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Por contraditório que possa parecer, os anos anteriores à Independência foram mais efervescentes e criativos para a nascente imprensa brasileira do que o período em que já éramos uma nação independente, após 1822. O movimento liberal conhecido como a “revolução do Porto” (e que buscava modernizar a metrópole, convocar uma assembléia constituinte e criar uma constituição para o Império, levando de volta para Portugal a família real) acabou tendo muitas repercussões na antiga colônia. Pois a modernização pleiteada pelos “revolucionários” portugueses, se saberia depois, não incluía o Brasil, que eles queriam ter novamente na condição de colônia. A intenção era não apenas levar de volta a capital do Império, transferindo a Corte do Rio de Janeiro para Lisboa, mas de recolonizar o país.

O que interessa é que o fim da censura prévia de publicações, em 1820, uma das decisões aprovadas pela Junta de Governo da revolução constitucional portuguesa9, teve vigência também para o Brasil. E aqui gerou seus frutos, pois esse foi um período rico em discussões políticas e no que seria a gestação da consciência de nacionalidade da antiga colônia.

Como já se disse, haviam ficado aqui os funcionários portugueses, identificados em tudo com a metrópole. Havia ainda os brasileiros, filhos de portugueses nascidos aqui, que se beneficiaram com a vinda da família real, e em tudo identificados com a metrópole, pensando em um Brasil integrante do Reino Unido. Havia os portugueses que adotaram o país e queriam a sua independência. E havia finalmente os brasileiros que defendiam a total emancipação dos laços com a metrópole, com posições claramente republicanas, como fora a idéia dos rebeldes mineiros da Inconfidência.10

Nesse contexto de discussão e de debates que se seguiu ao momento histórico da volta da família real para Portugal, e no marco da liberdade de imprensa, há o aparecimento de muitas publicações em todo o país, mas notavelmente no Rio de Janeiro. Como escrevem Morel e Barros (2003: 23), “O momento crucial para a emergência de uma opinião pública começa nos anos 1820 e 1821, contexto que antecede a independência do Brasil e marca mudanças significativas na estrutura política da Península Ibérica e de seus domínios na América”. Afinal, tanto Espanha como Portugal, a reboque das transformações provocadas pelas ocupações napoleônicas, debutarão no mundo dos países regidos por uma

constituição.

Em tal contexto de efervescência política apareceram, só no Rio de Janeiro, em 1821, os jornais O Amigo do Rei e da Nação (de Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva, circulou entre março e junho de 1822), O Bem da Ordem (redigido pelo cônego Francisco Vieira Goulart, entre março e dezembro de 1821), O Conciliador do Reino Unido (criado por José da Silva Lisboa, depois Visconde de Cairu, circulou de 1o de março a 28 de abril de 1821), O

Despertador Brasiliense (pasquim do mesmo José da Silva Lisboa, publicado em dezembro), o

Diário do Rio de Janeiro (que será comentado dois parágrafos a seguir), O Espelho (fundado por Manuel Ferreira de Araújo Guimarães, o segundo editor da Gazeta do Rio de Janeiro e criador de O Patriota, e que circulou de 1o de outubro de 1821 até 27 de junho de 1823), o

Jornal de Anúncios (5 de maio a 16 de junho de 1921), A Malagueta (de Luís Augusto May, periódico publicado de 18 de dezembro de 1821 a junho de 1822, com posteriores edições “extraordinárias”11), O Reverbero Constitucional Fluminense (periódico de Joaquim Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa, que circulou entre 15 de setembro de 1821 e 8 de outubro de 1822, exercendo grande influência no movimento pela independência), A Sabatina Familiar dos Amigos de Bem Comum (redigido por José da Silva Lisboa, o Cairu, entre 8 de dezembro de 1821 e 5 de janeiro de 1822).

