4 RESULTS
4.3 POCKMARKS
4.3.1 MORPHOLOGICAL CHANGES
Com o intuito de controlar e fiscalizar o trânsito de pessoas, mercadorias e animais entre as capitanias, a Coroa oficializou as vias que poderiam ser utilizadas. Esses acessos abrangem as estradas que ficaram conhecidas como Caminho Velho, Caminho Novo, Caminho dos Diamantes e Caminho dos Currais do São Francisco e, para fins didáticos deste trabalho, serão denominados Estrada Real, por integrarem um projeto de iniciativa do governo do Estado de Minas Gerais. A autorização para circulação somente por esses percursos visava, também, coibir o contrabando dos metais preciosos. Essas estradas possibilitavam as seguintes conexões:
• Caminho Velho: Minas Gerais – São Paulo de Piratininga e São Sebastião do Rio de Janeiro.
• Caminho dos Currais do São Francisco: Minas Gerais – Bahia. • Caminho Novo: Minas Gerais – Rio de Janeiro.
• Caminho do Mato Dentro: Vila Rica – Distrito Diamantino.
O desenvolvimento do arraial do Curral Del Rei se processou a partir da interseção de três acessos – Caminho Velho, Caminho Novo e Caminho dos Diamantes (Caminho do Mato Dentro). Estes caminhos são analisados devido à sua relevância para a formação do arraial. Posteriormente, verificou-se que o traçado da Nova Capital (Belo Horizonte) foi planejado segundo o arruamento do núcleo existente que, por sua vez, tinha relação com os vetores de direção desses caminhos.
Até 1720, Minas Gerais e São Paulo formavam uma só Capitania, o que sugere que o Caminho Velho tenha sido a primeira estrada ligando os núcleos constituídos a partir da atividade agrícola, da pecuária e da mineração, tanto pela necessidade de comercialização do produto principal, quanto para a negociação de gêneros alimentícios, necessários à subsistência daqueles centros. Como a exploração do ouro era feita em minas de aluvião, a exaustão da mina fazia com que a economia de toda a região entrasse em colapso. Entretanto, a manutenção das cidades absorvia muito mais mão-de-obra do que a própria mineração, o que, de certa forma, assegurava a permanência de pequenos núcleos urbanos, ainda que com menor opulência econômica, quando a mineração já não era a atividade principal. Formando com São Paulo uma única Capitania, era mais natural que surgissem, inicialmente, caminhos e conexões entre seus centros econômicos. Assim, o Caminho Velho conectava Ouro Preto e esses centros de Minas Gerais ao Porto de Santos, no litoral de São Paulo. Essa era uma ligação importante, pois as economias mineira e paulista estiveram interligadas pela cultura
do café que escoava por aquele porto. Ouro Preto permaneceu como sede político- administrativa da capitania até que Minas Gerais fosse desmembrada de São Paulo, em 1720.
O Caminho Novo, vetor de direção sudeste, conecta Ouro Preto, principal centro econômico do ciclo da mineração, ao Rio de Janeiro, em cujo porto eram comercializadas as mercadorias importadas que garantiriam a estabilidade das cidades. O vetor norte da Estrada Real, a Rota dos Diamantes, conecta Ouro Preto ao Distrito Diamantino, sendo conhecido como Caminho do Mato Dentro ou Caminho do Serro Frio e do Tejuco. Starling (2004, p. 32) esclarece que: “Saindo por Sabará e passando por Nossa Senhora da Conceição do Mato Dentro, ou saindo por Vila Rica e atravessando a Serra do Caraça, entre Catas Altas e Santa Bárbara, existiu mais uma boca de Minas.” Esse último caminho de Minas “guiou-se pelo conjunto de serras que formam o maciço do Espinhaço para ligar Vila Rica à única região da área mineradora capaz de produzir diamantes [...]” (STARLING, 2004, p. 32).
A Figura 4 apresenta detalhe da planta cadastral desse arraial, onde se observa o vale do ribeirão dos Arrudas, na parte superior da ilustração, e as ruas que se assentam sobre as curvas de nível do terreno convergindo para o Largo da Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem, centro do núcleo urbano do Curral del Rei. Esboça, ainda, a comparação da rota das ruas do arraial do Curral del Rei e dos caminhos verificados na ilustração da Estrada Real que insinua a Rua de Sabará como ponto de ligação a Sabarabuçu. A Rua Congonhas seria a conexão entre Belo Horizonte, Ouro Preto e Rio de Janeiro (Caminho Novo). Já o vetor Norte da Rua General Deodoro promoveria a chegada a Diamantina (Caminho dos Diamantes) e o vetor Sul, representado pela Rua do Capão levaria ao Sul de Minas Gerais e às cidades do interior de São Paulo, e tinha Parati (Caminho Velho) como centro de referência.
