CHAPTER 3. THE ROLE OF LOVE IN OUR MORAL MOTIVATION TOWARDS FRIENDS
3. Moral motivation, moral obligation and love in Darwall’s picture
A prática de colecionismos esteve presente na vida de Fritz Plaumann durante quase toda sua vida, desde a pequena coleção de insetos, ainda quando morava na Alemanha e, posteriormente, dando seguimento a essa prática cultural no Alto Uruguai Catarinense. Além disso, mesmo após a venda da coleção, devido ao trabalho que continuou a desenvolver no museu, ficou responsável pelos cuidados com a coleção, que continuou crescendo, devido às coletas que continuou a realizar até o início da década de 1990. Ele foi o primeiro diretor do Museu. Atualmente, a coleção e o colecionador continuam lado a lado após a sua morte, pois o túmulo onde jaz o colecionador se encontra ao lado do Museu.
O sertão catarinense foi o palco de suas caminhadas, excursões e buscas pelos insetos que a ciência ainda não conhecia. O que era hobby para muitos colecionadores e coletores no século XIX, bem como descobrir o ainda desconhecido e ir à busca por espécies raras, foi algo presente na vida de Plaumann. No entanto, para o colecionador o ato de coletar não foi apenas um hobby, tornou-se uma profissão, a principal fonte de renda financeira. Através do seu trabalho como colecionador e coletor que foi possível analisarmos como se deu a comercialização e a circulação de espécimes entomológicos durante o século XX, no Brasil. Ampla parte dos insetos coletados foi direcionada para pesquisadores ou então instituições da ciência, o que acabou por difundir a fauna encontrada no oeste de Santa Catarina, com informações científicas e em inúmeras publicações.
Muito dependia, naturalmente, também do bom estado do material enviado. Na ciência a avaliação do material não depende do tamanho do objeto, mas sim da raridade. Em se tratando de espécies novas, antes desconhecidas e não descritas, tais espécies existiam há muito tempo, porém não foram encontradas e registradas cientificamente (PLAUMANN in SPESSATO, 2001, p. 99).
Foi sempre na busca pelas matas virgens do Alto Uruguai Catarinense que Plaumann encontrava o espaço para suas coletas científicas. O coletor sabia que encontraria muitas raridades nas matas fechadas que ainda não haviam sido atingidas pela modernização agrícola, pelo o desmatamento e que não tinham sido afetadas pelos
defensivos agrícolas. Mesmo com muitas dificuldades para conseguir materiais de estudos e de trabalho, e distante dos centros urbanos e científicos, Plaumann conseguiu formar uma coleção de expressiva relevância para várias áreas do conhecimento.
Suas relações científicas foram fundamentais para a formação da coleção, principalmente no que tange à classificação das amostras coletadas, em relação às mercadorias, às ideias e aos processos para além das fronteiras. O caminho pelo qual percorreram as peças que compõem a coleção foi longo, atravessando oceanos para fazerem parte de amostras em museus e coleções particulares ou para serem colocadas nas caixas de cedro, especialmente construídas pelo próprio colecionador para abrigar os insetos.
A interação com os especialistas lhe proporcionou conhecimento amplo sobre as práticas de coletas. Nessas relações eram encaminhados livros específicos, materiais para coletor, os pequenos artrópodes e, ao mesmo tempo, dentro delas corriam informações de como coletar. A rede formada por instituições e atores, da qual Plaumann foi o elemento-chave, transcenderam as fronteiras nacionais e contribuíram para a circulação e produção de práticas científicas.
Muitas foram as amostras enviadas do Alto Uruguai Catarinense que abasteceram coleções em museus e coleções particulares. O que verificamos é o grande interesse pelas amostras enviados da América do Sul e, em outras palavras, o novo mundo ainda continuava sendo um excelente campo de coleta, fornecendo materiais para a Europa e América do Norte. Também foi possível verificar a grande proximidade que Plaumann teve, sobretudo, com pesquisadores da Alemanha, seu país natal. Além disso, suas coletas foram importantes para a formação de entomólogos ao destinar muitas amostras diretamente ao Curso de Pós-graduação da UFPR.
Mesmo sendo um autodidata, foi considerado por muitos especialistas um entomólogo, como expressa esse trecho de carta do zoólogo Reichensperger, chamando Plaumann de colega entomologista “Serh geehrter Herr Plaumann und entomologischer Kollege!” 89. Além disso, Plaumann era sócio ativo da sociedade de entomologia e ele mesmo considerava-se um entomólogo amador, com uma trajetória de mais de 60 anos de coleta de materiais científicos.
Plaumann julgava sua atividade científica sempre em prol do conhecimento da fauna entomológica do Brasil (PLAUMANN in SPESSATO, 2001, p. 165). De tal modo, após receber licença para coleta do IBDF afirmou “Tão logo que o tempo permita, vou recomeçar com os meus trabalhos em prol da fauna brasileira e aumentar a coleção zoogeográfica regional a qual, afinal, vai trazer vantagens para outros cientistas de hoje e no futuro” (PLAUMANN in SPESSATO, 2001, p. 206).
A contribuição de Plaumann foi marcante para o mapeamento da fauna entomológica do sul do Brasil.90 Para exemplificar podemos citar que no oeste de Santa Catarina há apenas o registro de duas espécies da ordem Archaeognatha:
Neomachilellus plaumanni e Neomachilellus santacatarinensis, ou seja, duas espécies descobertas por Fritz Plaumann.
Em suas narrativas fica evidente a preocupação com a classificação dos insetos, a identificação e a conservação. Para isso sempre utilizava de materiais e produtos adequados, com a finalidade dos insetos não se deteriorarem, preocupação essencial que fez com que a coleção entomológica perdurasse até os dias atuais em ótimo estado de conservação, permitindo a visitação de inúmeras pessoas, principalmente de estudantes, público alvo do Museu Entomológico Fritz Plaumann. No ato da inauguração do museu, o colecionador escreveu uma pequena mensagem, nela fica claro que Plaumann queria que seu trabalho motivasse outras pesquisas: “Que meu trabalho entomológico possa contribuir para incentivar a admiração e o amor à natureza e estimular a reflexão sobre a mesma” (PLAUMANN in SPESSATO, 2001, p. 270-271).
90 FAVETTRO, Mario Arthur; GEUSTER, Cleiton José; SANTOS, dos Emilio Bortolon. Insetos do oeste de Santa Catarina. Campos Novos: Ed. dos autores, 2013.