4.1 Wonderlands tilnærming til innovasjon
4.1.6 Mohr og samarbeid
É importante frisar que este trabalho utiliza fontes que foram produzidas nos domínios do Hospício São Pedro. Em se tratando de Relatórios, estes são confeccionados pelo Diretor do Hospício, e/ou por seu administrador171. Quanto aos prontuários médicos172, estes são a real escrita médica, discurso médico na sua verdade. Se os Relatórios emitem um parecer que pretende retratar uma instituição modelo, os prontuários muitas vezes refutam, involuntariamente, os Relatórios. Produzidos para não serem manuseados por leigos, eles contestam aquilo que é mencionado nos Relatórios, como, por exemplo, terapêuticas aplicadas aos insanos173 (nos Relatórios, visualiza-se um hospício modelo, nos prontuários, ausência total de anotações de terapêutica).
170 Para maiores esclarecimentos sobre Tecnologia da informação ver http://www.infowester.com/ti.php.
171 Trata-se de Relatórios assinados por alienista (diretor) e um funcionário (administrador) do Hospício São Pedro,
contidos nos Relatórios apresentados ao Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Secretário de Estado dos Negócios do Interior e Exterior, tendo por sigla SIE, e devem ser observados com a devida cautela. Adiante, poderá ser constatada informação errônea extraída de um destes Relatórios, e que foi utilizada por historiadores no passado recente. O que se enfatiza é que ambas as fontes, prontuários e Relatórios, se complementam, mas não devem ser vistas como fontes livres de críticas. Também serão utilizadas informações extraídas de Relatórios oriundos do Hospício São Pedro, quando este esteve sob a égide da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Todas as fontes serão submetidas a devida atualização ortográfica: Relatórios, prontuários e obras impressas.
172 Entende-se que a História é feita com documentos, e estes sofrem leitura e interpretação, muitas vezes, distintas de
quem os produziu, mesmo tratando-se de um prontuário médico. É um mito supor que documentos desta natureza possam ser entendidos apenas por quem os confecciona, afinal, uma vez que, os códigos discursivos de um médico, empregam a mesma linguagem vernácula do pesquisador, o entendimento do que está escrito é passível de ser compreendido.
173 Os diagnósticos informados nos prontuários médicos do Hospício São Pedro, coletados conjuntamente com outros
dados, são, neste trabalho, apresentados com significados e quais prováveis sintomas apresentariam, traduzindo o “discurso médico” da época. Isto foi possível lançando-se mão de literatura especializada: manuais médicos, tendo por público alvo estudantes da área médica. No intuito de evitar anacronismos, foram privilegiadas obras que estejam localizadas no espaço em relação ao HSP de Porto Alegre e ao tempo em que foram apreendidas informações nos
Sabendo-se que, os prontuários do HSP fazem parte de uma documentação com acesso restrito, optou-se por mostrar visualmente um exemplo (em específico a guia de internação). Estes documentos médicos apresentavam o seguinte formato no início do século XX:
Figura 1 – Guia de internação do Hospício São Pedro no início do século XX
prontuários. A título de informação duas obras do início do século XX: ROXO, Henrique. Manual de Psychiatria. 2 ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1925, e BENCHIMOL, Newton. Burlamaqui. Menstruação: anomalias mestruaes. Rio: Flores & Mano, 1935. Na ausência de literatura da época se recorreu então a escritos mais recentes, caso de Pequena psiquiatria: para estudantes e para os que colaboram com o psiquiatra, de J. H. Van Den Berg, com primeira tradução para língua portuguesa realizada em 1970. Em relação ao espaço de escrita, optou-se por manuais de cunho psiquiátrico feitos no Brasil e não em específico no Rio Grande do Sul. Quando da leitura de Manual de Psychiatria de Henrique Roxo, o autor informa, dentre outros diagnósticos, sobre a demência precoce: No entanto já é coisa corrente e bem aceita no Rio de Janeiro a concepção da demência precoce quando ao mesmo tempo na França ainda há hesitação em a aceitar (p. 280 e 281). Como será observado, no Hospício São Pedro foi encontrada mais de uma centena e meia de alienados com o diagnóstico de demência precoce, assim escrito pelos alienistas que recepcionaram os loucos nesta instituição. No último capítulo, a obra O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir, será utilizada como fonte.