Entretanto, as regiões que compunham o arraial foram aos poucos se desenvolvendo, separando-se e provocando o início de uma etapa prejudicial ao desenvolvimento da região: a falência econômica. A essa altura, a população do arraial toma conhecimento da notícia da instalação de uma nova capital, a ser erigida justamente no território por ela ocupado. Seria uma cidade moderna, planejada, com finalidades preestabelecidas, dentro de um plano objetivo. Entretanto, as comemorações da novidade cederam lugar à decepção dos habitantes que, desapropriados, tiveram que se deslocar para Venda Nova ou para a zona rural prevista no plano da Comissão Construtora da Capital.
FIGURA 4: Detalhe da planta cadastral arraial do Curral del Rei, da Comissão Construtora, 1894, com indicação dos vetores de ligação do arraial com os centros de
importância da época.
Fonte: Fundação João Pinheiro (1997, p. 21).
As figuras 5 a 10 evidenciam o local onde seria implantado o centro administrativo da Nova Capital – o Alto da Boa Vista, região de destaque na topografia da cidade, enfatizando a ascendência do poder político sobre o poder religioso que imperava no Brasil àquela época. No arraial do Curral del Rei, o Largo da Matriz, era ponto de convergência de três estradas, o centro comercial, administrativo e político do Curral del Rei.
FIGURA 5: Panorama de Belo Horizonte, s.d.
Fonte: Barreto (1996a, p. 273).
FIGURA 6: Largo da Matriz da Boa Viagem, s.d.
Fonte: Barreto (1996a, p. 249).
FIGURA 7: Rua de Sabará nas
proximidades do Largo da Matriz, s.d.
Fonte: Barreto (1996b, p. 392).
FIGURA 8: Rua Marechal Deodoro; ao fundo, a matriz, s.d.
FONTE: Barreto 1996b, p. 373).
FIGURA 9: Sobrado em que se instalou a Comissão Construtora, na Rua Marechal Deodoro, s.d.
Fonte: Barreto (1996b, p. 30).
FIGURA 10: Rua do Capão, s.d.
FIGURA 11: Mapa da Estrada Real e as cidades componentes dos percursos.
Fonte: Mitra (2008).
A Figura 11 apresenta os trajetos do Caminho Velho, do Caminho Novo e do Caminho dos Diamantes. Destaca as cidades formadoras dessas rotas, situa Minas Gerais em relação aos estados vizinhos e localiza a Estrada Real no contexto do estado de Minas Gerais. O desenho ampliado da Estrada Real aponta as cidades que compõem as rotas, e reafirma os vetores direcionais das conexões entre elas e o arraial do Curral del Rei. Tais ligações se faziam necessárias ao intercâmbio comercial local. A linha cinza, limite de cada estado, evidencia que a Estrada Real se desenvolve quase que totalmente no estado de Minas Gerais,
mas conecta Ouro Preto aos centros de importância econômica, política e cultural da época – Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Os trechos que percorrem as terras de São Paulo e do Rio de Janeiro limitam-se apenas às interligações entre as cidades de Minas e os portos marítimos, importantes centros econômicos para recebimento de mercadorias importadas, vindas da Colônia, e escoamento das riquezas representadas pelos metais e pedras preciosas, extraídas das minas.
O enfraquecimento da atividade mineradora no século XVIII, devido ao perecimento das jazidas, redirecionou a mão-de-obra à lavoura e à pecuária, e a seguir à tecelagem e à metalurgia. O crescimento dessas atividades acelerou o crescimento demográfico e a ocupação descontínua e desorganizada da capitania, caracterizando-a por diversas áreas econômicas independentes atreladas a um centro administrativo comum (SINGER, 1977 apud FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1997, p. 204-205).
Na Figura 12, tem-se uma vista de Belo Horizonte, antigo arraial do Curral del Rei, no ano de 1894. A fotografia foi tirada em um local acima da atual Avenida Brasil e nela podemos ver o arraial praticamente intacto, destacando-se a antiga Matriz da Boa Viagem, a Capela do Rosário e a Capela de Santana, demolida em 1894 e que ficava nas proximidades da Praça da Liberdade.
FIGURA 12: Vista de Belo Horizonte em 1894.
A Figura 13 apresenta uma vista da Rua do Capão, no arraial do Curral del Rei, com vista parcial da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem e da Serra do Curral.
FIGURA 13: Vista da Rua do Capão no arraial do Curral del Rei.
Fonte: Acervo do Museu Abílio Barreto (Comissão Construtora da Nova Capital).