É justamente ‘nos lugares’ que não se consegue uma racionalidade inclusiva de todo o corpo social, na produção do espaço, nas grandes cidades, que os deuses renascem em sua maior dinâmica.
Isso ocorreria, seja por deficiência e limitações de alcance do processo de mais-valia, seja por ‘falha’ ou ‘lógica’ desse mesmo processo, expressa na miséria e exclusão que estruturam os espaços urbanos no Brasil, locais, atualmente, em grande parte, reencantados pelos ventos do pentecostalismo.
No entanto, essas novas expressões religiosas, que se estruturam no Brasil em meio à miséria material de suas cidades, dialogam com uma espécie de religião cívica representada
pelo Estado e pelo mercado, com suas respectivas lógicas de atuação99.
Ainda que se desejasse uma construção racionalizada do espaço da cidade, a partir de um processo de urbanização inclusivo, esse mesmo espaço urbano, socialmente produzido, ‘sacralizar-se-ia’ no momento seguinte à sua constituição.
Isso, de modo que as novas expressões religiosas reproduziriam uma lógica de uma religião cívica, desde que essas formas de religiosidade não contestem o espaço em que se reproduzem, referendando, portanto, do seu modo, o espaço da cidade em que se encontram.
Deve-se considerar, também, nesse sentido, que o próprio capitalismo é uma forma de reencantamento do mundo, em que o fetiche da mercadoria impera e impõe novas vertigens à mente, o que fica patente em uma análise da linguagem publicitária, a qual apresenta as mercadorias com ‘superpoderes’, através de personagens publicitários que possuem características fantásticas, praticamente divinas100.
Por outro lado, a cidade é lugar de manejo das massas, com formação arquitetônica para as mesmas marcada por uma forma de ‘pensamento único’, no que diz respeito às soluções urbanísticas propostas a partir de um processo de ‘planejamento estratégico de cidades’, que, na realidade, buscam homogeneizar no plano da cultura e mascarar conflitos
Nesse sentido, as expressões religiosas guardariam certa relação com a cultura de massas, a indústria cultural e a cidade (lugar de acomodação e controle das massas), de modo que as religiões urbanas transformariam o próprio espaço religioso em meio para suas
mediações, em termos materiais e simbólicos102.
Ou seja, os templos comunicariam às massas, e ao devoto em particular, algo dos interesses dos grupos hegemônicos, na religião e na cidade, a partir de uma realidade material e simbólica dos lugares de culto, expressa em sua própria arquitetura e significados no conjunto urbanístico da cidade.
Essas construções simbólicas da cidade e dos templos possuem sua ‘razão de ser’ na lógica de vida urbana, pois há, em toda expressão religiosa, seja erudita ou popular, um processo hermenêutico de produção de significados no sentido de uma interpretação/produção de uma realidade103.
Instituidoras de significados, as novas expressões religiosas vividas na cidade acabariam mais por reproduzir uma lógica estruturante do Estado e do capital, em detrimento de experiências que pudessem constituir novos espaços mais justos e sujeitos mais autônomos104.
Quando o ‘deus mercado’ e/ou o ‘deus estado’ falham em suas pretensas onipotências e onipresenças, outros deuses se estruturam, até mesmo em um contraponto, repleto de contradições e ambiguidades em relação a esses deuses hegemônicos, desde que buscam se adaptar a estes e a criar fiéis dóceis aos projetos hegemônicos do Estado e do mercado.
Nesse sentido, deve-se considerar que existem diversos territórios que compõem a realidade do espaço da cidade brasileira, com diversos status de cidadania que lhes
correspondem105, tendo também como correlatas determinadas construções teológicas que
acabam por confirmar e referendar parte das desigualdades afirmadas/constituídas através do espaço, da cidade e da religião.
Tais construções teológicas tecem pontes entre territórios fragmentados, mas mantém
as formas segregadas das cidades, daí parte de suas contradições e ambiguidades, na produção social do espaço e da cidadania no Brasil, incapacitando-as em lançar sementes de um novo mundo mais justo e adequado à vida.
A fragmentação, em inúmeras expressões teológicas populares, a partir das experiências urbanas, de certo modo, expressaria essa própria fragmentação do espaço urbano
que compõe as cidades brasileiras na atualidade106.
Ou seja, para cada fragmento da cidade, haveria um fragmento de religião que lhe
corresponderia, e, de certo modo, um referendaria ao outro, criando um absurdo, que é ‘uma
comunhão/comunidade fragmentada da fé’, por isso, em si, contraditória e ambígua, expressão dos nexos entre religião, espaço e cidadania na contemporaneidade.
Do seu modo, as religiões se inscrevem nessa dinâmica de produção de novos significados no espaço urbano, material e simbolicamente, de modo contraditório e ambíguo, pois não há uma transformação da ordem hegemônica instituída nesse espaço.
Há, portanto, uma lógica socioespacial que se expressa através de simbolismos religiosos, nas diversas experiências urbanas nas metrópoles brasileiras, mas que contribui para a construção de um espaço urbano fragmentado e marcado por uma crise dos espaços públicos.
As organizações religiosas fundariam ‘espaços coletivos privados’, que não teriam como meta a restituição das funções dos espaços públicos, sobretudo naquilo que têm de político, ao amplo debate e à participação no governo da cidade, ou seja, à expressão de uma cidadania ativa.
A cidade moderna inverteria as relações históricas entre espaço e religião, na medida em que a cidade se institui de modo dessacralizado e racional, de forma que ‘o sagrado’ passaria a se instituir a partir do espaço urbano, na forma de novas teogonias, ocorrendo o oposto do que tradicionalmente se deu na formação das cidades brasileiras, em que se fundava o espaço urbano a partir do religioso107.
Nessa recriação simbólica, haveria, portanto, um movimento de resistência e de conformismo por parte dos dominados, uma vez que, mesmo havendo uma ‘união entre os fiéis’, estes não partem para um enfrentamento ‘da desunião da cidade’, no sentido de transformá-la a partir de uma prática de vida cotidiana verdadeiramente inclusiva e participativa.
Ainda que haja alguma contestação no plano simbólico, não haveria uma proposta de solução para a problemática urbana, que se desse fora da própria lógica do tempo-espaço da cidade, uma vez que essa realidade continua servindo de elemento estruturante das expressões religiosas, e, dialeticamente e de modo contraditório e ambíguo, as construções teológicas populares também atuariam ativamente na construção e reconstrução do urbano, reafirmando suas estruturas de poderes hegemônicos excludentes e fragmentários.
Desse modo, pode-se considerar que, ainda que todo esse processo de construção social da realidade se dê de forma inconsciente, haveria uma busca de (re)inserção social e política na cidade, sem que se vise à sua transformação.
As religiões poderiam trazer novos significados aos espaços da cidade, (re)tecendo relações entre as pessoas e grupos sociais, fragilizados no processo de modernização da sociedade brasileira, propondo, ainda que em um horizonte utópico, uma nova cidade.
No entanto, as práticas sociais continuariam a ser um elemento de captação dos desejos e das forças que promovem o poder do Estado e do mercado, sem necessariamente transformá-los em favor da vida e da liberdade.