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À guisa de proposta para debate, faremos algumas considerações sobre o Manual de inestética, de Alain Badiou, no capítulo “Uma tarefa filosófica: ser contemporâneo de Pessoa” 186, ou seja, pensar uma filosofia à altura da poesia de Fernando Pessoa. A pergunta

186 A primeira edição francesa foi publicada, em 1998, logo ele inclui na filosofia do século como ‘últimos dez anos’, o que fora pensado entre os anos 1988 até a publicação do seu livro.

inicial colocada pelo referido filósofo é: “a filosofia do século XX, inclusive a dos últimos dez anos, conseguiu, ou soube colocar-se à altura do empreendimento poético de Fernando Pessoa?” 187 Pelo que se recorda Badiou, houve um esforço de Heidegger em situar seus trabalhos “sob a tutela pensante de Hölderlin, de Rilke, ou de Trakl”; Badiou admitiu também ter criado expectativas quanto à filosofia ser contemporânea à poesia de Mallarmé. Além disso, considerou o esforço de José Gil que, se por um lado não criou uma tessitura filosófica que acolhesse e sustentasse a obra de Pessoa, por outro, tratou de verificar a hipótese de compatibilidade da obra do poeta, via Álvaro de Campos, com o pensamento de Deleuze;188 mostrando também que, muito antes do filósofo francês, o heterônimo pessoano:

(...) pensa que há no desejo uma espécie de univocidade maquinal, cuja energia deve captar sem sublimá-la ou idealizá-la, nem tampouco dispersá-la em um equívoco ambíguo, mas nela apreender diretamente os fluxos e os cortes qual uma espécie de furor do ser. (BADIOU, 2002, p.56.)

Talvez possa haver um detalhe negativo no texto de Badiou: colocar-se às voltas com a dúvida se a “modernidade de Pessoa” está na oposição platônico ou anti-platônico. Ora, ainda que disséssemos também que o poeta fosse hegeliano ou anti-hegeliano, não alcançaríamos ainda, como o filósofo citado não alcançou, uma conclusão clara, e ele estava ciente dessa condição ou impossibilidade de alcance. O que Badiou mostrou-nos, decerto, foi que os filósofos ainda não conseguiram pensar no pensamento-poema não estando este nem na condição de vassalo, nem tal qual aquele que se ergue em direção a derrubada do platonismo. Desse modo, para Badiou, estar à altura de Pessoa, significaria: “admitir a co- extensão do sensível e da ideia, mas nada conceder à transcendência do Uno. Pensar que só há singularidades múltiplas, mas nada extrair delas que se pareça com empirismo”. 189 Parece- nos, então a proposta de um limiar, o qual não está nem de um lado, nem de outro; o qual também não se apresenta em demarcação fixa, pois o seu saber movimenta-se de modo sinuoso, de sorte que os dois planos possam ser tocados, contudo sem deixar-se prender em qualquer um deles. Tratar-se-ia não, assim, de um meio termo, mas um estado nítido de ambivalência.

Outro fato notável no texto de Alain Badiou é a tentativa de definição do conceito de heteronímia, fato este que o próprio Fernando Pessoa não o definira objetivamente, tampouco o faremos também, visto que não temos por propósito tal tarefa. Acredita-se que os

187 BAIDOU, 2002, p.53.

188 Provavelmente Badiou refere-se ao livro de José Gil, Fernando Pessoa ou a metafísica das sensações. Porém, alguns anos depois, Gil também escreve Diferença e negação na poesia de Fernando Pessoa, no qual é dedicada maior atenção à leitura de Alberto Caeiro, mas uma vez, em aproximação com a filosofia de Deleuze.

heterônimos formem um sistema heteronímico, qual um sistema de pensamento. Ora, concordar com esta hipótese implica trabalho longo, sem certeza de resultados positivos. Ademais, o assentimento de uma empreitada de tal magnitude, decerto culminaria no confronto de entendimento da obra pessoana com os próprios dizeres do poeta em seus escritos em prosa, uma vez que ele declarara não ser “um filósofo com faculdades poéticas”, como já dissemos antes. O poeta do “drama em gente” encarnava suas falas (ou apropriava-se de linguagens) matizando-as com o que lhe parecia o “melhor” de cada pensamento, com o que lhe parecia mais conveniente, e ajustável aos seus propósitos artísticos. Logo, para aquele que quis a língua portuguesa qual sendo a sua pátria, e afirmava a necessidade de ser “plural como o universo”, não poderia estar acorrentado à cidadania, tampouco a sistemas de pensamento. A filosofia, os filósofos, a história e a literatura que lera são tons de cores em uma paleta pronta para se oferecer à maestria de modo a encarnar mascaras e cenários imateriais e infinitos, nos quais a linguagem é o seu princípio.

