5.2 Resultatdiskusjon
5.2.4 Å motta støtte kan gi mestring
Embora digam os estudos mais generalistas que entre o séc. IX e o X, maioritariamente as fontes iconográficas fossem códices iluminados, e do X ao XIII se desse preferência à escultura, passando à pintura no séc. XIV, no contexto peninsular, estes marcos temporais, não podem ser vistos dessa maneira. Qualquer uma destas especificações indicam tendências que podem corresponder a intervalos temporais diferentes quando se abordam diferentes factores de uma sociedade, ou uma sociedade feita de várias culturas. Quando deparamos com uma península em constante reformulação, é difícil encaixar estas marcas, muito menos é simples concordar com a falta de iluminuras no séc. XIV quando temos variados exemplos de contexto judaico, ou a falta de escultura no séc. IX, quando é nele que encontramos a primeira representação de instrumentos musicais e especialmente de caris islâmico em meio cristão. Assim, sem nos tentarmos encaixar em épocas internacionalmente marcadas, embora lhes reconhecendo a utilidade, propomos fazer uma breve análise dos testemunhos iconográficos em meio cristão que se estende no intervalo temporal compreendido entre o séc. XI e o XIV, tal como fizemos nos pontos anteriores. Há obviamente uma evolução na expressividade e na variedade temática, fruto do acompanhar de uma maturação da própria linguagem iconográfica, como veremos.
toca adufe junto a outro que parece tocar um pequeno instrumento de corda friccionada, provavelmente uma fídula. A temática associada a um adufe apenas surge neste exemplo de San Isidoro de León. A partir do séc. XII, inicia-se a representação dos grupos de jograis, com maior ênfase nos casais tocadores de fídula e adufe. Estes casais surgem num capitel do coro alto do mosteiro beneditino de San Domingo de Silos, e fazem-se acompanhar de cenas da vida comum e ofícios do povo, e por isso se conclui que seria não uma crítica, mas uma representação do povo. Surgem também num outro capitel na Igreja de Santa Maria La Mayor de Barruelo de los Carabeos, em Santander; Igreja de Santa Maria em San Claudio, nas Asturias; na Igreja de San Miguel em Sotosalbos, em Castela; Igreja de San Estebal em Aramil, nas Asturias; e na Igreja de Santa Maria em Ucelle, na Galiza. Do mesmo século encontramos no tímpano da igreja de San Miguel do Monte, em Lugo, um trio de jograis, dois homens tocando adufe e um instrumento de cordas friccionadas onde o terceiro elemento é feminino e está a dançar. Dentro da mesma temática possivelmente do mesmo século encontramos um grupo de mísulas onde estão representados vários músicos que inclui um adufeiro, duas dançarinas, um tocador de corno e uma fídula, na Igreja de La Asunción de María, em Segóvia, Castela. A representação de jograis prolonga-se pelo século XIII, onde surge na Igreja de San Juan de Amandi, nas Astúrias, a fídula e o adufe e o pandeiro; na Igreja de Santa Eulália de La Lioraza num capitel com adufeira e tocador de instrumento de corda friccionada; uma mísula na igreja de Santa Maria de Yermos, em Santander; e uma outra na igreja da Natividad de Nuestra Señora de Sotillo, em Segóvia, Castela.
Destacamos isoladamente um jogral tocador de um membranofone quadrangular, do séc. XII, na Catedral de Saint Pierre, em Poitier, onde o instrumento é preso em torno do pescoço do tocador e este percute-o com uma baqueta do tipo tamborileiro. Não havendo paralelo na escultura ou textos que o descrevam, este é o único exemplo de percussão de membranofone quadrangular com baqueta. Apenas podemos ter como exemplo paralelo o pandero cuadrado tocado no séc. XX em Peñaparda, Castela, onde este é percutido com uma baqueta e preso por uma alça à mão da tocadora. Outro exemplo hipotético seria o pandero actualmente tocado na Galiza, pendurado ao peito e percutido com os punhos, mas trata-se de uma inovação extemporânea do folclore
Galego, segundo a etnomusicóloga Judith Cohen157.