E no ano seguinte, o da proclamação da independência, surgiram outras publicações, como Compilador Constitucional Político e Literário Brasiliense (de Joaquim Gaspar do Nascimento e João Batista de Queirós, teve 15 números, circulando de 5 de janeiro a 26 de abril de

Capítulo 2

1822), Annaes Fluminenses de Sciencias, Artes e Literatura (resenhado à parte, no final deste capítulo), O Constitucional (de José Joaquim da Rocha e do padre Belchior Pinheiro de Oliveira, foi editado entre 5 de julho e 31 de setembro de 1822), Correio do Rio de Janeiro

(redigido pelo português-brasileiro João Soares Lisboa, circulou entre 10 de abril e 21 de outubro de 1822, retornando de 1o de agosto a 24 de novembro de 1823), A Heroicidade

Brasileira (pasquim editado por Cairu em 14 de janeiro de 1822), O Macaco Brasileiro

(redigido por Manuel Zuzarte e Pedro da Silva Porto entre junho e agosto de 1822), O Papagaio (de Luís Moutinho Alves e Silva, apareceu de 4 de maio a 8 de agosto), Reclamação do Brasil (outra criação de José da Silva Lisboa, o Cairu, publicada entre 9 de janeiro e 22 de maio de 1822), O Regulador Brasílico-luso, que depois mudaria o nome para Regulador Brasileiro (escrito por frei Francisco de Sampaio e Antônio José da Silva Loureiro, apareceu entre 29 de julho de 1822 e 12 de março de 1823), O Republicano Liberal, A Verdade

Constitucional e O Volantim (1o de setembro a 31 de outubro)12.

Mas tal profusão de títulos não era sinal de longevidade. De todos esses periódicos, somente o Diário do Rio de Janeiroteria uma longa trajetória, sendo publicado por 57 anos, até 1878, e passando por diversas fases. Criado pelo português Zeferino Vito de Meireles, formado nas oficinas da Impressão Régia, onde fez carreira, ascendendo de impressor a vice-administrador (SODRÉ, 1999: 50), o número 1 desse que foi o primeiro jornal realmente informativo do país circulou em 1o de junho de 1821. Buscava fornecer ao leitor o máximo de informações e de notícias locais. Três décadas depois teve como redator chefe José de Alencar, que publicou sob a forma de folhetim seu romance O Guarani

(1857), grande alavancador de vendas da publicação. Em 1859 o jornal, até então conservador, sai de circulação, sendo relançado no ano seguinte com uma postura mais liberal. Sob a direção de Saldanha Marinho e de Quintino Bocaiúva, o Diário do Rio de Janeiro entra então numa fase mais empresarial, que dará o tom a ser seguido por quase todos os periódicos: a imprensa aos poucos passará a ser vista como um negócio, não como uma causa. Nessa fase, Machado de Assis é convidado a redigir o noticiário,

responsabilizando-se também pela cobertura política como repórter do Senado. O Diário do Rio de Janeirodeixa de circular em 31 de outubro de 1878 (LU STOSA, 2000: 485).

Das outras publicações acima nomeadas, poucas chegariam ao ano de 1823. Como ensina a profª. Dulcília Buitoni (1981), essas eram publicações de vida curta, quase sempre projetos voluntaristas, sem nenhum planejamento econômico. Em muitos casos, o próprio dono da pequena empresa tipográfica tinha de vender os equipamentos comprados para saldar as dívidas contraídas com seu projeto, geralmente doutrinário. Um outro entusiasta herdava o negócio para, na maior parte dos casos, passá-lo adiante para saldar as dívidas e assim sucessivamente.

A curta duração dessas publicações, no entanto, não diminui a importância desses jornais no processo de proclamação e de consolidação da independência brasileira, além de criar novos espaços e hábitos de leitura. Muitas desas folhas eram lidas em voz alta, em reuniões, dando lugar a animadas discussões, como se viu no capítulo anterior.

Como escreve Joaquim Marçal Ferreira Andrade, em seu estudo História da fotorreportagem no Brasil, “só a partir da campanha da independência é que os jornais proliferam e se alcança a liberdade de imprensa, iniciando-se o verdadeiro processo de desenvolvimento da imprensa periódica local, com a criação de inúmeros jornais por todo o país” (ANDRADE, 2004: 31). Atrás de todos esses jornais consolidavam-se as condições para a formação de um incipiente público leitor. Os frutos virão com o tempo.

Por causa dessa expansão e desse momento de discussões e debates outras

tipografias são instaladas fora da Corte, abrindo novas frentes nas províncias. Entre 1821 e 1822 são lançados periódicos no Pará, Maranhão e Pernambuco, além dos já existentes na Bahia. Anos depois, Ceará, Paraíba, Minas Gerais e Rio Grande do Sul inauguraram suas publicações locais. São Paulo demorará a se situar nesse clube. O primeiro diário a circular na província, O paulista, fundado por Antônio Mariano de Azevedo Marques em 1823, era

manuscrito. Teve vida curta, apenas 3 meses, e nenhum exemplar sobreviveu. Em 1827 surgiu na capital paulista O farol paulistano, primeiro jornal impresso (SODRÉ, 1999: 87). Seu organizador foi José da Costa Carvalho, diretor da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Em 23 de outubro de 1829 o italiano Giovanni Baptista de Líbero Badaró criava O observador constitucional.

