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Embora a chamada “consciência ecológica” propriamente dita só tenha florescido durante o século XX, as bases da concepção ética ambiental podem ser encontradas tanto nas religiões, como nas ciências, na filosofia e mesmo nas artes, ao longo de toda a história.

Paradoxalmente, as descobertas da ciência moderna – que põem em evidência a superioridade intelectual humana - contribuíram sobremaneira para desconstruir a concepção do homem como centro do universo.

As obras de Galileu Galilei e Kepler acerca da existência de um “universo infinito” onde nem a Terra, sequer o Sol, constituem o centro o universo, subverteram a consciência medieval de um “mundo fechado” e revolucionaram a ciência em sua época.

122 No mito de Prometeu, o domínio do fogo pelos homens – que assegura a sua superioridade sobre todas as outras

criaturas - ocasiona consequências desastrosas para a humanidade, ao acarretar a abertura da caixa de Pandora. Mas no fundo desta permanecera a esperança; o que sugere que o poder do homem seja utilizado com responsabilidade.

123 No Antigo Testamento, encontramos a lição do dilúvio, donde também se extrai o mito do pecado original,

quando o homem come do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o que representa a perda da inocência humana e a causa da sua própria mortalidade. Como consequência daquela transgressão à ordem divina, o homem passa a sofrer o martírio e a trabalhar pela própria sobrevivência, numa terra amaldiçoada. Enquanto o homem é expulso do paraíso, a sina é infligida sobre ele com uma advertência, na enigmática passagem bíblica que cuida da segunda árvore do Éden, a Árvore da Vida: “Eis que o homem se tornou como um de nós, capaz de conhecer o bem e o mal. Não vá agora estender a mão também à árvore da vida para comer dela e viver para sempre”. E o Senhor Deus o mandou para fora do Jardim de Éden, a fim de cultivar o solo de que fora tirado. Tendo expulso o homem, colocou diante do jardim de Éden os querubins com o cintilar da espada fulgurante, para guardar o caminho da árvore da vida”. BÍBLIA. Gênesis 3, 22-24. Português. Bíblia Sagrada. Rio de Janeiro: Vorazes e Santuário, 1982, p. 31.

A Galilei atribui-se à proeza de fornecer os pressupostos para a fundação da ciência moderna, com a separação da fé pela razão, na busca da verdade científica independentemente das verdades relevadas.124

O método científico desencadeou o estudo dos fenômenos naturais - seja na física, química, biologia, fisiologia, geologia, geografia, dentre tantas outras disciplinas - permitindo ao homem conhecer os segredos da natureza e seu funcionamento.

Contribuíram para desvendar os mistérios das leis da natureza personagens proeminentes como Sir Isaac Newton, e suas leis fundamentais sobre a natureza, Antoine Laurent de Lavoisier e a Lei da Conservação das Massas com a máxima “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Na teoria econômica, Thomas Malthus contribuiu para alertar acerca dos limites do uso da terra, através da sua teoria populacional. Todos, dentre estes e outros expoentes, contribuíram sobremaneira para as ciências naturais, sobretudo com a Escola Naturalista.

Contudo, há quem identifique a obra de Charles Darwin, a “Da Origem das Espécies”, de 1859, como a precursora da moderna ciência ecológica, introduzindo, inclusive, o conceito de “equilíbrio natural” como resultado da interação entre organismos no seu habitat, como o referira Brooks e Ross:

a teoria de DARWIN da seleção natural, onde explica a origem e a evolução das espécies como um processo que se origina da competição de indivíduos da mesma espécie por recursos naturais escassos é explicitamente baseada num princípio fundamental da ecologia – a interação de organismos no meio ambiente. Foi a ideia de Darwin que transformou todas as ciências sobre a vida e inspirou a ciência da ecologia.125

A sistematização da ecologia como ciência autônoma só surgiria mais tarde, como o esclarecera Eugene Odum, em uma das obras pioneiras sobre o tema, publicada originalmente em 1953:

O homem tem-se interessado pela ecologia, de uma forma prática, desde os primeiros tempos da história. Na sociedade primitiva cada indivíduo, para sobreviver, precisava de ter um conhecimento concreto do seu ambiente, isto é, da forças da natureza, das plantas e dos animais que o rodeavam. A civilização começou, de facto, quando o homem aprendeu a servir-se do fogo e de outros instrumentos para modificar o seu ambiente.

