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1 Introduction

1.1 Motivation

Pelo que se observa, acerca do que Diderot considera como “verdadeiro na arte”, trata- se apenas de um termo que Diderot utiliza por analogia à verdade, numa alusão a Platão, pois, embora não seja concebido dentro de um registro ontológico, como em Platão, o termo conserva o caráter inteligível e universal que Platão confere à verdade. No que respeita ao caráter “universal” da ideia de beleza em Diderot, Franklin de Matos, em seu comentário no artigo A Poética do Quadro: (sobre o filho natural de Diderot), deixa evidente esse aspecto que marca a analogia, entre a noção de beleza, em Diderot, e a verdade, em Platão: “[...] o fundamento da beleza nas artes é o mesmo que o da verdade em filosofia, isto é, a ordem universal das coisas” (apud Matos. 2001(b), p.49).

No Discurso sobre a Poesia Dramática, quando distingue a memória da imaginação, Diderot apresenta a última, por assim dizer, como a faculdade que distingue o artista dos demais.

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Mas em que momento ele [o homem] deixa de exercer sua memória, começando a aplicar a imaginação? E quando, de questão em questão, é obrigado a imaginar, ou seja, a passar de sons menos abstratos e gerais até chegar a uma representação sensível, último termo e repouso de sua razão? Que se torna ele, então? Pintor ou poeta. (2005(a), p.67).

Como se pode observar, para Diderot, a imaginação é a faculdade fundamental da arte. Dito isso, partimos agora para a consideração de Diderot a respeito da autonomia da imaginação e concomitantemente, do artista, em relação ao aparato objetivo do conhecimento.

Em primeiro lugar, o artista, na visão de Diderot, não se regula pela noção de adaequatio; o valor da arte não pode ser aquilatado tendo em vista esse critério. É o que confirma o comentário de Jacira de Freitas, no artigo: A Imaginação em Diderot e em Rousseau:

O modelo interior que o poeta ou o artista concebe em sua imaginação é inspirado pelo modelo exterior, mas não se confunde com ele. Isso significa que a questão da correspondência entre os seres inventados pela imaginação aos objetos do mundo real, isto é, do mundo sensível, simplesmente não se põe em momento algum. (2015(b), p.175).

Como se observa na citação anterior, no processo de criação o artista parte de uma realidade menos geral e abstrata para uma realidade que encontra nela seu último termo, trata- se do modelo ideal que Diderot apresenta prodigamente em O Paradoxo como o modelo a ser buscado pelo grande artista. Isso quer dizer que o artista possui a liberdade de criar e forjar o produto de sua arte, não estando impelido ou constrangido a ter de adequar sua obra ao real. Jacira de Freitas corrobora:

Ora, é precisamente por não se partir da exigência de fidelidade ao objeto, que imaginação em Diderot adquire tal importância para o trabalho do artista [...]. Nesse âmbito, ele chega a ser indispensável. Ao passo que, no âmbito do conhecimento, isto é, para o filósofo, ela só é útil quando se submete ao poder do julgamento, já que favorece a elaboração de hipóteses e conjecturas [...], Mas se não for controlada pelo julgamento, pode induzir ao erro. (idem. p.175).

No trecho final da citação, Diderot distingue o artista, do filósofo, para marcar que a imaginação seve aos dois, mas de maneira diferente. Afirma Jacira de Freitas que

No Sonho de d’Alembert, Bordeu contrapõe sábios e filósofos ás “gens à imagination”,31 os últimos são os poetas, os artistas, os entusiastas e os loucos, que

31Em algumas passagens de O Paradoxo (2000, p.34, §3), em que fala da – “inspiração” – Diderot atribui ao

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não têm um sistema coerentemente organizado como os primeiros, que se caracterizam pelo equilíbrio e harmonia de suas faculdades32(idem. p.176).