Havia nesse período uma circulação significativa de impressos da Corte e das províncias pelo território brasileiro, criando uma espécie de rede que interligava os círculos letrados. Por meio desses impressos as pessoas se aliavam, se insultavam e se conheciam, manifestando-se publicamente. A imprensa foi um dos aspectos constitutivos do novo espaço público que se construía na nação recém-independizada. Alguns órgãos na Corte colocaram- se à frente da luta pela oficialização da independência nos anos 1821 e 1822. Nessa linha militavam o Revérbero Constitucional Fluminense, de Gonçalves Ledo e do cônego Januário da Cunha Barbosa; o Correio do Rio de Janeiro, de João Soares Lisboa, um dos que morreriam à frente das guerrilhas na Confederação do Equador e cujo jornal fazia longas e elogiosas transcrições do periódico Sentinela da Liberdade, do baiano residente em Pernambuco Cipriano José Barata de Almeida; e ainda A Malagueta, do já comentado Luis Augusto May.

É nessa época, final dos anos 20 e primeira metade da década de 30 do século X IX , que surgem os pasquins. Considerado pela historiografia oficial como de certo caos, esse período das regências é visto por autores como Werneck Sodré como de caminhada de afirmação dos valores nacionais, com uma imprensa peculiar em que se aprendia a exercer o direito à opinião (SODRÉ, 1999: 85). Foi o caso do Simplício, de 1831, marco inicial de uma “família” numerosa, da qual fizeram parte outros periódicos, como O Neto do Simplício, O Simplício da Roça, Verdadeira Mãe do Simplício, A Mulher do Simplício ou A Fluminense Exaltada.

A eles vão se juntando muitos outros, no calor das disputas em torno do jovem e irrequieto imperador Pedro I13, que finalmente se vê forçado a abdicar e deixar o país no episódio de 7 de abril de 1831.Pode-se nomear, entre pasquins famosos, Enfermeiro dos Doidos, Médico dos Malucos, Velho Casamenteiro, A Cegarrega, O Ferrabraz, A Bobaza, O Burro Magro, O Caolho, O Esbarra, O Maçado ou Palhaço da Oposição, O Par de Tetas, O Rusguentinho, A Mutuca Picante (EMPORIUM BRASILIS, 1999: 14).

O pasquim era redigido por uma pessoa, que compunha o original em um texto manuscrito e o enviava à tipografia, que servia não só como impressora mas quase sempre como ponto de venda, assim como as boticas, já que as livrarias eram raras nessa época. Werneck Sodré dedica ao pasquim o mais longo capítulo de sua História da imprensa no Brasil, um ensaio primoroso em que estabelece algumas das características desse tipo de publicação que proliferou pelo país com a disseminação das tipografias nas décadas de 20 a 50 do século X IX . O estilo panfletário dava a tônica dessas publicações, algumas de duas páginas (frente e verso), outras de quatro páginas (uma lâmina dobrada) e que muitas vezes não passavam do primeiro número.

Segundo Nelson Werneck Sodré, uma das marcas dos pasquins era ser composto de um só artigo ou tema, geralmente uma discussão de idéias ou uma diatribe contra alguma atitude do governo ou do grupo adversário. Como se disse, era um texto autoral, quase sempre de caráter doutrinário. Mesmo assim, freqüentemente o autor se ocultava ou no anonimato ou no uso de um pseudônimo, embora recheasse o texto de referências para ser facilmente identificado. O uso da epígrafe é outra característica dessas publicações de nosso nascente “mercado editorial”. “Não havia pequeno jornal que fugisse ao gosto de estampar, em prosa ou em verso, um motivo qualquer com relação ao programa ou princípio ou propósito a que obedecia” (SODRÉ, 1999: 160).

Algumas curiosas amostras dessas epígrafes, algumas em francês, outras em latim. Ou mesmo em linguagem corrente, como a do pasquim O Enfermeiro dos Doidos: “Não cabem no hospício os que conheço. Que remédio senão curá-los fora?” Ou esta, de O Precursor das Eleições, de Ouro Preto, 1828: De quelque manière, les citoyens s’occupent de leurs interêts, la chose important c’est qu’ils s’en occupent.

