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Desde o início do mestrado e em cada fase dessa dissertação, a pesquisa-participante foi se tornando, cada vez mais, um referencial teórico de extrema importância. Fiz essa escolha (precoce) porque considerei ser essa a metodologia ideal para se trabalhar com educação ambiental em uma comunidade como a do Córrego do Palha, que eu pouco conhecia inicialmente. Posteriormente percebi que a escolha da metodologia deve ser realizada com mais cautela. Segundo Luna (1994), este é um erro metodológico muito comum já que “por uma razão ainda não muito clara para mim, a técnica de pesquisa, o procedimento, assume entre alguns pesquisadores (especialmente, mas não exclusivamente entre os iniciantes) uma autonomia que não encontra nenhuma justificativa.(...) O ponto em questão é que nenhuma técnica pode ser escolhida a priori, antes da clara formulação do problema, a menos que a própria técnica seja o objeto de estudo (...). Fazê-lo significa atribuir à técnica um poder que ela não tem e a tendência pode ser atribuída ao modismo.” (p. 29-30).
Mas, apesar da pesquisa participante ter se demonstrado uma alternativa acertada durante o desenvolvimento do trabalho, hoje sei que o caminho da escolha da metodologia precisa ser diferente, principalmente quando se trata de metodologias participativas, onde há a necessidade de saber se os outros que consideramos que possam ser participantes ativos da pesquisa realmente querem participar.
Depois de feita essa observação, volto à questão da pesquisa participante. Iniciei os trabalhos de campo convicta de que o meu principal referencial teórico-metodológico era a pesquisa- ação proposta por René Barbier (2002), referência importante do projeto “Água como matriz ecopedagógica” (Catalão e Rodrigues, 2003). Porém, com o andamento da pesquisa, surgiram dúvidas em relação à correta compreensão e real aplicabilidade dessa abordagem, o que me fez buscar mais a fundo as suas definições e usos. Foi nesse momento que descobri a pesquisa participante (PP), principalmente através das obras de Carlos Rodrigues Brandão (1981; 1999b; 2005) e Pedro Demo (1999; 2004), e optei por ela como principal referencial teórico.
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A pesquisa participante6 é uma maneira relativamente nova de produzir conhecimentos e, segundo Brandão (1981),“é preciso reconhecer que há muito mais procuras, ensaios e perguntas do que respostas” (p.09). A sua origem conceitual e metodológica se dá entre as décadas de 60 e 80 na América Latina (Brandão, 2005), onde foi construída uma proposta diferenciada de pesquisa que reunia as bases de uma educação popular com forte conotação sócio-política7 e os princípios de uma sociologia embasada no conceito de investigação-ação8 (Gajardo, 1999). As bases teóricas e metodológicas necessárias ao desenvolvimento da PP também chegaram da Europa e dos Estados Unidos (Brandão, 2005).
As primeiras experiências foram colocadas em prática dentro de movimentos sociais populares, e tinham forte compromisso com ações sociais de cunho popular (Brandão, 2005). Mas embora a PP tenha surgido, sobretudo, na esfera da educação, hoje ela se tornou referência para processos emancipatórios em geral (Demo, 2004). Brandão (2005) concorda com essa abertura da PP a outros campos de ação social, e pontua que “um dos campos onde com mais criatividade, multiplicam-se experiências de investigações participativas associadas a alguma forma de ação comunitária, é o das ações ambientais” (p.265).
