Embora as características da amostra analisada não permitam uma exploração mais precisa, pôde-se perceber que as hipóteses formuladas sobre os benefícios da aquisição do diploma encontram forte base empírica quanto mais é recente a formação superior das professoras. Em outros termos, os benefícios relativos, caracterizados aqui como
44 Assim, os traços apreendidos como característicos da leitura docente não possuiriam, como vem
questionando de modo mais geral em relação ao conceito de habitus, um caráter durável e expressaria divisões no interior do próprio indivíduo (ver, a respeito, LAHIRE, 2002) e suas relações com os contextos em que se manifesta, no caso, uma situação de pesquisa que é assimétrica e expressa uma violência de natureza simbólica.
45 Para uma análise crítica da noção de legitimidade, ver LAHIRE (2004). Um caso interessante a ser
analisado sobre os processos de construção e fixação da legitimidade de autores e obras no Brasil pode ser explorado na recente edificação, pela Prefeitura do Recife, de estátuas (à maneira daquela de Fernando Pessoa, no Chiado, e de Drummond, em Copacabana), dos escritores que melhor expressariam sua cultura e identidade, quer dizer, de sua literatura legítima. Seria interessante, para isso, analisar as relações entre os que foram incluídos (Clarice Lispector e Chico Science, João Cabral de Mello Neto e Luiz Gonzaga, Manuel Bandeira e Capiba – vale dizer tudo aquilo que se poderia, numa análise antropológica distinguir entre “alto” e “baixo”, “cozido” e “cru”) e os excluídos – como Osman Lins, Gilberto Freyre, Joaquim Nabuco e Joaquim Cardozo. A legitimidade cultural, nesse caso, deixa de levar em conta essas oposições que se traduzem entre o “erudito” e o “popular” e manifestam uma dinâmica muito diferente daquela estudada e, em grande parte, construída por Bourdieu. Para um estudo histórico sobre os processos de construção da legitimidade obras, de sua hierarquia e de seu efeito distintivo, cf. LEVINE (1988).
formas de exclusão, ainda que brandas, aplicam-se sobretudo às docentes cuja formação se deu ao longo dos últimos anos da década de 1970 e ao longo da década de 1980. É especialmente em relação a essas professoras que se observam a presença de uniões heterogâmicas descendentes, menores indicadores de capital cultural e social herdados e maiores índices de formação extemporânea.
Tudo isso leva a crer que o recrutamento docente se deslocou, ainda que de modo discreto, ao longo do período: progressivamente ele se faz cada vez mais junto as famílias com baixos capitais econômico, social e cultural, deixando de ser atraente para grupos familiares com maiores capitais acumulados.
É que, na década de 1970, observa-se um conjunto de rupturas na organização e na estrutura do sistema de ensino brasileiro, já iniciadas, em 1968, com a reforma universitária. Duas delas são de forte importância para este trabalho: ampliação progressiva da matrícula do ensino de 1º grau, sobretudo no antigo curso ginasial, que sofre, por isso, acentuadas modificações no perfil sócio-demográfico da população escolar: as camadas populares passam a ter maior acesso a uma escola pública de massa, que paulatinamente assume o ensino de 5ª a 8ª série, em detrimento da iniciativa
privada; concomitantemente, a progressiva necessidade de ampliação do recrutamento docente, que se torna menos seletivo e elitista, por meio do incremento da iniciativa privada (através das faculdades isoladas de Filosofia, Ciências e Letras), o que também altera o perfil sócio-demográfico da população docente, cada vez mais cooptada junto à população feminina e em meios pouco escolarizados e com baixo capital cultural, social e econômico. A escola e o ensino superior são invadidos, em levas sucessivas, pelos “bárbaros”.46
Tomando como pressupostos esse conjunto de elementos fornecidos pelas pesquisas anteriores como pressupostos, a presente investigação se interessa conhecer, de modo mais aprofundado, a geração que viveu essas “invasões” de modo mais agudo: a geração que se formou ao longo da década de 1970. Como se podem caracterizar suas posições na estrutura social? Como se dá sua trajetória de escolarização? Se a exclusão a que é submetida é “branda” ou “relativa”, trata-se também de uma inclusão “relativa” que benefícios objetivos e subjetivos se alcançaram pela escolarização longa? Que relações, de continuidade ou ruptura se estabelecem entre os docentes e seus grupos familiares de origem? De que modo os capitais relativos adquiridos pelo diploma de licenciatura afeta a escolarização dos filhos?
Se é verdade que o recrutamento se desloca, ainda que de modo minoritário,
paulatinamente de frações das classes médias para aquelas das camadas populares, o que acontece com o primeiro grupo que assiste, com as “invasões” bárbaras, a uma desvalorização do diploma e de suas possibilidades de reconversão em capital
econômico e social? Explorações preliminares com sujeitos pertencentes a esse grupo mostram o desenvolvimento de estratégias como o abandono da carreira docente, o ingresso tardio e, muitas vezes, pouco feliz, na carreira universitária, a forte presença do celibato entre mulheres e a experiência de um sentimento de desamparo, expresso por alguns como a preparação para um futuro e um país que, “num passe de mágica”, deixaram de existir.
46 As transformações por que passa o sistema de ensino no período são analisadas por GERMANO
Para reunir elementos a fim de responder às perguntas formuladas, esta pesquisa analisará a trajetória de vida e de escolarização, por meio de entrevistas, de formados em Letras, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ao longo da década de 1970. A justificava para a escolha desses sujeitos se encontra na seção sobre
metodologia.