Capítulo 2

Uma outra característica dos pasquins e dessa primeira fase da imprensa brasileira era a veemência da linguagem, beirando muitas vezes o viés ofensivo, com invasão da vida particular e íntima. Nas suas disputas com o jornalista português Luís Augusto May, o príncipe Dom Pedro I teria escrito uma famosa diatribe, “O calmante da e no

Malagueta”, publicada em O Espelho de 10 de janeiro de 1823. Por sua linguagem quase escatológica, em que retrata maldosamente o desafeto e se refere a suas preferências sexuais menos ortodoxas com termos chulos, é considerada por Isabel Lustosa como

notável peça jornalística, talvez única em seu estilo publicada no Brasil, atribuída por muitos historiadores a D. Pedro I. E, de fato, quem ousaria escrever de maneira tão desabrida num cenário onde as leis ainda estavam por se fazer e onde jornalistas estavam sendo julgados por abuso da liberdade de imprensa? O príncipe se abalançaria a tanto. É bem seu estilo, presente em suas cartas, nos outros artigos que publicou e no anedotário que se criou em torno dele (LUSTOSA, 2000: 305).

Outra das características foi a vida efêmera de quase todos os pasquins: “a maior parte deles ficou mesmo na edição inicial, que se tornou única” (SODRÉ, 1999: 164).

Eram, enfim, o produto de uma imprensa artesanal, empregando prensas

tipográficas rudimentares. E foi assim que a imprensa deu seus passos iniciais entre nós, e muitos artesãos iam aprendendo o ofício. O público se acostuma a comprar o periódico – ou a se reunir para ouvir alguém que o lê – e o editor vai aprendendo o que cai no gosto de seu leitor, reforçando um ciclo.

Fugindo a esse modelo de provocação e pouco fôlego, foram lançados nessa mesma época os dois diários de maior duração na historia da imprensa brasileira: O Diário de Pernambuco (1825), no Recife, e o Jornal do Commercio (1827), no Rio de Janeiro. Ambos circulam ainda hoje. O diário carioca foi criado pelo tipógrafo francês Pierre François René Plancher de la Noé e por seu filho Émile. Donos de uma impressora, eles compraram o título do Diário Mercantil e o transformaram no inventivo Jornal do Commercio. O periódico teve um lado inovador, como a circulação da primeira folha solta com caricaturas e sátiras (com ocorreu na edição de estréia dessa modalidade de suplemento, em 14 de dezembro de 1837: as provocações eram contra o jornalista Justiniano José da Rocha).

Como na época ainda não havia se desenvolvido e introduzido aqui a técnica da impressão simultânea de texto e de imagem (tipografia e litografia, esta sendo o desenho realizado com um lápis de cera em uma base de pedra), muitos periódicos, sobretudo as revistas, optavam por apresentar as imagens encartadas no texto, gravadas geralmente em talho-doce ou então litográficas (ANDRADE, 2004: 37). Só já adiantada a segunda metade do século se descobrirá e se aperfeiçoará não apenas a impressão simultânea de imagem e texto, como a técnico do meio-tom ou fototipia, que permitirá a impressão de fotografia diretamente

nos periódicos, sem o recurso do clichê:

Nesse processo, a gravura de folha solta trans- forma-se numa arte popular, vendida em feiras e negociada nas ruas, não só pelos comerciantes de arte, mas também pelos próprios artistas. Ha- via a estampa de crítica social, a religiosa, a de feitos históricos e heróicos, a de comemorações, os retratos, as edições especiais referentes às fes- tas, etc. Além da venda popular, o editor era muitas vezes patrocinado pelo governo e pelos grandes senhores (ANDRADE, 2004: 44).

A protocaricatura satirizando o jornalista e político Justiniano José da Rocha (ver no próximo capítulo o item 3.5).

O certo é que uma cultura da imagem também se criará aos poucos, entre o público leitor, desenvolvendo uma forte demanda pela informação visual. A estampa de moda, brinde das publicações femininas, será valorizada pela informação visual que fornece e se constituirá num dos sucessos de publicações como O Jornal das Senhoras e sobretudo de A Estação, como veremos nos capítulos 4 e 7.