Um discurso é uma maneira particular de representar o mundo (RAMALHO E RESENDE,
2011, p. 17). Por ser a representação de uma perspectiva particular de compreensão, um discurso carrega em si elementos que distinguem o grupo social a que se vincula e pode revelar os interesses específicos a que se presta. A análise da interdiscursividade identifica os discursos que se articulam no texto, a maneira como são apresentados e como eles se relacionam com outros discursos presentes no texto, revelando o significado representacional do discurso em um texto.
Normalmente, mais de um discurso são articulados na composição de um texto. Vaçe realçar que um mesmo tema pode ser representado por diferentes discursos.
Segundo Lewis e Ketter (2004, p. 117), o termo interdiscursividade designa a presença ou traço de um discurso dentro de outro, articulando discursos pré-existentes. A autora e o autor esclarecem que a interdiscursividade é um processo de criação de discurso no qual um ator se apropria e reconstrói discursos que são articulados no campo social. Não se trata, portanto, de uma mera recapitulação, repetição ou referência a outra voz, mas da
incorporação de discursos pré-existentes no texto que está sendo gerado, com potencial para transformação dos discursos aí apropriados.
A análise da interdiscursividade ajuda a elucidar elementos importantes que caracterizam o discurso representado, tais como a relação de força entre os atores e as ideologias (RAMALHO E RESENDE, 2011, p. 142). A análise discursiva textualmente orientada oferece elementos que descortinam as crenças, os valores, os conhecimentos, as atitudes, as relações sociais e as ideologias características dos discursos articulados no texto. A discussão sobre a geopolítica do desenvolvimento sustentável se dá em um campo social que abarca atores sociais diversos com interesses diferentes, ora díspares, ora convergentes. Por meio da análise da interdiscursividade, verifica-se como os discursos materializados no documento final da Rio+20 representam os temas identificados nos pronunciamentos dos Major Groups, revelando a inclusão e a relevância concedida a suas reivindicações e seus interesses e, assim, refletindo a posição desses atores no campo social.
2.1.2
Intertextualidade
A intertextualidade é outra categoria analítica da ADC aplicada neste trabalho para a análise do texto “O futuro que queremos”. Para Fairclough (2012, p. 311), “a interdiscursividade de um texto é parte de sua intertextualidade”. É importante realçar, entretanto, que na intertextualidade deve ser possível identificar a referência a textos específicos, e não às ideias ou discursos veiculados em outros textos, como é o caso quando se trata da interdiscursividade. A articulação entre as duas categorias se deve ao fato de que as referências a outros textos sempre aportam a articulação de discursos particulares.
“A presença, ou ausência, de vozes em textos bem como a maneira como são articuladas (...) apontam para sua importância na legitimação, naturalização ou mesmo na superação de relações assimétricas de poder” (SILVA E RAMALHO, 2008, p. 34). A intertextualidade é uma categoria analítica do significado acional do discurso. A análise acional captura aspectos do próprio texto para revelar elementos do campo social em que ele se enquadra e que por meio dele se modifica. A intertextualidade pode ser analisada por meio das referências, implícitas ou explícitas, a outros textos pré-existentes.
Para Bakthin (1997 apud RAMALHO E RESENDE, 2011, p. 133), a intertextualidade trata da “propriedade que têm os textos de estar cheio de fragmentos de outros textos”. A intertextualidade reflete a posição dos atores no campo social, uma vez que a ausência, a presença e a articulação de outros textos sinalizam o posicionamento dos atores sociais em lutas hegemônicas (RAMALHO E RESENDE, 2011, p. 133). A análise da intertextualidade e da
interdiscursividade aplicada ao texto “O futuro que queremos” buscou revelar as relações de poder que favorecem o protagonismo de algumas propostas e de alguns atores nesse campo social, ao mesmo tempo em que condicionam a construção do significado e das práticas de desenvolvimento sustentável.
