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Motor vehicles

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Emission Factors, Particles

2. Motor vehicles

A lógica do tempo real, da maneira como é compreendida na presente Tese, materializa-se, grosso modo, em pelo menos três tipos de experiência: [1] a comunicação a distância entre dois ou mais indivíduos que trocam informações ou mensagens ao vivo, com ou sem imagem, contando, para isso, com suporte de equipamentos tecnológicos e serviço de telecomunicações; [2] a transmissão e recepção simultânea de informações e mensagens codificadas em linguagem e som, com ou sem imagem, referentes a um fato, cujo local de ocorrência encontra-se distante de quem toma conhecimento dele; e, principalmente, [3] o consumo e atendimento imediatos de necessidades práticas e desejos do sujeito na relação presencial com outrem e com o contexto.12 Nos três casos, a lógica do tempo real resolve três demandas, a saber: superação da distância entre o fato e sua recepção na forma de

11 Veja-se a Subseção 3.1.1 do Capítulo 3.

linguagem, som e imagem; redução máxima do intervalo de tempo entre o fato e seu conhecimento pelo indivíduo; e pronta consumação do sujeito (do que ele tem a dizer ou oferecer) por outrem ou o inverso. Pode-se dizer que o tempo real encerra um problema composto por sentido de urgência, necessidade de proximidade, ansiedade de saber e imediata satisfação do desejo de ser desejado pelo outro, como formas de ligação entre sujeito e outro / sujeito e mundo, que, reescalonadas, podem incidir cumulativamente ou em separado, como condições que colaboram para a dromocratização do sujeito na cotidianidade da metrópole.

A partir dessa perspectiva, a comunicação em tempo real é compreendida não com enfoque em seu aspecto tecnológico (é comum seu tratamento como mediação processada por tecnologia de comunicação), mas como lógica social, inscrita no habitus e, por consequência, no sujeito, considerado no sentido lacaniano (LACAN, 1998, p. 269), como quem se constitui a partir do desejo de ser reconhecido pelo desejo do outro. O tempo real, enraizado na dinâmica da vida cotidiana, desvencilhou-se de seus laços com a tecnologia mediática para se inscrever no social-histórico como lógica profusa, em contextos mediados ou não por dispositivos comunicacionais. A lógica do tempo real tecnologicamente mediado é, assim, reproduzida nas relações entre sujeito e configuração econômica, política, social e cultural do capitalismo tardio, pelo fato de estar entranhada no modus operandi do corpo- mente. Percebida como aceleração do pensamento, da ação, da linguagem, dos estados psíquicos ou emocionais e da consumação do mundo, a referida lógica medeia uma modalidade de relação que se converte em consumição do próprio sujeito, dada a velocidade atuada por ele no fazer e no ter como práticas sociais compulsórias. Em síntese, trata-se da velocidade atuada como imperativo condutor da vida humana nas metrópoles, reproduzida tacitamente na vida social, sem que para isso seja necessário equipamento e rede.

Do ponto de vista da psicanálise lacaniana, sentido de urgência, necessidade de proximidade, vontade de saber e satisfação do desejo de ser desejado pelo outro podem ser equiparados a estados que, reunidos, constituem formas de relação entre sujeito e significante, este na função imaginária e simbólica de quem é uma autoridade, por ser nomeado detentor de um saber do qual o primeiro acredita-se despossuído, conforme dito antes. Nesse contexto, sentido de urgência, necessidade de proximidade, vontade de saber e satisfação do desejo de ser desejado pelo outro se traduzem em ânsia do sujeito, em sua pressa, por saciar o desejo de ser reconhecido pelo outro de maneira absoluta, o que implica

em acreditar-se completo, suprido em sua falta em relação ao significante e, assim, dono da chave de sua separação em relação a ele (LACAN, 1998, p. 74).