Como a construção do arcabouço da pesquisa participante foi muito rica em termos de influências e fundamentos, era de se esperar que uma grande diversidade de propostas emergisse desse “caldeirão”. Hoje não é mais possível reconhecer uma tendência única ou dominante de PP a nível teórico, metodológico ou em relação ao seu horizonte de ação (Brandão, 2005). Gajardo (1999) também reconhece que existem tradições de pensamentos distintas e práticas de pesquisa diversas reunidas sob a designação comum de pesquisa
6 O termo pesquisa participante é bastante plural nas suas definições. Há autores que consideram que a PP pode ser sinônimo de pesquisa participativa, investigação ação participativa, auto-diagnóstico, pesquisa-ação ou investigação participativa. O mesmo acontece com o termo pesquisa-ação, muitas vezes substituído por investigação-ação educacional, investigação-ação emancipatória ou pesquisa-ação participante ou ainda qualificado de acordo com suas principais características (existencial, integral, pessoal e comunitária). Porém, há muitas controvérsias em relação à nomenclatura e definição dessa grande e nebulosa “categoria” de pesquisa. A definição de pesquisa participante que será adotada nesse trabalho é a de Demo (2004) que considera que a “pesquisa participante produz conhecimento politicamente engajado. Não despreza metodologia científica em nenhum momento no sentido dos rigores metódicos, controle intersubjetivo, discutibilidade aberta e irrestrita, mas acrescenta o compromisso com mudanças concretas, em particular voltadas para os marginalizados” (p. 08).
7 Essa proposta foi fortemente baseada nas experiências desenvolvidas inicialmente por Paulo Freire e sua equipe a partir do final da década de 60 e posteriormente por João Bosco Pinto na década de 70, que propuseram um estilo alternativo de pesquisa e ação educativa fundamentado na participação e ação organizada (Gajardo, 1999). 8 A pesquisa participante também nasce como crítica à pesquisa científica tradicional, principalmente a empírica (Demo, 2004). Desse modo, o conceito de investigação-ação surgiu dentro do campo da sociologia como crítica aos paradigmas predominantes nas ciências sociais, propondo caminhos alternativos de ação e pesquisa. O sociólogo colombiano Orlando Fals Borda é a principal referência desse tipo de proposta (Gajardo, 1999).
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participante. Porém, a mesma autora admite que é possível reconhecer alguns traços comuns nessas diferentes alternativas.
Hall (1981 apud Demo, 1999:121-122), em uma tentativa de elencar as principais características desse tipo de pesquisa, identifica sete características que sintetizam os principais fundamentos da PP. Abaixo estão transcritos esses princípios convergentes, complementados de comentários de diferentes autores que também fizeram reflexões sobre os marcos comuns desse tipo de pesquisa:
a) “O problema se origina na comunidade ou no próprio local de trabalho”
A pesquisa participante deve ser baseada na realidade concreta da vida cotidiana dos participantes do seu processo (Brandão, 2005; Gajardo, 1999) e o seu ponto de origem deve estar, portanto, situado na totalidade daquela realidade social (Brandão, 2005). A seleção dos problemas a serem estudados emerge da população envolvida, que pode ser auxiliada pelos pesquisadores acadêmicos convidados a participar (Le Boterf, 1999).
b) “A finalidade última da pesquisa é a transformação estrutural fundamental e a melhoria de vida dos envolvidos. Os beneficiários são os trabalhadores ou povo atingido”
A pesquisa participante sempre teve na ação seu ponto forte já que as comunidades não precisam apenas estudar seus problemas, mas, sobretudo resolvê-los (Demo, 2004). Assim, o processo e os resultados da PP interferem nas práticas sociais dos grupos envolvidos (Brandão, 2005) através do desenvolvimento de ações que gerem benefícios coletivos ou propostas concretas de ação (Gajardo, 1999). Desse modo, a “investigação, a educação e a ação social convertem-se em momentos metodológicos de um único processo dirigido à transformação social” (Brandão, 2005:263).
c) “A PP envolve o povo no local de trabalho ou a comunidade no controle do processo inteiro de pesquisa”
A participação comunitária deve ocorrer de maneira crescente durante todo o processo de investigação-educação-ação (Brandão, 2005), porém é válido que a participação dos diferentes atores seja culturalmente diferenciada (cada um tem um papel ou tarefa
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diferenciada (Brandão, 1981)), mas social e politicamente igualada (Brandão, 2005). Sobre esse tema, Demo (1999; 2004) alerta que muitas vezes há muito menos participação do que vontade de fazê-la, e que a PP deve se preocupar até que ponto é pesquisa e até que ponto é participação.