124 ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; Martins, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo:

Moderna, 1986, p. 145-147.

125 BROOKS, Richard O.; ROSS, Jones; ROSS, Virginia A. Law and ecology: the rise of the ecosystem regime.

Para a humanidade no seu conjunto é mesmo mais necessário do que nunca possuir um conhecimento inteligente do ambiente em que vive, condição de sobrevivência da nossa complexa civilização, uma vez que as “leis da natureza” fundamentais não foram revogadas; apenas a sua natureza aparente e as relações quantitativas se foram alterando à medida que a população humana foi aumentando e se expandiu o poder do homem para alterar o meio ambiente. [...] a palavra “ecologia” é de aquisição recente e foi proposta pela primeira vez pelo biólogo alemão Ernest Haeckel, em 1869. Antes disso, muitos dos grandes homens do renascimento biológico dos séculos dezoito e dezanove tinham contribuído para o tema, embora a designação “ecologia” não fosse utilizada.126 Ernst Haeckel, discípulo de Darwin, cunhara a expressão “ecologia” (palavra de origem grega, formada a partir de oikos que significa “lugar que se habita” e logos, que significa “ciência”), definindo-a como o estudo das relações dos organismos ou grupos de organismos com o seu ambiente, ou a ciência das inter-relações que ligam os organismos vivos ao seu ambiente.127

Com a evolução dos fundamentos da ecologia, em 1935, o botânico Sir Arthur George Tansley, membro fundador da Sociedade Ecológica Britânica, introduzira o conceito de ecossistema como unidade de base da ciência ecológica, a partir de uma concepção do “sistema como um todo” que “inclui não só o organismo complexo, mas todo o complexo de fatores físicos que formam o que é chamado o meio ambiente do bioma”, [...] “os fatores do habitat na sua forma mais ampla.”

Em seu artigo, intitulado “The use and abuse of vegetational concept and terms”, Tansley faz sua objeção ao método científico de se isolar um organismo para conhecê-lo mais profundamente, realçando a necessidade de se desvendar como é que interagem com outros fatores do seu meio ambiente:

Nosso preconceito humano naturalmente nos força a considerar os organismos (no senso do biólogo) como a parte mais importante do sistema, mas, certamente, os “fatores” inorgânicos também são partes do sistema – não poderia haver sistemas sem eles, e há uma constante interação entre as mais variadas espécies em cada sistema, não só entre organismos, mas também entre matéria orgânica e inorgânica. Estes ecossistemas, como podemos chamá-los, são dos mais variados tipos e tamanhos. Eles formam uma categoria de sistemas físicos multitudinários do universo que vão desde o universo como um todo até o átomo.128

A passagem acima é relevadora de aspectos que são peculiares à ciência ecológica contemporânea. Seus conceitos – como o é o de ecossistema – e seu objeto a caracterizam como uma ciência dedicada a uma matéria extremamente complexa, que é debruçada sobre sistemas

126 ODUM, Eugéne P. Fundamentos de ecologia. 6a ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 3-4. 127 Ibidem, p. 4.

128 TANSLEY, Arthur George. The use and abuse of vegetational concept and terms. KELLER, David R.; GOLLEY,

dinâmicos, mutáveis, variáveis e sobrepostos; enfim, características da própria natureza, cujas leis ou lógica, muitas vezes, permanecem misteriosas para o homem; como o são até hoje.

A perquirição sobre os vetores invisíveis e indomáveis da ordem natural, ou mesmo a sobrenatural, suas causas e consequências, dão o tom holístico e, por vezes, esotérico, que a distingue de outras ciências, mais cartesianas.

O fato é que a ecologia – apesar dos avanços - está longe de fornecer as respostas para os desafios ambientais de nossa Era, sendo, ainda, relativamente incipiente diante da realidade que se impõe.

Contudo, o produto da disciplina tem servido para fornecer os pressupostos científicos necessários ao embasamento teórico da consciência ecológica contemporânea, sendo instrumental para corroborar as concepções de ética ambiental que evoluem progressivamente nestes tempos e evoluem na normatividade para a proteção ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.