Essa abertura do sujeito é explorada pelo capital, como é sabido, por meio da publicidade que, a serviço do tempo real tecnológico, transforma objetos em informação convertida em necessidades e desejos urgentes. O sentido de urgência, compartilhado pelos três envolvidos na situação – a empresa que fabrica produtos ou vende serviços, a publicidade e o sujeito, que desde o princípio da socialização primária vê-se obrigado a lidar com o tempo do outro para ter suas necessidades atendidas – é presumivelmente resolvido pelo tempo real mediado pela tecnologia. Este reúne, ao modo de sistema, elementos como a automatização e/ou o uso de modelos de produção mediados, essencialmente, pelo tempo (produção acelerada de itens em série); a distribuição mediática do que é fabricado ou empacotado como serviço; e a compra, por meio eletrônico, por telefone ou com a presença do consumidor nas lojas. Esses componentes alimentam um ciclo repetitivo e incessante, que alterna busca de satisfação e ações de consumo, e, é fundamental salientar, precisam ser mediados pelo tempo, na forma de aceleração dos ciclos implicados no processo iniciado no fabricante e concluído no consumidor. Assim, a lógica do tempo real está embutida na razão econômica da vida social.

Na estrutura dessa operação estão o sujeito e o capital, o primeiro na posição do desejo e o segundo no papel do significante, que se exibe com variedades e quantidades incontáveis de produtos e serviços, desenhados para atender gostos peculiares, necessidades de visibilidade social e sinalizar com a possibilidade de satisfação das vontades mais específicas. A aceleração do processo de fabricação e consumo vem acompanhada da diversificação da oferta e de estratégias de venda que objetivam produzir a sensação no consumidor de que ele está no comando. Trata-se de mimar o cliente, conforme jargão de mercado, de acenar a ele com a “promessa de satisfação, garantida pela crença de que bastaria pedir o que se quer” (GONÇALVES, 2000, p. 66), fazendo o sujeito-consumidor acreditar que está no comando (ibidem, p. 67), como se ele próprio assumisse o lugar do significante e estivesse investido de um saber ao seu próprio respeito. O efeito dessa troca de funções é a sustentação da insaciabilidade, uma vez que a inovação em produtos e serviços conjuga produção de falta e incentivo ao consumo contínuo, mantendo a posição tradicional do sujeito em relação ao significante-capital (ibidem, p. 60-77), como explica Gonçalves:

A lógica do marketing de última geração funda-se na edificação de uma figura de um Outro “todo-oferecimento”. Entretanto, quando diz “diga o que você quer que

lhe oferecerei”, está dando uma ordem, mesmo que não pareça. Sem ela, não se ordena o mercado. A ordem é querer, sempre. (GONÇALVES, 2000, p. 77, grifos da autora).

McKenna, consultor de marketing e autor do livro Competindo em tempo real:

estratégias vencedoras para a era do cliente nunca satisfeito (1998), afirma que nos anos

1990 a mudança de papéis entre consumidor e empresas – leia-se, entre sujeito e significante – era realidade. Ele refere-se a esse fato, evidentemente, com visão positiva, afirmando que é necessário considerar de modo construtivo a possibilidade de se levar uma vida em ritmo acelerado (ibidem, p. 7), no que diz respeito aos atos de agir e tomar decisões em um ambiente movido pelo capital. Na época em que publicou seu livro nos Estados Unidos, McKenna apontava para a vigência de um “novo modelo de marketing [que refletia] uma mudança do monólogo para o diálogo no trato [das empresas] com os clientes” (ibidem, p. 39). O resultado da nova tendência do marketing (o autor escreve com base nas novidades do mundo corporativo norte-americano) era, segundo McKenna, a “inversão dos papéis tradicionais de consumidor e produtor”, com o consumidor ditando “como gostaria de ser servido” (ibidem, p. 39). “Os novos consumidores esperam que lhes perguntem sobre as suas preferências individuais e lhes tratem – tanto quanto possível – como se essas preferências estivessem sendo respeitadas” (ibidem, p. 39), afirma o autor.

