Além de contatos formados no campo político e profissional, contar com uma trajetória política, seja em cargo eletivo ou na administração pública, foram as caraterísticas inerentes a uma parcela dos nomeados conduzidos e reconduzidos ao cargo de prefeito. Nas ASN, o prefeito não era escolhido por processo eleitoral, necessitando apresentar predicados que viabilizassem a sua indicação. A passagem e a experiência adquirida em cargos administrativos da prefeitura, serviram para João Antônio Dib, ex-prefeito nomeado na capital Porto Alegre como uma espécie de fonte de crédito – acumulada lentamente em sua trajetória
– e reconhecida por Jair Soares, governador do estado, como um dos principais fatores para legitimar sua indicação e nomeação.
Soares, enfatiza que a escolha do prefeito da capital deveria ser avaliada necessariamente por líderes políticos da Arena e MDB, manifestando a existência de áreas de influencia, círculos compostos por políticos proeminentes do cenário estadual, responsáveis por definir uma lista de opções e a viabilidade destes nomes. E relata que num destes encontros seu nome foi ventilado e Pedro Simon, líder do MDB na Assembleia, vetou a indicação realizada por Sinval Guazelli. Tal relato demonstra que a nomeação de prefeitos nem sempre foi realizada pela cúpula do regime e sim decidida regionalmente.
Soares, que já conhecia o sistema, ao ser questionado sobre a indicação de Antônio Dib como prefeito nomeado de Porto Alegre, o descreve como “homem que tinha passado por todos os cargos da administração de Porto Alegre, a experiência dele vinha desde o DMLU, DMAB e na mais importante delas, a secretaria de obras do município. Então, ele era um homem preparado, por isso o nome dele foi aprovado”.
Dib, iniciou sua carreira em 1963 como servidor público, conciliou passagens pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre e em diversos setores da prefeitura municipal. Pouco tempo antes de assumir como prefeito, foi eleito vereador pelo PDS, sendo o mais votado entre seus adversários no ano de 1982. Sobre sua indicação e nomeação, comenta o seguinte:
Eu nunca movi uma palha para ocupar todos os cargos que eu ocupei. O governador Jair Soares escolheu o meu nome, é verdade que eu tinha sido o mais votado do PDS. E eu sei que outros se movimentaram para que fossem escolhidos, mas eu não fiz um único movimento, e todos os cargos que eu ocupei eu aceitei, às vezes coloquei condições e se aceitaram as minhas condições, eu trabalhei.
Eu acho que quem quer servir, serve em qualquer lugar e eu assim pensei. Foi surpresa para mim até certo ponto, porque eu via muita gente se movimentando e eu não fazia nada.
O governador Jair Soares, no dia que ele iria assumir o governo do estado, me chamou no escritório do meu colega, José Granato e disse: “eu escolhi teu nome, vou indicar teu nome pra Assembleia”.
E eu, como sabia que ele fazia reunião com todo mundo que ele convidava para secretário durante horas, eu perguntei: “O senhor tem alguma orientação?”. Governador: “Não, é contigo”.
Dib: “O senhor quer indicar algum nome para o secretariado?” Governador: “Não, é contigo”.
Dib: “Mas eu vou insistir, porque de repente o senhor pode ter algum problema”. Então ele indicou o nome de Adaury Pinto Filippi.
Dib: “Você não precisa indicar esse nome porque eu escolheria ele”.
Aí ele deu outro nome, esse eu posso levar, mas não para o lugar que ele quer, mas sim para o lugar que o pai dele foi diretor, foi o Vicente Dutra.
Governador: “Então eu não quero mais nada, está tudo contigo agora, os nomes que eu te dei, tu pensas neles”.
É claro, que nos últimos dias eu já sabia mais ou menos que as coisas estavam acontecendo em torno do meu nome, até porque saiu no jornal e o Jair. Encontrei o governador Jair na assembleia que disse: “Aquele jornalista não devia ter botado o teu nome, para não complicar as coisas.”
Também não perguntei por que ele disse aquilo, como eu disse, eu nunca movi uma palha.(Dib, 2012) – Porto Alegre
Embora Dib tenha expressado “não fazer força”, sua indicação foi patrocinada diretamente pelo governador Soares, que elenca seus motivos: “dizer que existia outros candidatos. Existiam muitos. Todos queriam ser prefeito de Porto Alegre, mas nem todos, ou quase todos, obteriam o beneplácito da Assembleia Legislativa e isso era importante. Imagine, mandar um nome, cujo o líder á época era Pedro Simon”.
Outro ponto considerado para esta escolha, além do respaldo da votação de Dib à câmara municipal, foi o amplo capital social acumulado por Dib durante o desempenho das atividades em diversos governos de prefeitos nomeados, como os de Célio Marques Fernandes, Telmo Thomposn Flores e de seu antecessor, Guilherme Sócias Vilella com quem mantém sólidos laços de amizade.
Eu não sei o que aconteceu, eu sei que ele me convidou no dia que ele assumiu o governo, mandou o meu nome para a Assembleia no dia 15 de março de 1983, e a Assembleia foi aprovar meu nome, no dia 2 de abril, por 34 votos contra 21, e eu assumi no dia 8. Poderia ter assumido no dia 3, mas o Vilella tinha assumido no dia 8 de abril, ele completaria 8 anos, e eu entendi que ele deveria sair no dia 8 de abril e não do dia 2 ou 3 de abril. E nós nos consideramos quase irmãos, ele me considera o irmão mais velho dele.
Entrevistador: O Villela teve algum tipo de influencia na indicação do seu nome junto com o governador?
João Antônio Dib: Não, eu acho que não, pelo menos eu não sei. Eu era secretario do governo dele quando fui indicado para ser o novo prefeito.
(Dib, 2012)
Investigar o recrutamento com base na carreira anterior fornece indicadores sobre como se dá o ingresso na atividade política e o fato de Dib ter ocupado cargos na estrutura da prefeitura de Porto Alegre, conquistar o cargo de vereador com a maior votação, somado a experiência adquirida em diversos níveis da burocracia, admitiram a formação e cultivo de um amplo capital social. Deve-se considerar para este quebra-cabeças que é a nomeação, a estrutura de oportunidades, além dos filtros descritos pelos elevados critérios instalados por Soares, apoiado pessoalmente o nome de Dib.
4.3 O PRESIDENTE DA REPÚBLICA E OFERTA DE CARREIRAS: AS NOMEAÇÕES