Fowler denominou de pré-estágio a fase inicial do desenvolvimento humano, de 0 aos 2 anos de idade. Esta é uma fase inacessível para o estudo empírico, não sendo pesquisada empiricamente em sua proposta metodológica de trabalho.
A base para o desenvolvimento da fé está na qualidade da reciprocidade, na força da confiança construída na interação com a mãe e/ou pessoas que cuidam, bem como do ambiente durante os seus primeiros anos de vida. Neste processo a experiência relacional e a confiança básica são essenciais para o desenvolvimento da capacidade de
ter fé.
A fé humana conduz à fé religiosa e esta se dá na experiência de abertura confiante para o relacionamento com Deus, o Transcendente, o Sagrado, o Divino. Estes conceitos não serão aqui discutidos, mas pode-se dizer que eles se referem ao sentido último da vida e que são construídos a partir das experiências do ser humano em um contexto sociocultural específico.
De acordo com Fowler, as pessoas, em muitas culturas encontram representações simbólicas de um ambiente último no reconhecimento de suas vidas em relação a Deus. O termo “Deus” refere-se a esta representação da relação das pessoas com as imagens de um ambiente último.
Neste estágio a criança desenvolve a capacidade de confiar, mas, se os cuidados são negligenciados, a sua confiança na vida e no mundo podem se tornar ausentes. Os adultos são reconhecidos pelas crianças como pessoas “poderosas”, com as quais ela estabelece uma relação de dependência. A representação da imagem de Deus está ancorada nesta relação primeira da criança com o “poder” das pessoas provedoras das necessidades e desejos.
Esta representação das primeiras imagens de Deus, Transcendente, Sagrado, Divino, no psiquismo humano está ancorada na experiência de mutualidade que favorece ou não o processo de desenvolvimento do self. Para Fowler, estas pré-imagens formam-se em grande parte antes da linguagem e da formação de conceitos, coincidindo com o surgimento da consciência de si como um ser separado e dependente do outro, como um ser poderoso.
No pré-estágio denominado fé indiferenciada
as sementes da confiança, coragem, esperança e amor fundem-se de uma forma indiferenciada e contendem com ameaças de abandono sentidas pelo bebê, inconsistências e privações do ambiente da criança. Embora seja realmente um pré-estágio e em grande parte inacessível à pesquisa empírica do tipo por nós realizado, a qualidade da mutualidade e a força da confiança, autonomia, esperança e coragem (ou seus opostos) desenvolvidas nesta fase estão subjacentes a (ou ameaçam solapar) tudo que virá mais tarde no desenvolvimento da fé (Fowler, 1992, p. 106).
A criança começa uma peregrinação na fé, desde o nascimento, na experiência de saída do útero materno, na interação com o novo ambiente e no desenvolvimento das suas capacidades adaptativas. Esta ativação do potencial humano para a adaptação depende do processo de maturação global das pessoas e das condições do ambiente como favorecedores ou não do estabelecimento de vínculos interativos saudáveis.
As questões afetivas não são aprofundadas pelo autor da teoria da fé, mas pode- se dizer que ele apresenta uma dimensão afetiva da fé, a qual precisa ser alimentada para o alcance do amadurecimento humano:
Se não há colo, balanço ou estímulos de comunicação suficientes, nossas capacidades adaptativas para relacionamentos e vínculos amorosos podem ser retardadas severamente ou mesmo não ativadas […]. Se a qualidade e a consistência de nossa alimentação e higiene forem inadequadas e se não houver uma (ou mais) pessoa(s) com quem possamos manter um relacionamento complementar confiável de mutualidade, nossa confiança no mundo e em nós mesmos pode ser desequilibrada por desconfiança e desespero infantil (Fowler, 1992, p. 105).
Estes aspectos possibilitam vislumbrar um leque de abertura para a continuidade dos estudos, partindo-se do componente afetivo para o desenvolvimento da fé humana e religiosa. Na introdução do capítulo sobre a fé indiferenciada, Fowler descreve em linguagem poética a relação afetiva da mãe com o bebê, embora não mencione tal terminologia. Começa apresentando o bebê, de manhã e acordando. O bebê sentindo a necessidade de cuidados, expressando a sua ansiedade através do choro. A mãe acorda, chama-o pelo nome, pronuncia palavras de carinho, e um movimento dinâmico é estabelecido entre os dois. Transcrevendo as palavras de Fowler:
Os olhares se cruzam. Face a face agora, os carinhos se repetem […]. O bebê olha a face da mãe […]; seus olhos brincam com a face da mãe. Os olhos da mãe são brilhantes e atenciosos, suas feições expressivas (Fowler, 1992, p. 105).