Esse tipo de embate “positivo” entre consumidor e empresa pode muito bem decorrer dos efeitos negativos provocados por uma história de descaso com o consumidor, de tratamento desrespeitoso dispensado a ele, principalmente por parte de corporações, nacionais e multinacionais, que, para ganhar em escala, optaram pela massificação não apenas de produtos e serviços, mas também do próprio modo de atender a reclamações dos consumidores. Entretanto, isso não é tudo. A suposta “autoridade do consumidor” também diz respeito à nova estratégia mercadológica do capital, para ser percebido favoravelmente e ter seus produtos e serviços recebidos sem restrições ou desconfianças pressupostas. McKenna apresenta um exemplo sobre o modo como as corporações absorveram críticas do consumidor e reformularam o modo de abordá-lo, sinalizando a troca de papéis entre sujeito e significante, conforme observado antes:

Um exemplo pioneiro da prática da abordagem consultiva é a maneira como a Philips Electronics N. V. [...], a gigantesca multinacional holandesa, desenvolveu um produto online para crianças no início da década de 1990. A Philips enviou projetistas industriais, psicólogos cognitivos, antropólogos e sociólogos em vans para comunidades na Itália, na França e na Holanda. Os pesquisadores convidaram adultos e crianças a participarem de um brainstorming de idéias para o

desenvolvimento de novos produtos eletrônicos. Em vez de realizar uma pesquisa de opinião com esses projetistas de produtos, a Philips promoveu debates em que especialistas e clientes imaginavam novas possibilidades. Após examinar todas as propostas surgidas no diálogo, a empresa as sintetizou em uma lista e, então, escolheu um novo produto interativo. Na fase seguinte, os pesquisadores voltaram a visitar a comunidades e testaram a nova idéia do produto com as mesmas crianças que auxiliaram no projeto. (MCKENNA, 1998, p. 39-40).

O “diálogo” e a “consulta” ao consumidor estão, assim, incorporados à estratégia mercadológica que visa à concepção, produção e comercialização de produtos e serviços de maneira a propiciar a sensação do consumidor de que ele está no comando da relação com o capital. Essa experiência está integrada a uma espécie de cadeia de experiências prazerosas do sujeito, que acredita estar na posição do significante. Este opera, portanto, ao modo de uma rede de significantes, não sendo unívoco, uniforme ou personificado por alguém específico. O significante está difuso e hipostasiado na disponibilidade das organizações empresariais ao consumidor, na forma de produtos e serviços personalizados, colocados à sua disposição, em ritmo acelerado. Essa estratégia de “prontidão” e “maleabilidade” colabora para a formação do imaginário do tempo real, ao qual está associada a reprodução do imediatismo e da instantaneidade nas práticas sociais. O tempo real como modo de relação esparge-se, assim, no social, com a contribuição das ações mercadológicas que objetivam alimentar a percepção do consumidor de que ele é absoluto e está na posição da verdade, do saber ou da autoridade. Como diz o título do livro de McKenna, o consumidor nunca está satisfeito. A lógica do tempo real contribui sobremaneira para sustentar essa insatisfação, para mantê-la em suspensão, com o sujeito, permanentemente e sem descanso, na expectativa de sentir-se realizado em sua necessidade de prazer. A velocidade é essencial para a preservação desse estado do sujeito – quanto mais veloz a oferta e o consumo de produtos e serviços que permitem a aceleração das relações com outrem e o reprocessamento intermitente de experiências, situações, pensamentos, sentimentos e objetos, mais viva a sensação do prazer, originário da possibilidade de ser ínfima a distância entre necessidade e efetivação do que se necessita.

A comunicação em tempo real está a serviço da gestão desse estado de coisas ao ser ofertada pelo capital como esquema de sua disponibilidade para o sujeito. Essa propriedade, quando assimilada, transforma-se em disponibilidade do próprio sujeito para o capital, efetivada no giro acelerado e contínuo do consumo, mais especificamente de equipamentos tecnológicos e serviços de telecomunicações que operam a comunicação em tempo real, isso é, velocidade e disponibilidade. Organiza-se, assim, a circulação ininterrupta de reprodução

do tempo real na função de lógica sociodromocrática, da qual participam sujeito e capital, este representado por objetos tecnológicos e pela publicidade, como partes que giram concentricamente e em relação recíproca. Nesse contexto, a configuração do capital na posição de significante, em outras palavras, como quem é destino dos desejos do sujeito, pode apresentar-se conforme especificado a seguir.

