O escritor decidiu desvendar o mundo e especialmente o homem para os outros homens, a fim de que estes assumam em face do objeto, assim posto a nu, a sua inteira responsabilidade.
Jean-Paul Sartre
Em sua obra As Palavras, Sartre ao procurar desvendar as raízes de sua vocação de escritor e descobrir o sentido moral e social de seu oficio discutindo o estatuto da literatura termina por nos oferecer inúmeros subsídios para refletir sobre a condição dos intelectuais na sociedade contemporânea.
Ao tecer tais reflexões Sartre constatou que ler e escrever é a sina do intelectual. Tanto que afirmou: “[...] nasci da escritura: antes dela, havia tão-somente um jogo de espelhos; desde o meu primeiro romance, soube que uma criança se introduzira no palácio dos espelhos. Escrevendo, eu existia, escapava aos adultos: mas eu só existia para escrever, e se dizia eu, isso significava: eu que escrevo”.11 Ou ainda: “comecei minha vida como hei de acabá-la, sem dúvida: no meio dos livros”. Uma vez que “[...] foi no livro que encontrei o universo: assimilado, classificado, rotulado, pensado e ainda temível; confundi a desordem de minhas experiências livrescas com o curso aventuroso dos acontecimentos reais”.12 Introduzido no mundo mágico das palavras desde cedo pelo avô, Sartre ia da ficção para a realidade. Achava mais verdade nos livros do que nos objetos. Sentia prazer em escrever. Sartre louco por literatura, “máquina de produzir palavras”, como se definia a si mesmo, foi um incansável trabalhador e polígrafo inesgotável.
Afinal para o maior expoente do existencialismo, escrever é uma ação de desnudamento. Não basta ao escritor ter escrito certas coisas, é preciso ter escolhido escrevê-las de um determinado modo, expondo seu mundo, com elementos estéticos. O homem que escreve tem a consciência de revelar as coisas, os acontecimentos; de constituir o meio através do qual os fatos se manifestam e adquirem significados.
11 SARTRE, Jean-Paul. As Palavras. Tradução de Jacó Guinsburg. 6 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
2000, p. 111.
Ao escrever, o escritor transfere para a obra certa realidade, tornando-se essencial a ela, que não existiria sem seu ato criador. Um dos principais motivos da criação artística é certamente a necessidade de nos sentirmos essenciais em relação ao mundo.
Nesse caso, percebe-se que o escritor deve estabelecer um pacto com o leitor para que a obra contribua para a transformação do mundo, da realidade. A liberdade é o bem maior do homem, para alcançá-la e mantê-la, é necessário uma consciência desperta. O papel do artista é contribuir para o despertar da consciência das pessoas.
Ainda nesse aspecto, Sartre em Que é a literatura?13 nos faz enveredar pela lógica que permeia o universo da literatura, ou seja, da atividade literária, enfatizando a natureza e a finalidade da mesma. Em suma, por sempre considerar o projeto de escrever como a livre superação de uma dada situação humana e total, ele nos convida examinar a arte de escrever propondo uma reflexão sobre três questões essenciais e inéditas: o que é escrever? Por que escrever? Para quem escrever?
Eis a maneira pela qual Sartre concebe a atividade de escrever:
Escrever é, pois, ao mesmo tempo desvendar o mundo e propô-lo como uma tarefa à generosidade do leitor. É recorrer à consciência de outrem para se fazer reconhecer como essencial à totalidade do ser; é querer viver essa essencialidade por pessoas interpostas; mas como, de outro lado, o mundo real só se revela na ação, como ninguém pode sentir-se nele senão superando-o para transformá-lo, o universo do romancista careceria de espessura se não fosse descoberto num movimento para transcendê-lo.14
Ou ainda como prossegue o filósofo:
Escrever não é viver, nem tampouco afastar-se da vida para contemplar, num mundo em repouso, as essências platônicas e o arquétipo da beleza, nem deixar-se lacerar, como se se tratasse de espadas, por palavras desconhecidas, incompreendidas, vindas de trás de nós: é exercer um ofício. Um ofício que exige um aprendizado, um trabalho continuado, consciência profissional e senso de responsabilidade.15
E o escritor como Sartre o define? Sob sua ótica de análise o escritor é um homem que desvela o mundo e singularmente o homem aos outros homens para que estes tomem,
13 SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? Tradução de Carlo Felipe Moisés. São Paulo: Ática, 2004. 14 Id. Que é a literatura? Tradução de Carlo Felipe Moisés. São Paulo: Ática, 2004, p. 49.