d) “A ênfase da PP está no trabalho com uma larga camada de grupos explorados ou oprimidos: migrantes, trabalhadores, populações indígenas, mulheres”
Na maior parte dos casos a pesquisa participante pode ser considerada “um momento de trabalhos de educação popular realizado junto com e a serviço de comunidades, grupos e movimentos sociais, em geral, populares” (Brandão, 2005:263). Gajardo (1999) também concorda que a opção por trabalhar com grupos mais relegados da sociedade faz parte desse tipo de proposta.
e) “É central para a PP o papel do esforço à conscientização no povo de suas próprias habilidades e recursos, e o apoio à mobilização e organização”
O propósito de ações embasadas na PP é dar autonomia aos seus envolvidos no que se refere à gestão do conhecimento e das ações que são conseqüências dele (Brandão, 2005), principalmente através da sua “influência libertadora” (Demo, 2004: 13). A transformação de saberes, de sensibilidades e de motivações produzida durante a PP deve acontecer em prol da transformação da sociedade no sentido mais amplo (Brandão, 2005). Esse tipo de pesquisa permite aos envolvidos que, a partir de sua própria prática, conheçam a sua realidade, participem da produção desse conhecimento e tomem posse dele (Brandão, 1981).
f) “O termo“pesquisador” pode referir-se tanto à comunidade ou às pessoas envolvidas no local de trabalho, como àqueles com treinamento especializado”
Esse é um ponto-chave, pois significa uma mudança na relação tradicional de pesquisa onde as relações se dão entre sujeitos (investigadores ou educadores) e objetos (grupos pesquisados). Na PP busca-se a construção de uma relação do tipo sujeito-sujeito, já que é a partir da interação entre esses atores e entre os seus conhecimentos que um novo saber é construído em parceria (Brandão, 2005), ou seja, ambos pesquisadores e pesquisados são sujeitos de um trabalho comum (Brandão 1981) que interagem através de relações horizontais e anti-autoritárias (Gajardo, 1999). Por isso, nesse tipo de pesquisa, não há lugar
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para um pesquisador separado de seu objeto de pesquisa, já que esse cientista é também uma pessoa com uma certa inserção social e com uma experiência de vida que determinam a intencionalidade de seus atos e a natureza da própria pesquisa. Assim, o pesquisador, ao transformar a realidade, pode inclusive sofrer as conseqüências das suas próprias ações (Oliveira e Oliveira, 1981).
g) “Embora aqueles com saber/treinamento especializado muitas vezes provenham de fora da situação, são participantes comprometidos e aprendizes num processo que conduz mais à militância do que ao distanciamento”
Nesse tipo de pesquisa existe um compromisso assumido de presença e de participação do investigador com as pessoas e com as suas causas, mesmo quando o trabalho é provisório e de curta duração (Brandão, 2005). A participação do cientista, nesse caso, não inclui apenas a realização de atividades para conhecer melhor aqueles que são pesquisados ou o contexto em que se inserem. Ela determina também um compromisso do projeto de pesquisa ao projeto político do grupo pesquisado (Brandão, 1981). Só se conhece a fundo algo da vida da sociedade através do envolvimento, e em alguns momentos, do comprometimento pessoal entre o pesquisador e aquilo que ele está investigando (Brandão, 1999a). A ilusão da neutralidade científica e da distância necessária entre quem estuda e quem é estudado cientificamente cai por terra em investigações vinculadas a projetos de ação social (Brandão, 2005). Na PP o pesquisador-cientista assume então uma dupla postura: a de observador crítico e a de participante ativo (Oliveira e Oliveira, 1981).
