da modelagem. Em seguida, utilizou-se a ferramenta SMART [da Silva, 2009] para inserção das falas mode- ladas e posterior verificação e justificativa das regras violadas. Como atualmente não há regras semânticas que permitam a identificação de potenciais problemas em conversas, elas não foram modeladas.
Finalmente, foram analisados os relatórios finais, gerados após as justificativas, interpretando-se os resultados e avaliando-se que características dos sistemas e potenciais problemas que o usuário pode enfrentar durante o uso foram identificados com o modelo. Como a Manas oferece regras interpretativas a partir das decisões de design modeladas, cabe ao designer (nesse caso, às responsáveis pela engenharia) avaliar o que é, naquele contexto, um potencial problema para a comunicação e o seu impacto social. O relatório completo pode ser acessado em [Barros & Santos & Prates, 2013a].
Para analisar os indicadores apontados pela Manas, cada questão foi classificada como uma das opções abaixo:
• Análise relevante: o indicador aponta questões relevantes que poderiam ser revistas pelo designer, visando melhorar a comunicação USU;
• Motivo de não aderir à sugestão descrita na regra violada: o indicador não é relevante para o contexto da fala e do sistema; acredita-se que a decisão do designer atende a necessidade comunicativa dos usuários;
• Limitação Manas: limitação percebida da expressividade da linguagem;
• Erro da ferramenta: indicador retornado indevidamente devido a erro da fer- ramenta SMART, não relacionado à Manas.
Essa classificação foi proposta visando facilitar a identificação dos indicadores pertinentes aos sistemas modelados e reconhecer possíveis limitações da Manas ou da ferramenta na modelagem. Na análise do modelo gerado para cada sistema foram considerados apenas os indicadores marcados como análise relevante, visto que são os que apresentam pontos pertinentes. As limitações da linguagem e erros da ferramenta são discutidos de modo geral no Capítulo 6.
Após a conclusão da Manas, modelou-se os sistemas com a MoLIC, considerando- se o foco de modelagem definido anteriormente. Iniciou-se então o desenvolvimento dos
32 Capítulo 3. Metodologia
artefatos que a compõem: 1) cenário para cada funcionalidade do sistema considerada relevante no contexto da colaboração entre usuários; 2) diagrama hierárquico de metas; 3) modelos de tarefa para cada tarefa identificada no diagrama anterior; 4) diagrama de interação e 5) especificação conceitual de signos.
Em seguida, assim como fora feito com a Manas, foram analisados os produtos ge- rados, interpretando-se os resultados e avaliando-se o que foi identificado com o modelo. O relatório completo pode ser acessado em [Barros & Prates, 2013].
Após essa análise por modelo, considerando-se as informações obtidas com os dois sistemas, fez-se a análise de resultados intermodelos, descrita no próximo passo.
3.4
Passo 3 - Comparação dos modelos
Neste passo foi realizada a análise comparativa entre os dois modelos apreciando-se o que foi alcançado com cada um, abordando-se as similaridades e diferenças entre eles. A análise contempla os critérios definidos na próxima seção, considerando-os nos eixos horizontal e vertical, ou seja, o escopo do modelo e a profundidade com que aborda cada tópico. Além disso, eles são verificados nos níveis estratégico e tático, sem considerar o nível operacional, de modo a ser compatível com o nível de abstração dos modelos.