[1] Na função dos media de massa que, por meio do jornalismo e do entretenimento em tempo real mediado por tecnologia, são imbuídos da posição de autoridade, ao tornar possível, para o sujeito, alcançar a realidade alheia – aproximar-se de outrem, imaginaria e simbolicamente –, objetivo que se concretiza no ato do consumo da narração e/ou de imagens ao vivo, adornadas com revelações, julgamentos e asserções de fundo moral, a respeito de quem está na situação de objeto do qual se fala. O repertório sobre a alteridade, uma vez assimilado, incorpora-se ao repertório do sujeito, com base no qual ele alimentará vínculos com outrem na vida social.

[2] Na função dos media interativos, que atuam na necessidade de proximidade e de intimidade com outrem, oferecendo ao sujeito a possibilidade de expressar-se ao vivo sobre fatos do momento ou sobre indivíduos (personalidades ou não), situação em que a visibilidade mediática comparece como elemento atinente à comunicação em tempo real. Ambas condensam duas experiências, a saber, a condição glocal, situação em que o sujeito vivencia a reprogramação espaço-temporal provocada pela tecnologia de comunicação com capacidade de rede (TRIVINHO, 2007a, p. 296); e o fenômeno comunicacional denominado por Trivinho (2010) melancolia do único, que se concretiza com a superexposição mediática daqueles que dependem dessa experiência para sentirem-se reconhecidos, aceitos e integrados socialmente.

[3] Como serviço de informações em tempo real tecnológico (caso específico das agências de notícias que fornecem conteúdo à imprensa, às empresas financeiras e não- financeiras, aos investidores, às instituições políticas e aos indivíduos particulares etc.), que transfere valor aos seus assinantes, na medida em que os guarnecem com informações sobre outrem – a concorrência, o governo, o mercado, as personalidades, a economia, a política etc. –, na função de insumos para o exercício do poder no espaço social.

[4] Como equipamento com capacidade de rede, por meio do qual o sujeito atinge o espaço de outrem, para satisfazer sua necessidade de proximidade no momento em que deseja ou julga necessário. O que importa é operar a distância mínima em relação ao outro, compartilhar de sua intimidade, mesmo que esta não lhe tenha sido oferecida ou não lhe

esteja disponível. Essa é a situação clássica do uso do celular para acessar o espaço alheio, com equipamento e rede a serviço da incontinência do sujeito em relação à sua própria carência de proximidade. Ele está entregue ao tempo real, vivendo-o por dentro, e entregue também, concomitantemente, à urgência da satisfação de sua suposta necessidade. O comando é não esperar para sentir-se com o outro, resolvendo o que para ele (o sujeito) – e, muitas vezes, somente para ele – parece ser urgente.

[5] Como redes de sociabilidade com finalidade de dar vazão à necessidade de expressão do sujeito. O atrativo da situação é a possibilidade, muitas vezes descuidadamente explorada, da manifestação, favorável ou desfavorável, ao vivo e em público, para outrem, a respeito de algo – do ente humano com suas peculiaridades corporais, comportamentais, suas ideias, atitudes e seus gostos; das instituições com seus procedimentos, suas normas, seus profissionais e seus eventos; das empresas e de seus produtos e serviços. A expressão nesse espaço de sociabilidade pode confundir-se com entretenimento porque, muitas vezes, assume o formato do chiste ou de passatempo à custa da alteridade.

Como se vê nas situações acima, a comunicação em tempo real, mais do que operação tecnológica, refere-se a determinado modus operandi que reúne sujeito e capital, diluído no cotidiano e arraigado nas práticas sociais corriqueiras, sendo invisível e reproduzido de modo inquestionável; quando percebido, é valorizado por ampliar o arco espaço-temporal da sociabilidade e permitir a realização de múltiplas tarefas com máxima economia de tempo, um modo de ação e de relação com o tempo e o espaço, que se tornou imprescindível na vida social dromocratizada. São inúmeras operações já incorporadas à rotina, principalmente de quem mora nas metrópoles, que revelam o espargimento do tempo real – ele está nas ligações telefônicas; nas interações a distância com recursos simultâneos de áudio e vídeo, via rede; nas teleconferências; no acompanhamento ao vivo, pela televisão, de fatos locais, regionais ou internacionais; na compra de bens e serviços com cartão, presencialmente ou via rede, no mercado nacional ou internacional; e até mesmo nas relações presenciais que incorporaram a aceleração, para mencionar as situações mais comuns. A se considerar que o tempo real também pode ser interpretado como ação que busca reduzir a zero o tempo empregado na relação com outrem e com objetos (serviços incluídos), mesmo sem recurso de rede, a comunicação em tempo real pode ser equiparada a um modo de vida todo orientado ao imediatismo e à simultaneidade entre ação e resposta.