Houve fases na poesia de Fernando Pessoa de estrita relação com simbologias místicas, considerando o interesse do poeta pela astrologia, pelo estudo da Rosa Cruz, pela história dos Cavaleiros Templários, pelo entendimento herdado dos seus ascendentes sobre a Cabala, pelo Espiritismo de Kardec, do qual não só conta experiências, mas também se apropria do termo “médium” para contar da escrita heteronímica. Esta fase não foi discutida em nosso estudo, mas estamos mencionando neste momento a fim de que se considere que tanto sistemas simbólicos ou alegóricos, quanto sistemas de pensamento (filosofia), no tocante a obra, não vão além de ânimo e recursos na configuração de um plano estético maior.

A “tarefa filosófica” apresentada por Badiou, data maxima venia, podemos dizer que até o momento a enxergamos distante, se não inalcançável. Temos visto ao longo dos tempos grandes esforços, por vezes isolados, com o intento de estabelecer prováveis linhas de entendimento entre a literatura, representada neste caso pela poesia, e a filosofia. Todavia, o que podemos de fato constatar é o empenho e a boa vontade de poucos, porém grandes homens; o que podemos ver, em outros casos, é tolerância que não ultrapassa os muros dos redutos disciplinares, nos quais ainda se permite a conversação e o reencontro mediados pela linguagem, senão positivo, no mínimo “respeitoso”, entre o dizer poético e o dizer filosófico.

Bornheim recorda um fato significativo: “os pré-socráticos escreviam em versos”, logo eram considerados “poetas-filósofos”, por conseguinte, “pensadores menores, simples precursores da grande Filosofia grega”. Assim, foi dado um passo ligeiro, com facilidade,

para o desaparecimento dos pré-socráticos no cenário do pensamento ocidental. 190 Em última análise:

Hoje, sabe-se que esse esquecimento obedeceu a um processo muito menos inocente do que à primeira vista possa parecer: longe de tratar-se de mero incidente histórico, o que estava em jogo era a transmutação metafísica do próprio sentido da verdade. Entende-se, assim, que, na Filosofia de um Santo Tomás ou de um Descartes, os poetas sequer tenham existência própria; e Kant que dedicou sua principal obra ao problema do conhecimento da verdade, só cita os poetas, pedantemente, para embelezar com frases latinas suas análises: nelas o poeta, a rigor, não diz nada. (BORNHEIM, 1986, p.61.)

Ora, não fora os problemas acerca da “verdade” que alicerçaram o movimento de ruptura iniciado por Platão e que estão arraigados até os dias? A verdade se desloca da enunciação para o enunciado, do “dizer” para o “dito”:

Entre Hesíodo e Platão uma certa divisão se estabeleceu, separando o discurso verdadeiro e o discurso falso; separação nova visto que, doravante, o discurso verdadeiro não é mais o discurso precioso e desejável, visto que não é mais o discurso ligado ao exercício do poder. O sofista é enxotado. (FOUCAULT, 2008, p.15.)

Conforme vimos na primeira seção deste capítulo, o surgimento de Nietzsche no cenário filosófico sinalizou, com certa ressalva, modificações no caminho da relação entre poesia e filosofia.191 A proposta de Alain Badiou, dessa forma, trata-se de uma tarefa para a filosofia partindo da obra de Fernando Pessoa, no sentido de se repensar a própria filosofia. Entretanto, diante do que constatou Nietzsche e Foucault acerca da verdade, a nossa “pouca crença” no sucesso de tal proposta não é vã. Para a empreitada de estar “à altura da poesia de Pessoa”, é preciso o exercício ensinado por Caeiro de querer e saber “ver”, sem pretender que a verdade seja uma e pertença a um. A filosofia está longe de deixar de afirmar sua vontade de verdade partindo de si, isto é, sem transgredir fronteiras e correr o risco de sofrer uma baixa no seu “contingente de poder”, mesmo na estética e na filosofia da arte.192 Enfim, é necessário disposição para “ser contemporâneo de Pessoa”, pois não se pode esperar, aos modos de um “advento” cristão, a volta de homens iguais a Nietzsche, Heidegger, Benjamin, Adorno, Foucault e Deleuze, pelo lado da filosofia; tampouco de Hölderlin, Fernando Pessoa (e os seus heterônimos), pelo lado da poesia.

190 BORNHEIM, 1986, p.61. 191 Ibidem.

192 Deve-se considerar de igual modo que, ou pelo surgimento de disciplinas dos Estudos Literários, tais como a Teoria Literária e a Literatura Comparada; ou pelo desinteresse que culminou no abandono do olhar estético para a literatura, a filosofia quase descredenciou ao seu hall de estudos das artes, a arte que tem por matéria-prima a linguagem escrita em verso ou prosa.

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