O GR tem um curioso e talvez inesperado momento de interação com a natureza. Aqui vamos perceber quando e como é conveniente um elemento autenticamente selvagem se aproximar da mediação televisiva. A equipe de reportagem, navegando pelo rio, vê-se de frente com uma enorme cobra:
Numa área ainda selvagem do rio, a câmera passa pelos galhos submersos e faz uma grande descoberta. O primeiro contato é assustador. Na margem do rio da Prata, localizamos uma sucuri. Ela deve ter uns cinco metros de comprimento. Ela está lenta, porque comeu um animal e a parte do meio do animal está muito dilatada, o que dificulta a locomoção dela por dentro d´água (...) Ela nada do lado de nossa embarcação com dificuldade.
Se retirássemos a sonora do repórter, acreditaríamos talvez que a pobre cobra estaria se debatendo até a morte. Desengonçado, o animal se esforça para nadar e assim fugir da visita dos incômodos seres humanos. Mas não consegue, devido ao peso e à deformidade de seu corpo. De forma semelhante à onça sedada do tópico anterior, a cobra está limitada de toda sua potencialidade selvagem. Isso não impede, porém, que o repórter reconstrua esse cenário
a partir de sua fala, criando uma natureza curiosa, tensa, permeada por uma sensação de perigo que não parece ser concreta. A natureza serve, portanto, como pano de fundo para uma teatralização do texto televisivo. A cena efetivamente impressiona pelas dimensões da sucuri, mas não condiz com a locução do repórter:
A câmera chega bem perto da sucuri. Ela está enroscada num tronco de árvore, aí se sente mais protegida. Acreditamos que a cobra não vai atacar, porque está bem alimentada. Aproximamos ainda mais a câmera, ela quase toca a lente com a língua. Nunca uma sucuri foi vista tão de perto.
Percebemos a necessidade da produção televisiva em reafirmar-se a todo momento como
única, primeira e maior intermediação do natural para com o público. O valor da produção do GR, muitas vezes, não parece estar na fauna e na flora retratados, no esclarecimento e
qualidade de informação sobre os temas. Mas na competência e nos produtos que a equipe conseguiu registrar. Os troféus não são mais as cabeças de onças e cobras, mas as imagens captadas e os textos culturais recortados e criados desses seres. Podemos entender esse raciocínio a partir da fala do biólogo José Sabino, sobre a Serra da Bodoquena:
É uma janela de uma visualização de um contato íntimo. São raros os locais da natureza que ainda restam para que as pessoas possam ter um contato tão sincero e profundo com a natureza e de uma forma recíproca. Os bichos não têm medo, chegam muito próximos...
Se a Serra da Bodoquena é uma janela de contato íntimo entre os seres que lá habitam e os homens, a televisão é a janela para o público que não tem acesso a essa região e a imagem dessa flora e fauna. A assimetria produzida pela falta de contato humano com ambientes naturais selvagens é compensada pela supressão de nossas necessidades vitais oriundos da imaginação, da representação e da simulação do natural que faz a TV.
Cria-se uma constante sensação de ambivalência: nunca estivemos tão perto de uma cobra de tal envergadura, mas estamos longe desta, pois a vemos pela TV; nunca houve uma equipe de TV a registrar uma sucuri tão próxima, mas com as sucessões de discursos televisivos recheados de nunca, pela primeira vez, o mais alto, raro e longínquo, o raro e inalcançável se torna banal; estamos em perigo, frente às imagens da cobra, mas a salvo, vendo a aventura, não a experimentando; o nosso contato com a flora e fauna é íntimo, assim como o do biólogo entrevistado, mas não poderia ter sido tão artificial, já que nossa relação com a natureza é audiviosual, e com o seu simulacro. Enfim, o programa se apresenta como complexo e raso, informativo e visual simultaneamente.