Se há critérios ou regras na arte, parece ser produto da forja do artista, como indicam tais passagens. Portanto, a arte não está subsumida a critérios objetivos preestabelecidos com os quais a arte deve conformar-se. A arte não pertence ao âmbito teórico/objetivo da razão, não pode ser, por isso, demonstrada teoricamente33. Diderot ratifica: “ele não demonstrou

[porque não se trata de uma questão teórica] de modo algum essa verdade, ele no-la fez sentir: a cada linha ele nos faz preferir a sorte da virtude oprimida à sorte do vício triunfante” (2000(m), p.18). É em um sentido bem próximo a este, que, Benedito Nunes, referindo-se a Kant, comenta sobre essa diferença entre o discurso estético e teórico:

Kant admite três modalidades de experiência: a cognoscitiva [...], inseparável dos conceitos mediante os quais formamos idéias das coisas e de suas relações; a prática, relativa aos fins morais que procuramos atingir na vida; e a experiência estética, fundamentada na intuição ou no sentido dos objetos que nos satisfazem [...]. Agradando por si mesmos, eles despertam e alimentam em nosso espírito uma atitude que não visa ao conhecimento e a consecução dos interesses práticos da vida. É uma atitude contemplativa, de caráter desinteressado. Consequentemente, afirma-o Kant, o belo é propriedade das coisas que agradam sem conceito e que nos causam uma satisfação desinteressada [...] (2009 (d), p.13).

Essa digressão proposta a respeito desse cotejamento entre Platão e Diderot acerca do estatuto que ambos conferem à noção verdade justifica-se pelo fato de ela ressaltar as consequências metodológicas que se observa dessa aproximação. Não é nossa intenção negligenciar as diferenças que saltam aos olhos quando se compara o tratamento dado por Platão e Diderot ao tema da “verdade”. Grosso modo, a “verdade”, em Platão, como foi apresentada acima, está situada numa dimensão ontológica e epistêmica, enquanto que, em Diderot, embora essa noção seja outrossim representada de maneira abstrata, ela aparece despida daquele caráter metafísico que Platão lheatribui. É o que comenta Arthur Wilson

32 Note-se que essa passagem coaduna-se com as observações que Platão faz a respeito da estrutura anímica do poeta, que não possui uma natureza equilibrada que o credencie a cuidar da educação da cidade. Por isso a defesa de que o filósofo, por possuir naturalmente essa característica, é que deve desempenhar essa função.

33Esse é um mais um motivo que reforça o argumento de que a arte é o veículo, por meio do qual, a virtude ou as questões éticas, de um modo geral, podem ser problematizadas.

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sobre essa relação equidistante entre Platão e Diderot por meio da maneira como concebem esse modelo ideal:

Essa teoria da arte parece muito demasiada platônica – Diderot refere-se a Platão na carta que abre o Salãode1767. O mérito da teoria, contudo, reside na importância que aquinhoa ao artista. Está implícita uma concepção muito exaltada de seu papel. Ele é mais do que um imitador; é um criador. Desde a época de Platão e de Aristóteles, o princípio de que a arte é imitação da natureza fora quase que sacrossanto, e até mesmo, no século XVIII, os escritos de Du Bos, Batteux, e mesmo Burke e Hume ajustaram-se a ele. Diderot leva adiante o que é essencialmente uma nova estética, formada no princípio por Shaftesbury, e implicando concepções novas e revolucionárias quanto ao papel do artista. (2012(a), p.593).

Seria uma leviandade de nossa parte, portanto, querer tornar idênticos ambos discursos, à revelia do próprio Diderot, diga-se de passagem, uma vez que ele mesmo, embora confesso tributário de Platão, faz questão de distanciar-se desse aspecto ontológico. É o que atesta os comentários de Franklin de Matos a respeito da análise de Panofsky acerca da vibração do pensamento platônico da arte no séculoXVII.Segundo Matos, um dos traços fundamentais dessa vibração é que “já não se concebem as Ideias como substâncias metafísicas que existem fora do mundo sensível, mas como representações que residem no espírito do homem” (idem). E é justamente o que se deve acrescentar sobre o papel de Diderot nessa tradição, como reforça Franklin de Matos, referindo-se a Pietro, teórico do neoclassicismo: ‘“essa ideia, que se encontra no interior do espírito do artista, já não tem o direito a uma origem nem a uma validade metafísicas [...], [ela] provém da intuição sensível, com a única diferença de que esta parece conferir-lhe uma forma mais pura e mais sublime’”. (apud. Matos. 2001(b), p.78).

Portanto, se a verdade em Platão possui um estatuto ontológico, o que já foi demonstrado nos primeiros capítulos, o sentido que Diderot emprega essa noção à arte situa- se fora desse registro; não pode, portanto, ser interpretada literalmente, isto é, dentro de um registro teórico-conceitual, de modo a confundir os âmbitos epistêmico e o estético, o que seria uma improbidade conceitual da qual Diderot não compartilha, o que fica evidente pelos motivos aqui apresentados.