O tempo, conforme visto nas situações especificadas, é relacional, o que pressupõe sujeito e alteridade vivenciando um o tempo do outro. Imediatismo, pressa, sofreguidão,

automatismo, atropelo, agitação, atabalhoamento, irritação e alheamento são alguns efeitos da aceleração atuada continuamente pelo sujeito na relação com outem, com ambos inscritos no regime da economia do tempo dispensado à alteridade (parcimônia no uso da linguagem e na expressão gestual). A abreviação do tempo dispensado a outrem, seja porque houve economia na expressividade do corpo, seja porque houve intercorrência provocada pela aceleração incorporada, pode resultar em interrupção, suspensão, bloqueio e impedimento da alteridade em processo, como subjetividade que se elabora de modo contínuo na interdependência com o sujeito. Para este, a alteridade é disponibilidade contra a qual a privação do tempo significa corte em seu modo de ser constantemente outro para o sujeito.

A alteridade resta, na relação dromocratizada, interditada e frustrada em seu processo intersubjetivo, constituindo-se em objeto de violência difusa e socialmente dissimulada. Ignorar o outro – de variadas formas, não importa se consciente ou inconscientemente – é lugar comum na cotidianidade das metrópoles, assim como ignorar a indiferença dispensada ao outro também é, no mesmo contexto, ato corriqueiro, associado ao comportamento automatizado do corpo por introjeção de três lógicas articuladas, a saber, da racionalidade, da produtividade e do tempo real. Com base nas reflexões de Souza (2001) sobre formas de violência contra a alteridade, pode-se afirmar que a privação de tempo ao outro, assim como o descaso a respeito desse fato, correspondem à negação da alteridade, por tentativa de neutralizá-la e aniquilá-la, submetendo-a à força de um modus operandi social que exclui a possibilidade de ela realizar-se, plenamente, na relação intersubjetiva.

Em linha com os efeitos da privação do tempo à subjetividade, a incorporação do tempo tecnológico no processamento das relações intersubjetivas força o sujeito a assumir um ritmo que não lhe é próprio. Evidentemente, a capacidade de velocidade do corpo não coincide com a do equipamento em rede, que é concebido, projetado e fabricado para alto desempenho em produtividade e já “nasce” no espaço da falta do sujeito, no que diz respeito à valorização da velocidade como qualidade da qual ele está despossuído. Ao lidar cotidianamente com equipamentos valorados por propriedade que, em última instância, evidenciam carências do corpo-mente (poder de captura, processamento e armazenamento de dados; de comunicação com outros equipamentos; e de entretenimento, sempre com aceleração embutida nas funcionalidades), é esperado que o sujeito incorpore o ritmo do objeto, obrigando-se a um desempenho em velocidade não-natural. Nesse caso, a aceleração imposta ao corpo, a partir da vivência do tempo real na relação corpo-objeto, modula o

tempo do sujeito pelo parâmetro do tempo tecnológico, com o corpo-mente sendo compelido a desempenhar a aceleração do tempo real.

Esse estado de coisas evidencia que o sujeito experimenta, no corpo, a violência da velocidade, que está oculta no social; ela “se reveste de e se oblitera por todos os foros da normalidade convivial (em âmbito presencial ou virtual), com nuances peculiares”, observa Trivinho (2010, p. 9). Para o autor, velocidade é violência invisível na medida em que se constitui em imperativo embutido no tempo do trabalho e do lazer, em dispositivo entrincheirado no social, em esquema coercitivo incutido na existência humana (pelo menos nas metrópoles) processada em sua relação inextricável com o capital. Segundo Trivinho (2007a, p. 96), a velocidade ultrapassou a condição de propriedade que serve ao ente humano e às coisas, sendo agora este e estas que servem à velocidade. Por esse caráter totalizante, por ter se tornado inelidível da vida humana na civilização capitalista, “a velocidade encontra-se materializada no próprio aparato produtivo, em sua dinâmica interna,

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