Os já mencionados reis anciãos do Apocalipse de S. João, do livro da revelação 5:8-9, segurando um adufe, surgem no séc. XIII. Na igreja da Colegiada de Santa Maria La Mayor de Toro, em Castela, encontra-se no pórtico da Majestade, sem barba, o que será uma inovação na linguagem iconográfica. Outro rei adufeiro, acompanhado do seu semelhante pandereteiro, surge na Catedral de Santa María de Burgos. Este exemplar destaca-se pela estatura pequena do membranofone, próxima da versão marroquina. Na temática da iluminura e ilustração de códices, a primeira representação encontra-se na Bíblia de Pamplona, de cerca do ano de 1197, séc. XII, hoje na biblioteca de Amiens158. Foi uma bíblia feita para o rei de Navarra Sancho VII, El Fuerte, e trata-se
de um exemplo de utilização das várias simbologias associadas ao membranofone de caixilho baixo: luxúria, adoração e celebração. Neste documento encontramos uma representação do adufe num contexto em que a passagem não menciona quaisquer instrumentos musicais (25:1-2). Trata-se do encontro entre os israelitas e as mulheres Moabitas, onde se crê que o autor quisesse exprimir o pecado desta passagem ao utilizar a simbologia negativa antiga associada ao tympanum, e acusando o sujeito da acção ao colocar o instrumento nas mãos de uma personagem feminina. Na mesma obra encontramos outra semântica na adoração do bezerro dourado do Êxodo 32:4-6, onde seis homens tocam o membranofone quadrado juntamente com dois tocadores de olifante. Por fim, a mais usada representação, associada à celebração, nas mãos de Miriam e das mulheres israelitas, da passagem 15:20:
“Maria, a profetisa, irmã de Aarão tomou um adufe, e todas as mulheres a seguiram, com as mesmas atitudes, cânticos e danças”159
No séc. XIII, num documento destinado a ser um catálogo de modelos de representações160, típicos deste século, parece-nos estar presente numa representação
157Cohen, Judith R. (2008) ''This Drum I Play': Women and Square. Frame Drums in Portugal and Spain', Ethnomusicology Forum, 17:1, p. 95 - 124
158Molina, Mauricio. “Frame Drums in the Medieval Iberian Peninsula”. Op. Cit., p.78 159Biblia Sagrada. 17th ed. Coimbra: Difusora Bíblica, 1994.
160Este documento encontra-se em Paris, na Bibliothèque Nacional de France, MS. Lat. 11907, originário de Champagne. Pertence à tipologia de livros de modelos usados na época medieval. O autor Christopher Page
dos anciãos com os respectivos instrumentos e perfumes ou incensos, um adufe, que Christopher Page identifica como um saltério quadrangular. Segundo uma opinião presencial do investigador Luís Correia de Sousa, aparenta tratar-se de um membranofone quadrangular e não de um saltério, uma vez que se tal o fosse, teria certamente as suas cordas representadas. Há, no entanto, representações também do séc. XIII em que o saltério não tem as cordas representadas, como a Epistola de Pseudo
Jerónimo161, um manuscrito onde se pode observar o desenho e o nome correspondentes
aos instrumentos. Nesta obra poder-se-ia identificar um membranofone quadrangular de caixilho baixo, mas o autor do manuscrito identifica-o como um “PSALTERIŪ. DECACORDARŪ.IN MODŪ CLIPEI QUADRATI”, onde as cordas não estão igualmente
representadas, curioso é no entanto o facto de, ao lado desta figura estar representado um saltério triangular com as suas cordas bem delineadas. São exemplos do quanto muitas vezes a identificação dos instrumentos na iconografia pode ser ambígua, ora pela falta de informação inerente à obra por parte do investigador, ora por parte de quem elaborou o documento, que muitas vezes seria baseado em outras representações ou descrições escritas.
