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Fonte: http://flankus.files.wordpress.com/2009/12/analise_guernica_1_.pdf

A famosa obra de arte Guernica é um excelente exemplo de como a arte pode contar uma história de vida ou várias histórias, e pode ser ainda um ponto de partida visual para a reflexão e o registo de uma narrativa autobiográfica ou biográfica. Segundo Júlio Plaza10, Guernica é considerada um ―texto não verbal que pretende transmitir em

essência as ideias de morte, destruição, ruptura, caos, catástrofe, angustia, e sofrimento‖, aquando de um ataque aéreo à cidade de Guernica, no nordeste de Espanha, levado a cabo por bombardeiros alemães, aliados dos fascistas espanhóis, em 26 de Abril de 1937. Plaza ainda descreve a obra de Picasso como ―uma narrativa de qualidade com uma ordem altamente sintáctica na qual existe uma progressão qualitativa e quantitativa dos acontecimentos narrados‖.

Através desta obra Picasso, enquanto defensor da liberdade humana e de um humanismo que se pode traduzir na aliança entre a arte e a vida, divulga um hino universal contra a insanidade de todas as guerras, revelando a sua preocupação com os sujeitos oprimidos e vítimas da violência.

De uma forma geral, várias obras de referência indicam que o touro e o cavalo (os quais fazem parte das touradas) são o símbolo do povo espanhol, vítima de agressão.

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As distorções das figuras do quadro representam o tormento infligido por uma força opressora. A boca aberta das pessoas e dos animais deixam escapar um grito colectivo de pânico e as cores utilizadas por Picasso nesta pintura (preto, branco e cinzento) revelam o ambiente dramático, dominado pela morte e pelo sofrimento. Se quisermos ter uma noção mais concreta das ideias que podem ser transmitidas por esta obra, a análise do quadro que se segue pode ser útil:

Personagens Atitudes Sentimento

Touro Erguida à esquerda para frente Valor, orgulho

Mãe Erguida para cima Estabilidade

Menino Para baixo Lamento Súplica

Guerreiro Horizontal, para o alto Morte

Ave Para cima Destruição

Cavalo Erguida, para a esquerda Lamentação, ascensão

Portadora de Luz Para a esquerda Agonia

Fugitiva Diagonal para a esquerda e acima Ingenuidade, busca

Mulher que cai Para cima e abaixo em diagonal Ansiedade, busca, pânico, súplica.

Fonte: Adaptado da Análise da Pintura de Guernica de Júlio Plaza, disponível em: http://flankus.files.wordpress.com/2009/12/analise_guernica_1_.pdf

Com este exemplo, também podemos inferir como os adultos poderão partir das artes plásticas para a sua narrativa autobiográfica, quando a passagem do pensamento à escrita tem que ter um estímulo visual e/ou cinestésico.

A música também tem sido uma forma de expressão de sentimentos e, por vezes, pode narrar partes de algumas histórias de vida. Frequentemente, ouvimos artistas referir-se aos seus álbuns musicais como autobiográficos. De acordo com informações de investigadores nesta matéria, é interessante considerar exemplos como os dos povos do Norte da Sibéria11, cujo repertório de músicas tradicionais incluiu, de forma

significativa, canções que pertencem a uma pessoa concreta e o conteúdo das mesmas músicas é autobiográfico.

Desde a Segunda Guerra Mundial, que as pequenas populações da Sibéria têm sido estudadas por pesquisadores russos na área da etnomusicologia (ou etnografia da música). Na sequência dessas investigações descobriram as canções improvisadas dos povos da Sibéria e do Extremo Oriente e passaram a designá-las como personal songs (em russo litshnaya pesnya), devido ao seu conteúdo autobiográfico. Nos anos sessenta a expressão personal songs já fazia parte da linguagem dos etnomusicólogos americanos. Outros termos passaram a ser utilizados como song-autobiography e

memory-song. Todos estes termos indicam que as canções em causa contam

acontecimentos ou experiências de uma pessoa concreta. Aparte de quaisquer considerações terminológicas (as quais não são relevantes para o presente trabalho), o que nos interessa é o facto de investigadores nesta área do conhecimento confirmarem, de forma unânime, que estas canções, não interessa como ou que designações lhes possam dar, para além de fazerem parte da tradição familiar, reflectem vivências do quotidiano do seu autor.

Mais uma vez referimos que a música (incluindo a letra) podem ser o produto de uma reflexão autobiográfica ou dar origem a uma narrativa autobiográfica. Não é invulgar o facto de músicas (letra e/ou melodia) evocarem vivências ou experiências concretas de uma pessoa, levando-a inclusivamente a visualizar ou a sentir o que aconteceu no

11 ―The Story of Life in Music: Autobiographical Songs of the Nganasans‖, artigo de Triinu Ojamaa disponível em: http://www.folklore.ee/folklore/vol21/songs.pdf

passado ou a imaginar o que gostaria que acontecesse no futuro, como uma projecção das suas expectativas.

Se as ciências sociais dão um importante contributo para a valorização do elemento (auto) biográfico na vida e na História, a verdade é que não se pode negar o contributo de tradições diarísticas e literárias para o mesmo efeito. Por isso, actualmente já se organizaram acções como o Curso de Verão organizado pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-ISCTE), sob a orientação de Idalina Conde, intitulado: ―Falar da Vida - (Auto)Biografias, Histórias de Vida e Vidas de Artistas‖, no qual se fez referência a diversas (auto)biografias, incluindo readings de narrativas fundadoras no século XVI (como as Vite de Giorgio Vasari, a Vida de Michelangelo Buonarroti de Ascanio Condivi, a autobiografia de Benvenuto Cellini), variantes confessionais e diarísticas dos séculos XIX e XX (De Profundis de Oscar Wilde, Le Journal de Eugène Delacroix, os Diários de Andy Warhol) e testemunhos recentes como os de Gabriel Garcia Márquez (2002) e Günter Grass (2006).