A manifestação de afeto e o cuidado da mãe e/ou cuidadores para com o bebê possibilitam a formação do conhecimento de si, do outro e do mundo. . A constituição do self e a compreensão do mundo estão fundamentadas nesta relação de confiança e vinculação afetiva. Esta experiência de fé humana possibilita a superação das ausências da mãe e/ou cuidadores sem a ansiedade e o medo da perda do self em processo de formação.
Uma das deficiências desse estágio é a falha na mutualidade devido a uma relação fragilizada com os cuidadores. De acordo com Fowler, neste estágio poderá surgir um narcisismo excessivo, no qual a experiência de ser o centro é predominante, distorcendo a mutualidade, bem como poderá surgir o isolamento e a incapacidade para a reciprocidade, quando a criança for negligenciada nos cuidados. Esta inconsistência conduz à insegurança e à desconfiança diante das pessoas e do ambiente.
Na visão de Fowler, o bebê, aos sete ou oito meses, experimenta a formação e a retenção de imagens mentais dos objetos ausentes – pessoas ou coisas – e vivencia uma
ansiedade na ausência destes objetos. O retorno da mãe ou dos cuidadores confirma o bem-estar do bebê e possibilita o desenvolvimento de um sentimento de confiança.
Quando a mãe ou os cuidadores retornam, o bebê experimenta uma reconfirmação do ser e bem-estar:
Quando ela volta, chamando o nome do bebê e abençoando-o com o dom de seus olhos e sua face, o bebê é reconfirmado no ser e bem-estar e é restaurado a um senso de centralidade em seu mundo de objetos que se tornam cada vez mais separados do próprio bebê. É assim que a confiança toma forma – confiança nas pessoas que cuidam de nós e no ambiente que proporcionam; confiança na própria pessoa, em seu valor e na sensação de estar em casa; confiança no mundo maior de sentido que cerca incipientemente a criança e as pessoas que cuidam dela, mediado pelos seus corpos e vozes e pelos padrões de sua forma de encaminhar a criança, já como bebê, às suas imagens de masculinidade e feminilidade dignas, bem como às de sua cultura (Fowler, 1992, p. 106).
A força da fé emergente neste estágio está na confiança básica e na experiência relacional de mutualidade para com as pessoas que oferecem o cuidado e o amor nos primeiros anos da vida.
Esta confiança e a representação significativa do cuidado materno/paterno no processo de formação do self da criança são fundamentais, pois estas pré-imagens asseguram o sentido de um self em contínuo desenvolvimento para o estabelecimento de relacionamentos saudáveis, o qual é formado a partir da qualidade da interação humana.
A transição do pré-estágio para o estágio 1, na teoria fowleriana, começa com a convergência do pensamento e da linguagem, possibilitando o uso de símbolos na fala e nos jogos rituais, conforme a teoria postulada por Piaget.
A fase da fé primal ou indiferenciada é reconhecida por Fowler como uma fase de semeadura, da qual depende a construção de um tipo de fé e das imagens de Deus. A dinâmica confiança e desconfiança é atravessada pelas experiências afetivas nas primeiras relações da criança com a mãe e/ou cuidadores e pelo ambiente onde ela se desenvolve. Fowler considera que as pré-imagens de Deus
se compõem das primeiras experiências de mutualidade, nas quais formamos a consciência rudimentar de nós mesmos como seres separados e dependentes de outros imensamente poderosos, que estavam presentes em nossa primeira tomada de consciência e que “nos conheciam” – com olhares reconhecedores e sorrisos reconfirmadores – quando de nosso primeiro autoconhecimento (Fowler, 1992, p. 106).
Estas pré-imagens, para Fowler, são assim denominadas porque se formam antes da linguagem, dos conceitos e na época em que está surgindo a consciência do próprio ser.
Neste pré-estágio, o autor apresenta a origem da fé nas experiências de mutualidade, mas deixa uma lacuna, com o não aprofundamento dos aspectos emocionais e afetivos emergentes nos primeiros anos de vida, os quais influenciam a constituição de um self de fé humana e de fé religiosa.