Ainda na década de quarenta do século XIII, e facilmente reconhecível, encontramos o adufe na Biblia de Morgan162 ou Macieowsky, parisiense mas hoje no The Morgan
Lirary and Museum em Nova Iorque. Trata-se de uma bíblia ilustrada do Antigo Testamento com comentários em latim, persa e judeo-persa. Neste documento existem quatro representações de adufe, nos fólios 29r, 13v, 39r e 39v. Maioritariamente relacionados com a celebração , surge em mãos de homens e mulheres juntamente com muitos outros instrumentos como anafís, flautas, castanholas, harpa (nas mãos do rei David), tambores circulares percutidos com duas baquetas e um cordofónio de cordas friccionadas.
retirou a sua referência à obra de R.W.Scheller, A survey of Medieval Model Books, Haarlem, 1963. Consultar: Page, Christopher. “Biblical instruments in medieval manuscripts illustrations.” In Music and instruments of the
Middle Ages: Studies on texts and performance. Variorum collected studies series. Norfolk: Variorum, 1997
161Igualmente presente no mesmo capítulo da obra de Chrispopher Page, diz ser um manuscrito encontrado por Martin Gerbert e publicado no 2º volume de De Cantu et Musica Sacra, St Blasien, 1774.
162“The Morgan Library & Museum Online Exhibitions - Morgan Picture Bible - Folio 29r”, n.d. http://www.themorgan.org/collections/swf/exhibOnline.asp?id=256.
Já pertencente ao século XIV, encontramos, de produção Catalã, os referidos
Haggadah(s), que representam o adufe163 quadrado na famosa passagem onde Miriam é
acompanhada por mulheres, 15:20. Datado de 1320, o Haggadah de Ouro, hoje em Londres na British Library Ms.27210, fol.5r, mostra Miriam acompanhada de tocadoras de címbalos, alaúde, pandeireta, castanholas e duas dançarinas. Pertence ao estilo “gótico francês” com elementos italianos e bizantinos que proporcionam a sensação de tridimencionalidade, características que o afastam da realidade ibérica, portanto. De meados do século encontramos uma representação de estilo mais peninsular. Trata-se da “Sister Haggadah”, igualmente catalã, e hoje pertença da British Library (Or.2884, fol. 16v). Caracterizada pelo estilo gótico Franco-hispânico, tem elementos italianos no tratamento das vestes, proporções do corpo e expressões faciais. Neste exemplo, Miriam toca o adufe enquanto as outras mulheres dançam, encontrando-se duas, em pontas opostas e em último plano, com indumentárias radicalmente diferentes das jovens. Têm as cabeças cobertas, e parecem desempenhar um papel protector. Por último, surge-nos o “Kaufman Haggadah”, igualmente catalão, hoje em Budapeste, na Magyar Tudományos Akadémia Ms. Kaufmann (A422). O adufe de Miriam tem uma flor de lis pintada na pele, tal como surge noutros membranofones circulares, noutros Haggadad(s), como é o caso do “Moorish Haggadah”164
Um último exemplo fora das técnicas plásticas até então apresentadas, surge num vitral do séc. XIV, de cerca de 1310, na Capela da Virgem da Catedral de Rouen, antiga
Normandia, hoje Musée Départemental des Antiquités de Rouen.165 Trata-se de uma
temática já tipicamente tardia da Idade Média, os anjos músicos. Destes anjos, apenas conhecemos dois excertos do vitral, um toca um membranofone de caixilho baixo , quadrangular e outro um instrumento de corda beliscada aparentemente por um plectro de madeira. Infelizmente não nos foi possível encontrar bibliografia que aprofunde o 163É de salientar que há vários Haggadah(s) com representações de membranofones circulares. A forma quadrada surge como alternativa e não como exclusividade tal como em todas as outras temáticas iconográficas que abordámos até ao momento. Para conhecer melhor o universo dos membranofones de caixilho baixo circulares, consultar Molina, Mauricio. “Frame Drums in the Medieval Iberian Peninsula”. Op. Cit.
164Molina, Mauricio. “Frame Drums in the Medieval Iberian Peninsula”. Op. Cit., p. 80
165 As duas imagens que dispomos são avulsas, apenas com pequenas referencias: data, localização, e museu a que pertencem.
estudo iconográfico. Mas não podemos deixar de associar o facto de a Normandia ter atacado e saqueado, durante séculos, as costas Atlânticas e Mediterrâneas, até que em 1091, Rogério II conquistou o emirato da Sicília Kalbi, conhecida pela sua grande riqueza cultural. Será portanto, provável que tenha ocorrido alguma contaminação cultural do reino Normando, mais tarde anexado ao reino Francês, em 1204. Mas tais ideias não passam de conjecturas.