O fato é que ao entendemos a natureza oferecida pelas imagens da TV como complexa ou
rasa, longe ou perto de nós, rara ou banal, maior ou menor, estamos inseridos nos textos, discursos e palco comunicacional que nos dão essas duas opções. Em outras palavras, quando
vislumbramos apenas duas das interpretações do mundo, é porque já estamos incluídos dentro do grupo social que as desenvolveu.20 Mesmo que rechacemos os argumentos oferecidos
20
Textos culturais carregam suas próprias oposições dentro de si, demonstrando como tal processo é comum na constituição das culturas e dos agrupamentos sociais. Esses grupos, por sua vez, criam elos simbólicos entre os indivíduos, segundo o autor, base primeira para a comunicação. Tal como diz Norval Baitello Junior reflete sobre a questão da ambigüidade.
A história que se esconde por detrás das palavras nos traz muitas vezes grandes surpresas. Assim, por exemplo, nas palavras ´agregar e segregar`, abrigam-se dois conceitos diametralmente opostos, mas um único e misteriosamente indissociável coração, uma só alma. Desde o latim grex¸ gregis a língua veio trazendo, ao longo de muitos séculos, as duas palavras (e ainda outras da mesma família como ´gregário` e `congregar`. Mas nos esquecemos, talvez há muito, de que o sentido original da palavra latina é exatamente ´rebanho`. Portanto nascem do próprio conceito de coletivo as duas operações opostas de agregar, com o sentido de acolher, e de segregar, com o sentido de separar, discriminar, marginalizar. Pode parecer contraditório, mas
pelos emissores das imagens ambientais, é a partir delas que criaremos nossos valores, já que não temos muitas outras fontes de informação. Somos cúmplices dos produtores de tais imagens da natureza.
Dessa forma, cria-se um universo simbólico entre emissor, a TV, e o receptor, que estimula a rejeição a tudo o que estiver fora desse modo de compreensão binário, ambíguo e simplificado da vida. A constituição do mundo e do homem, realizadas conjuntamente por fatores biológicos, ecológicos, culturais e racionais, como vista por Edgar Morin, é rejeitada, em detrimento da fórmula simples de binarização do mundo. “A ambivalência da desordem, a baixa complexidade e a hipercomplexidade fazem a história”, como diz o próprio Morin, é abandonada por outra ambivalência, que traz a pergunta e a resposta dentro de si, e assim se facilita a ligação entre o programa de televisão e o telespectador.21 A dúvida, o mistério e a curiosidade sobre as pessoas e o mundo ainda são requisitos para buscarmos produções jornalísticas. Mas essas estão simplificando tais questões, trocando quantidade e pirotecnia por qualidade de informação.
Como são mais simples e simplórias, as ambivalências discursivas do GR não excluem telespectadores. As imagens e os textos da natureza não são tão complexos a ponto de pessoas menos preparadas intelectualmente mudem de canal. Pelo contrário, GR, desde sua época experimental até sua popularização pelo conteúdo, faz uma interessante tentativa de aliar assuntos pertinentes e complexos com linguagens verbais e visuais simples, buscando abarcar todo o tipo de audiência. Mas isso não é tarefa fácil, e o tiro pode sair pela culatra: o telespectador mais culto achar o programa raso de informações e o menos preparado encarar a um rebanho ou um cardume, ou um agrupamento social, portanto, uma sociedade, se constitui não apenas agregando, mas também segregando. (BAITELLO Jr., Norval: O animal que parou os relógios: ensaios sobre comunicação, cultura e mídia - 1999: 86, 87)
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Agregar e segregar constituem portanto as duas mãos de direção de uma operação construtiva que se funda em processo de emissão e captação de sinais, em trocas informacionais que vinculam ou desvinculam. E ´vincular`significa aqui ´ter ou criar um elo simbólico ou material`, constituir um espaço (ou um território) comum, a base primeira para a comunicação. (BAITELLO Jr., Norval: O animal que parou os relógios: ensaios sobre comunicação, cultura e mídia - 1999: 87)
imensa cobra como mais um dos vários animais exóticos que o GR diz ser o único. De qualquer modo, ao buscar um dos elementos ambivalentes, o receptor cria vínculo comunicacional.22 Aprendizado para uns, deleite visual para outros; cifrões para a empresa televisiva.