em face do objeto assim desnudado, a sua inteira responsabilidade. A revelação aduzida pelo prosador implica a transformação do revelado e compromete, nesta tarefa, a responsabilidade dos outros. Não é escritor aquele que disse certas coisas, mas aquele que escolheu dizê-las de certo modo. Para ele “[...] quer seja ensaísta, panfletário, satirista ou romancista, quer fale somente das paixões individuais ou se lance contra o regime social, o escritor, homem livre que se dirige a homens livres, tem apenas um único tema: a liberdade”.16 (Destaque nosso)
Disso decorre outra questão: A que apela o escritor? Este “apela à liberdade do leitor para que esta colabore na produção de sua obra”.17 Já que toda obra literária é um apelo. Escrever é agir, pois significa comprometer-se com uma ação social concreta e prática, não se limitando apenas a uma atitude de contemplação do mundo.
Logo uma das atribuições principais do escritor é descrever uma situação tencionando mudá-la, visto que o compromisso do seu ato de escrever deve ser com o desvelamento. Assim tanto o dramaturgo quanto o prosador, procuram desvendar o mundo para o seu público. Independente da forma que uma obra literária venha assumir, ela é sempre desvelamento concreto para os homens concretos de seu tempo.
As análises de Que é literatura? levaram a uma separação entre as diversas formas de arte a partir de seus materiais, isto é, cada arte se serve de um analogon que lhe é próprio de acordo com o material com o qual trata, o que levou a colocar teatro junto a poesia e prosa, visto que estas três formas artísticas se servem de palavras como analogon. No entanto, como elas não se servem da palavra do mesmo modo, tem-se uma outra separação de acordo com o uso que se faz da palavra, o que levou a pôr, de um lado, poesia, a qual se serve das palavras como coisas (tal como o pintor se serve das cores), e de outro, prosa e teatro, os quais usam a palavra como significado, buscando com isso operar um desvendamento. É preciso entender mais especificamente o analogon teatral através da separação entre teatro e outras formas de arte com as quais ele compartilha algumas características.18
Todavia apesar do teatro e literatura possuir pontos em comum quanto ao uso da palavra é preciso esclarecer que o desvendamento operado nestas duas formas de arte não se processa do mesmo jeito. Nesse sentido Alves adverte que se “[...] se considera apenas o
16 SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? Tradução de Carlo Felipe Moisés. São Paulo: Ática, 2004, p.
52.
17 Ibid., p. 34.
18 ALVES, Igor Silva. O Teatro de Situações de Jean Paul Sartre. 2006. 120 f. Dissertação (Mestrado) –
texto teatral, este pode ser tratado de modo muito próximo à prosa. Mas, uma peça de teatro comporta outro elemento, o ator, e este não só se utiliza das palavras como também de si mesmo como analogon de um objeto irreal”.19
Nesse caso para que se opere o desvendamento no teatro é necessário que os autores durante a seleção dos temas de suas peças escolham as situações mais gerais possíveis, as quais sejam capazes de fascinar e impressionar o máximo possível os espectadores.
Diante disso uma questão salta aos nossos olhos: Quando podemos considerar a literatura de uma determinada época como alienada e caracterizar o escritor como engajado? Para o filósofo existencialista “[...] a literatura de uma determinada época é alienada quando não atingiu a consciência explicita da sua autonomia e se submete aos poderes temporais ou a uma ideologia, isto é, quando considera a sim mesma como meio e não como um fim incondicionado”.20 O escritor, por sua vez,
[...] é considerado engajado quando tratar de tomar a mais lúcida e integral consciência de ter embarcado, isto é, quando faz o engajamento passar, para si e para os outros, da espontaneidade imediata ao plano refletido. O escritor é mediador por excelência, e o seu engajamento é a mediação.21
No entanto antes de investigar as especificidades do “Teatro de Situações”, proposto por Sartre, é preciso, ainda que sucintamente, apontar as tematizações e associações que podem ser estabelecidas entre filosofia e dramaturgia no universo da obra teatral sartriana.
19 ALVES, Igor Silva. O Teatro de Situações de Jean Paul Sartre. 2006. 120 f. Dissertação (Mestrado) –
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006, f. 63.
20 SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? Tradução de Carlo Felipe Moisés. São Paulo: Ática, 2004, p.
34.