Da mesma maneira que os “tipos” de PP são muitos, também há muita variação entre os modelos propostos para o seu desenvolvimento (Brandão, 2005), modelos estes que devem ser sempre adaptados às condições específicas de uma situação concreta (Le Boterf, 1999).
A estrutura de pesquisa participante que apresentarei a seguir (Quadro 3.1; Figura 3.1) norteou essa pesquisa específica e é baseada na proposta de Le Boterf (1999) onde a PP se desenvolve em quatro fases que sempre envolvem momentos de retroalimentação. Mas, ao mesmo tempo em que não se pode banalizar a preocupação com o rigor metodológico, o método não pode ser visto como uma “camisa de força” (Demo, 2004:125). Por isso cabe ressaltar aqui que o conteúdo de cada uma das fases do projeto foi se estruturando pouco a pouco, com o desenvolvimento da pesquisa. Desse modo, esse quadro só pôde ser
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sistematizado no final desse processo, mas é de grande valor para o entendimento de cada uma das suas etapas.
Quadro 3.1. Sistematização das quatro fases dessa pesquisa participante conforme modelo proposto por Le Boterf (1999).
1ª fase: “Montagem institucional e metodológica da pesquisa participante”
Nessa etapa da pesquisa conheci e me aproximei da comunidade do Palha, dando início ao processo de participação da vida comunitária. Também nessa primeira fase, nós (a equipe de pesquisadores da UnB e a organização representativa da comunidade) realizamos em quatro visitas ao campo, as seguintes atividades:
• Discussão do projeto de pesquisa (problemas, objetivos e métodos) • Delimitação da área e população de estudo
• Organização do processo de pesquisa participante
• Seleção e treinamento dos auxiliares de pesquisa (pesquisadores comunitários)
2ª fase: “Estudo preliminar e provisório da região e da população envolvidas”
Nessa segunda fase realizamos o diagnóstico socioambiental da comunidade em aproximadamente 25 idas ao campo. Normalmente esse tipo de levantamento é bastante preliminar, porém decidimos pelo seu aprofundamento devido à escassez de dados científicos sobre a região e população estudada. Os resultados obtidos nessa fase foram discutidos (feedback) com a população envolvida (por intermédio da sua associação de moradores), como sugere Le Boterf (1999). Essa etapa da pesquisa será descrita na seção IV desta dissertação.
3ª fase: “Análise crítica dos problemas que a população considera prioritários e que seus membros desejam estudar e resolver”
Nessa fase alguns dos problemas identificados na fase anterior foram analisados de maneira crítica por um “grupo de estudo” em cerca de 18 idas ao campo. Esse grupo foi formado pelas educadoras do Centro Comunitário, que se debruçaram sobre as questões relativas à educação e meio ambiente na vida cotidiana da comunidade. Esse trabalho culminou na elaboração de um projeto de educação ambiental (também pode ser chamado de plano de ação) que foi
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apresentado à comunidade como feedback do trabalho desenvolvido nesse momento. Essa etapa da pesquisa será detalhada na seção V.
4ª fase: “Programação e Aplicação de um plano de ação que contribua para os problemas encontrados”
Nessa fase final o plano de ação (projeto de EA, neste caso) elaborado na etapa anterior foi posto em prática pela população envolvida em aproximadamente 10 idas ao campo. A discussão e avaliação desse momento da ação constituíram o feedback dessa fase. Na seção VI esse momento de ação comunitária será mais explorado.
Brandão (2005) e Le Boterf (1999) nos lembram que o processo da PP não termina na sua fase final já que as ações baseadas na leitura e problematização da realidade conduzem à descoberta de outras necessidades e dimensões da realidade. Assim, o diagnóstico, a análise crítica e a ação “constituem três momentos de um processo permanente de estudo, de reflexão e de transformação da realidade, os quais se nutrem mutuamente” (p. 68).
29 IV. Descobrindo a comunidade do Palha:
um mergulho na sua realidade a partir do diagnóstico socioambiental
FASE 2
Estudo preliminar e provisório da região e população envolvidas