2.1.3
Coesão
A coesão do texto trata das relações lógico-semânticas estabelecidas entre as orações (RAMALHO E RESENDE, 2011). Marinho (1999, p. 163) explica que a coesão se constrói pelo uso de conectores, pela concordância e pela correlação entre tempos verbais e itens lexicais, por mecanismos gramaticais e lexicais que reiteram, substituem, associam ou atenuam a concatenação das ideias ao longo do texto.
A análise dessa categoria discursiva permitiu identificar estratégias de reforço, de vinculação e atenuação entre as ideias representadas no texto final da Rio+20. Pela análise da coesão foi possível verificar, também, contradições e rupturas de coesão, que revelaram o uso de frases “vazias” de sentido no texto, isto é, a representação de ideias que não se relacionam com as demais ideias expressas no texto e que não se prestam a modificar ou elaborar o significado amplo do que está sendo comunicado.
Outro aspecto importante da análise de coesão refere-se ao papel da ordenação dos enunciados. Neste trabalho, a ordenação de palavras, particularmente nas enumerações que se apresentam no texto, se prestou para revelar as relações de sentido e a escala de importância concernentes às ideias elencadas no texto.
2.1.4
Funções da fala
Ramalho (2007b, p. 2008) explica que “a análise das funções da fala permite mapear os propósitos de textos”. Assumindo que todo texto é dialógico, uma vez que se encerra na prática da comunicação, todo texto presume trocas sociais. Para Fairclough (2003, p. 107- 108), os principais tipos de trocas que orientam o processo de comunicação são as trocas de informações e/ou as trocas de atividades. O autor vincula as trocas de informações às ações de comunicação propriamente ditas que objetivam a compreensão mútua ou a informação. Já a troca de atividades relaciona-se às ações estratégicas dos atores sociais, as quais almejam resultados não-textuais, ou seja, a realização de alguma ação que vai além do “dizer alguma coisa”.
Essas trocas caracterizam fundamentalmente as funções da fala. O autor distingue quatro funções primárias da fala, quais sejam: demandar, oferecer, perguntar e afirmar. Tais funções normalmente se vinculam ao tipo de troca que se intenciona na comunicação. Silva e Ramalho (2008, p. 35) esclarecem que “trocas de conhecimento/informação têm
“afirmações” e “perguntas” como funções discursivas primárias. (...) Por outro lado, trocas de atividade têm “ofertas” e “demandas” como funções discursivas primárias”.
Fairclough (2003, p. 108-109) explica que essas funções genéricas podem ser elaboradas e esmiuçadas em diferentes tipos mais específicos. “Assim, a oferta, por exemplo, pode incluir promessas, ameaças, pedidos de desculpas e agradecimentos, e a demanda pode incluir a ordem, o apelo, a súplica, e assim por diante”.
No contexto da Rio+20, observou-se a expectativa de que os pronunciamentos e os documentos pudessem incitar medidas e atividades de incremento do desenvolvimento sustentável. As funções de fala ligadas às trocas de atividades, portanto, se mostraram relevantes para a análise neste trabalho. Distinguimos quatro tipos específicos de função de fala derivadas das funções genéricas proposta por Fairclough (2003, p. 108-109), quais sejam: a legitimação e a oferta, que derivam da função “oferta”; e as funções reivindicação e crítica que derivam da função “demanda”. As características que definem essas funções de fala serão discutidas adiante.
Neste trabalho, as funções da fala foram analisadas tanto nos textos dos Major Groups quanto no texto da Rio+20, com vista a identificar os propósitos aos quais se ligam os discursos representados nos textos em análise.
2.1.5
Pressuposição
Conforme explicam Ramalho e Resende (2011, p. 174), as pressuposições são proposições implícitas ao texto que, ao serem tomadas como verdades, afastam questionamentos. Pressuposições estão relacionadas com significados compartilhados pelos participantes do processo de comunicação. De fato, todas as formas de comunicação social presumem significados compartilhados para que os participantes possam se compreender. No entanto, a capacidade de algum grupo ou ator social moldar os significados e os conteúdos do que está sendo dito vincula pressuposições a ideologia e a hegemonia. Fairclough (2003, p. 58) argumenta que significados pressupostos se associam a discursos particulares e que carregam em si um forte componente ideológico. Segundo o autor, a luta hegemônica se traduz na tentativa de se universalizar significados particulares que se prestam à manutenção das relações de poder.
