1. Theoretical and empirical context of investigation
1.1. Motivation for research on entrepreneurship in developing countries context
“As línguas humanas não constituem realidades estáticas; ao contrário, sua configuração estrutural se altera continuamente no tempo” (Faraco, 1991, p. 9). Essa citação retrata bem o que se afirma desde a Introdução deste trabalho sobre a língua: que
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A respeito dessa “qualificação” feita por Luft: se toda gramática é completa, não se pode considerar que existe um nível “baixo” e um nível “alto”. O que se tem são variações, e, embora se respeite a opinião do autor sobre esse assunto, nesta dissertação acredita-se que a idéia de “desenvolver a gramática do aluno” parece bastante estranha, já que o objetivo é aceitar e estudar, sempre que possível, os usos que se fazem da língua.
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ela é, naturalmente, heterogênea e passível de variação e mudança. Nenhum estudo lingüístico que parta de um pressuposto que se oponha a isso terá uma boa fundamentação.
A dinamicidade da língua é observada por meio das mudanças lingüísticas. Estas não se dão rapidamente, mas sim de forma lenta e quase imperceptível, já que atingem partes, e não o todo, da língua, e, de acordo com Faraco, isso significa que “a história das línguas se vai fazendo num complexo jogo de mutação e permanência” (Faraco, 1991, p. 9), o que reforça a imagem estática que a maioria dos falantes têm da língua. Além disso, segundo o autor, a mudança se dá de forma muito mais clara na língua falada, já que a escrita é uma modalidade mais estável, e modera, de certa forma, as mudanças (o que reforça o que se disse sobre a certa uniformidade mantida na língua, que é o que garante uma comunicação eficiente entre todos os seus usuários). Mais do que isso, continua Faraco, somos remetidos ao pressuposto básico do estudo da variação no uso da língua, que é o de que a heterogeneidade lingüística não é aleatória, mas governada por regras.
De qualquer maneira, é preciso considerar que, mesmo havendo fatores de unificação (conforme discutido em Meillet, 1911), há variação, e esta pode estar presente em vários campos. Essas variações podem implicar uma mudança no próprio sistema, como é o caso, por exemplo, da transformação ocorrida na passagem de Vossa Mercê para o atual você, vocábulo unanimemente aceito e dicionarizado. No entanto, como alerta Faraco (1991, p. 13), nem toda variação implica mudança, mas toda mudança pressupõe variação, ou seja, há casos de variação que acabam sendo assimilados pelo sistema (como o caso do você), mas há outros que não chegam a esse ponto.
Assim, de acordo com o autor, estudar uma língua por completo significa considerar seus diversos dialetos e variedades, levando em conta as especificidades de cada grupo de falantes, em cada região, de cada faixa etária, sexo, grau de escolaridade, nível
social, etc. É aí que entra o fundamental papel da Sociolingüística. Essa área interdisciplinar é a responsável pelos estudos particulares de cada fator que influencia as possíveis diferenças fonológicas, morfológicas, gramaticais, etc. dentro de uma dada língua, e considera a variação como um princípio geral e universal, passível de ser descrita e analisada cientificamente; ou seja: as opções de uso disponíveis para o falante são influenciadas por fatores estruturais e sociais, e é possível identificar as tendências que regulam essas alternâncias de uma forma sistemática. A Sociolingüística contribui, portanto, para que a variação, a diferença, seja vista não como possível deficiência, mas como “garantia de eficiência da comunicação” (Neves, 2001a, p. 34).
De acordo com Faraco (1991, p. 17), todo estudo sociolingüístico deve basear- se em dados comprobatórios, para se evitar
(…) transferir juízos de valor do senso comum para o trabalho de descrição e de interpretação dos fenômenos lingüísticos (em especial quando se trata de realidades de sua própria língua), porque esses juízos não têm, na maioria das vezes, base empírica e não passam de enunciados preconceituosos.
É preciso, portanto, como também afirmam Savioli e Fiorin no Prefácio ao Guia de uso do português (Neves, 2003a), “proceder a um levantamento criterioso, baseado em pesquisa de corpus e não no palpite de uma suposta autoridade” (p. 8), para garantir se um uso está ou não de acordo com a norma-padrão escrita.
William Labov, considerado o maior representante da corrente sociolingüística denominada de Teoria da variação lingüística ou Variacionismo, também declara, dentro dos pressupostos dessa teoria, a importância de se ressaltarem dois aspectos: o primeiro é o caráter eminentemente social dos fatos lingüísticos, e o segundo é a percepção da variabilidade a que esses fatos estão continuamente submetidos. Resumindo os ensinamentos desse lingüista em uma única frase, a língua e a sociedade estão tão
intimamente relacionadas que se torna impossível conceber a existência (e o estudo) de uma sem a outra.
De acordo com os ensinamentos de Labov, o Variacionismo (e pode-se dizer que, mais amplamente, a Sociolingüística), visa responder à questão central da mudança lingüística a partir de dois princípios teóricos fundamentais: (i) o sistema lingüístico que serve a uma comunidade heterogênea e plural deve ser também heterogêneo e plural para desempenhar plenamente as suas funções; rompendo-se assim a tradicional identificação entre funcionalidade e homogeneidade; (ii) os processos de mudança que se verificam em uma comunidade de fala se atualizam na variação observada em cada momento nos padrões de comportamento lingüístico observados nessa comunidade, sendo que, se a mudança implica necessariamente variação, a variação não implica necessariamente mudança em curso (Labov, 1972 e 1994).
Por fim, a análise sociolingüística busca estabelecer a relação entre o processo de variação que se observa na língua em um determinado momento (isto é,
sincronicamente) e os processos de mudança que estão acontecendo na estrutura da língua
ao longo do tempo (isto é, diacronicamente).
Para encerrar esta subseção, recorre-se novamente à teoria funcionalista, vista na seção 6, lembrando que ela também oferece alguns aparatos para a avaliação da variação lingüística e suas manifestações no uso, já que, segundo Neves (1997, p. 77), ela:
a) é dirigida para a questão da comunicação eficiente, a chamada “competência comunicativa” dos falantes (…).
b) é inserida em um “modelo de interação verbal” (Dik, 1997) que se assenta na relação entre “intenção” do falante (baseada na “antecipação da interpretação” do ouvinte) e “interpretação” do ouvinte (baseada na “reconstrução da intenção” do falante), tudo governado pela noção de que a interação bem sucedida traz modificação na “informação pragmática” dos interlocutores (…).
c) afinal, e em conseqüência, é assentada no ponto de vista de que o “usuário da língua natural” (Dik, 1997) opera não apenas com “capacidade lingüística”, mas também com “capacidade epistêmica”, “capacidade lógica”, “capacidade perceptual”, e, afinal, “capacidade social”, pela qual
não apenas ele sabe o que dizer “mas também como dizê-lo a um parceiro comunicativo particular, numa situação comunicativa particular, para atingir objetivos comunicativos particulares”.