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MOTORVOGN + STYREVOGN

In document spesifikasjon BM92 (sider 27-42)

Durante muito tempo, o texto oral permaneceu renegado pelo enfoque teórico dos estudos literários que privilegiaram apenas a escrita como único lugar do texto artístico, não acreditando “que a literatura oral tivesse um valor intrínseco e um caráter próprio”, como atesta Jakobson (1973, p. 22). Esse preconceito é gerativo de uma ideologia construída ao longo da história e adotada por um grupo de pessoas que prefere não questioná-la.

Alcoforado (2008, p. 110) relata ter sido a partir dos anos 70 que se ampliaram os espaços de debates sobre a literatura oral e, uma década depois, durante o salão do livro no Centro George Pompidou, em Paris, esses debates tornaram-se mais fortes. Segundo a autora, um grupo de estudiosos do exterior, liderados por Paul Zumthor, estudioso de literatura medieval e outros estudiosos do Brasil, vem reconhecendo a literatura oral como arte, privilégio antes somente do texto escrito. Ainda nas palavras da autora:

Se admitíssemos, como querem muitos, que a literatura é um fenômeno que só se realiza em plenitude na modalidade escrita, estaríamos excluindo as tradições orais medievais de comunidades européias, cuja produção literária era a expressão de indivíduos iletrados que numericamente predominavam naquela época (ALCOFORADO, 2008, p. 110).

Mesmo iletradas, essas pessoas construíam arte, uma vez que eram capazes de falar da realidade de forma poética, sem precisar da escrita que, querendo ou não, é insuficiente para sistematizar a complexidade da memória, já que filtra os detalhes da palavra viva. E ainda porque o “registro dessas formas de arte não é mais que um resíduo fraco, empobrecido e fortuito da performance”, fora da tradição oral, como afirma Lemaire (1994, p. 130).

Essa forma de utilizar a modalidade escrita, valorizando-a em detrimento da oralidade é o resultado da “revolução tecnológica e cultural da Renascença” (SCHOLES; KELLOG, 1977, p. 12). As tradições orais em línguas vernáculas caminhavam ao lado da tradição escrita em latim, até o século XII, na Europa. Foi só

a partir dessa época que se desenvolveu, lentamente, uma cultura escrita em língua vernácula, registrando as tradições orais. Assim, “os gêneros literários tradicionalmente orais foram incorporados, muitos deles de forma pouco fiel, opondo mudanças que vão refletir na concepção da expressão poética” e, em alguns exclusivamente femininos, como também na concepção do amor (ALCOFORADO, 2008, p. 111).

Nesse processo de criação dessa nova visão de literário, posto como superior, os intelectuais associaram a concepção de poesia com a modalidade escrita, gerando, a partir daí, a exclusão da oralidade. Corroborando com essa ideia, Zumthor (1993, p. 8) expressa “Nossa velha poesia oral havia sido, durante longo período renegada, ocultada, recalcada em nosso inconsciente cultural”.

Nesse contexto, estão os vestígios do domínio cultural pelos que detêm o poder econômico e político. Canclini (1983, p. 35) esclarece que essa hegemonia dominante não seria possível se os detentores do poder não pudessem “manipular” a maneira de pensar das pessoas, dessa forma não controlariam a economia e a política se não controlassem a cultura. Para o autor, essa superioridade de uns sobre os outros se dá a partir de certas conjeturas: propriedade dos meios de produção e a capacidade de apropriar-se da mais valia; a manipulação dos mecanismos necessários à reprodução material e simbólica da força de trabalho e das relações de produção como, por exemplo, as instituições competentes por qualificar o trabalhador e provocar ideologias; manipulação das estratégias coercitivas a exemplo das estruturas repressoras.

No discurso de Zilá Berndt, a origem da diferença entre as etnias, por exemplo, vem do Darwinismo Social (século XVI) que questionou a evolução das espécies. Com o intuito de explicar para a sociedade sobre suas descobertas, Darwin contribui para incitar a ideia de superioridade de uns e a inferioridade de outros. Berndt argumenta, resumindo que:

[...] após a conquista da América [...] a justificativa para a dominação alicerçou-se na pretensa inferioridade dos índios em relação aos europeus. Assim, a conquista e apropriação das terras legitimaram-se pela estruturação de um discurso que buscou argumentos morais, religiosos e científicos para aprovar a inferioridade dos povos americanos, que estariam

Essas ideias incentivadoras da crescente desigualdade entre as classes colaboram para determinar a associação da literatura escrita com os detentores do poder (elite burguesa) e as tradições populares com a camada de menor prestígio sócio-cultural, aos iletrados, depreciando sua produção com expressões preconceituosas. Esse argumento explica por que muitas das manifestações da cultura indígena arraigadas nos costumes atuais são inferiorizadas. Camara Cascudo revela a marginalidade nas quais vive a literatura oral quando comparada a literatura escrita:

A literatura oral é como se não existisse. Ao lado daquele mundo de clássicos, românticos, naturalistas, independentes, digladiando-se, discutindo, cientes da atenção fixa do auditório, outra literatura, sem nome em sua antiguidade, viva e sonora, alimentada pelas fontes perpétuas da imaginação, colaboradora da criação primitiva, com seus gêneros, espécies, finalidades e vibração e movimentos, continua rumorosa e eterna, ignorada e teimosa, como rio na solidão e cachoeira no meio do mato (CASCUDO, 1984, p. 27).

Para o autor, embora diversas, essas duas modalidades literárias são inseparáveis. As características abordadas por Cascudo remetem a toda uma tradição popular da literatura oral e por ela vivida, uma vez que, para o autor “Entende-se por tradição, traditio, tradere, entregar, transmitir, passar adiante, o processo divulgativo do conhecimento popular ágravo” (CASCUDO, 1984, p. 29).

Na concepção de Patrini (2005, p. 105), ao se considerar tradição “como herança do conhecimento, como memória coletiva, como um conjunto de valores, de práticas simbólicas dentro dos quais estamos estabelecidos e regulados por regras vitais de comportamento”, é necessário reconhecer, da mesma forma “seu espaço dinâmico, criador e re-criador”. Dessa forma, é que a narração se torna o ato de colher os acontecimentos da própria experiência, transformando-os em experiências para os enunciatários, além de permitir o encontro com os mistérios que permeiam a vida humana durante os momentos do seu percurso vital.

In document spesifikasjon BM92 (sider 27-42)

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