Fairclough (2003, p. 55) distingue três principais tipos de pressupostos: a) as pressuposições existenciais, que assumem que algo existe ou que seja verdadeiro; b) as pressuposições proposicionais, que assumem como as coisas são ou podem ser; e c) as pressuposições de valor (ou pressuposições valorativas), que distinguem entre o que é bom (ou desejável) ou ruim.
Pela análise das pressuposições que se articulam no texto “O futuro que queremos”, busca-se evidenciar os valores e as perspectivas característicos dos discursos que se articulam no texto e, ainda, revelar o discurso hegemônico que ali se representa.
2.1.6
Processos de transitividade
Segundo Halliday (2004, p. 170), os elementos verbais são componentes com especial força no texto. Eles denotam o fluxo de eventos, que conecta “quem fez o que a quem e em que circunstâncias” (GOUVEIA, 2009, p. 30). Na LSF, tais elementos verbais são denominados processos, e o sistema gramatical por meio do qual as informações ligadas aos processos se organizam e são estudadas é denominado transitividade.
Halliday (2004, p. 170-174) classifica os processos em um sistema de transitividade apresentado por uma tipologia com seis categorias. Nesse sistema, cada categoria caracteriza um tipo de experiência ou evento representado no texto por meio de elementos verbais. Os processos materiais representam ações objetivas sobre a realidade (exemplo: a máquina produz peças plásticas). Já os processos relacionados a experiências subjetivas do universo interno ou da consciência humana são classificados de processos mentais (exemplo: a máquina fascina os seres humanos). O processo relacional abarca as ações de classificação, identificação, significação ou simbolização (exemplo: cada peça produzida é mais lixo na superfície). Além desses três tipos de processos, considerados pelo autor como processos primários ou principais, há os processos secundários, que são tipos intermediários entre os processos principais. O autor explica que os processos secundários compartilham algumas características dos processos principais adjacentes (HALLIDAY, 2004, p. 171). Assim, na fronteira entre o processo material e o processo mental estaria o processo comportamental, que representa a manifestação externa de processos internos (exemplos: eles sorriem;). Na fronteira entre os tipos mental e relacional está o processo verbal, que representa relações simbólicas construídas no mundo interno e expressas por meio da linguagem (exemplo: reafirmamos que a máquina reduz a poluição). E na fronteira entre o tipo relacional e o tipo material encontra-se o processo existencial, que exprime fenômenos do ser / existir / acontecer (exemplo: existem peças defeituosas). Os processos de transitividade estão representados na Figura 13. As cores que identificam os tipos de processos (cores primárias e cores secundárias) representam as relações que se estabelecem entre eles. Os três tipos de processos principais são representados pelas cores primárias, sejam: processo material (em vermelho), processo mental (em azul) e processo relacional (em amarelo). Já os três tipos secundários de processos, que reúnem características de seus tipos vizinhos, são representados pelas cores secundárias
resultantes da mescla das cores primárias: verbal (verde), comportamental (roxo) e existencial (alaranjado).
Figura 13: O sistema de transitividade: tipos de processos
Fonte: Adaptado de “An introduction to Functional Grammar” (HALLIDAY, 2004, p. 172), traduzido por Fuzer e Cabral (2010, p. 30).
Relacionando a ADC com a LSF, tem-se que a análise da transitividade revela a maneira pela qual os atores sociais representam o mundo no texto e como atuam sobre a realidade por meio do evento discursivo.
Neste trabalho, a análise da transitividade será aplicada apenas aos elementos verbais que se destacam no cotexto16 pelo contrastes com outros elementos verbais presentes no texto. Tais processos serão categorizados segundo a tipologia proposta por Halliday (2004), e analisados aplicando-se as ferramentas da ADC e da linguística sistêmico funcional. Esse esforço analítico procura identificar o potencial pragmático das ideias associadas aos elementos verbais em análise. Por potencial pragmático entende-se a capacidade de incitar transformações na realidade por força do discurso representado no texto.