Figura 2 – Detalhe da guia de internação do Hospício São Pedro no início do século XX
No detalhe é possível observar quais informações eram registradas sobre os pacientes do HSP, sendo que os dados pessoais são as únicas anotações que podem ser verificadas além do diagnóstico. Os prontuários pesquisados demonstram que todo e qualquer tratamento que por ventura tenha ocorrido com os internos não foi devidamente anotado, quer a administração de medicação, quer apontamentos sobre comportamento do interno e observações do alienista, neste sentido. Enfim, quaisquer dados que indicassem algum tratamento junto aos alienados do HSP, não importando a classe a que pertenciam, se pensionistas (e portanto pagantes) ou indigentes, são inexistentes para o
período ora trabalhado: 1900 a 1925. Raras anotações como a cor do cabelo, estatura e a cor dos olhos podem ser verificadas no verso desta guia. Bem como informações sobre temperatura do corpo (apontadas em uma guia, mas sem observações quanto a medicação), ou apontamentos de um estado mórbido (quando o paciente apresentava diarreia eram feitas anotações seguidas até o óbito), e anotações esparsas. Os compostos farmacológicos, apontados nos relatórios, não aparecem nos prontuários, quer seu emprego, e muito menos a quantidade utilizada. Como citado à página 58 no primeiro capítulo, uma gama variada de fármacos já era utilizada no São Pedro segundo consta em relatório expedido pela instituição: bromureto de potássio, bromureto de sódio, ohioral, belladona, meimendro, ópio, morfina, noz-vomica, valeriana, tônicos, ferruginosos, preparações iodadas, iodureto de potássio, sulfato de quinina, digitalis, emeticos, purgativos, emenagogos, revulsivos174.
Existe a possibilidade de que as informações contidas no cabeçalho dos prontuários, em alguns casos, sequer correspondam aos dados reais de pacientes. Sobre isto o Diretor Dr. Tristão de Oliveira Torres comenta em Relatório de 1902:
(...) as autoridades do interior continuaram a remeter para esta capital os infelizes doentes sem as necessárias informações, o que alias constitui uma imposição regulamentar.
Não raro é virem ter a este estabelecimento requisições que apenas, por única informação, consignam o nome próprio do doente, e algumas nem isso, fato que se pode verificar no livro de matricula, onde estão dois sugestivos N.N. substituindo o nome de um doente.
Este ano foi matriculada uma doente vinda de Cacimbinhas com o nome de Comissária. A infeliz alienada, nas suas concepções delirantes, dizia-se comissária, e a autoridade, aproveitando-lhe a ideia, assim a batizou e assim a remeteu para esta capital.
Não se torna necessário por em evidência os inconvenientes que uma tal política acarreta, que elas saltam a vista. Compreendo bem que nem sempre será fácil a autoridade policial colher informações amplas e exatas das famílias, que em geral, obcecadas pelo preconceito, se recusam a fornecer elementos ou dados anamnésicos, cujo valor desconhecem175.
As informações, ou a falta delas, colhidas pela autoridade que encaminhava o paciente, na grande maioria das vezes a Chefatura de Polícia, eram vistas como fundamentais pelos médicos que acolhiam os loucos no HSP. A pesquisa permitiu observar que, somente em meados da década de 20 do século passado, uma nova guia passará a ser utilizada, e nela constarão então as medidas terapêuticas que foram empregadas nos internos.
174 RSCM do ano de 1884, p. 9. 175 RSIE.3-011, do ano de 1902, p. 238.
Os pacientes que porventura permaneceram no Hospício após a data da incorporação da nova guia a tem em seu prontuário e assim adiciona maiores informações, melhor dizendo, finalmente176 adiciona alguma informação sobre o que é feito (terapêutica) aos pacientes na dita instituição.
Portanto, o período de tempo de 1900 a 1925, é para a primeira internação, e a documentação com data posterior (caso da nova guia) ao período estipulado será também analisada quando puder contribuir sobre dados a respeito do paciente. Exemplo desta nova guia:
Figura 3 – Nova guia de internação do Hospício São Pedro177
176 Os trabalhos de Wadi e Santos (WADI, Yonissa Marmitt, 2002, op. cit.; SANTOS, Nadia. Histórias de
Sensibilidades: espaços e narrativas da loucura em três tempos. 2005. (Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005) podem dar uma dimensão errônea dos prontuários do HSP. Tese com riqueza de detalhes sobre a interna Pierina, Wadi trabalha com o mesmo período, e baseia sua tese em um único prontuário, que contém, além de cartas da alienada, o processo crime deixado junto ao documento médico pelo próprio APERS (que o localizou na década de 90). Isto permitiu trabalho bastante instigante da historiadora. Porém, trata-se de documento totalmente excepcional. Já a tese de Santos está circunscrita à década de 30, quando os prontuários já detêm maior número de informações através de anotações sistematizadas.
177 As imagens constantes nas figuras 1, 2 e 3 são oriundas de uma autorização informal (telefonado ao Comitê do HSP, o
qual permitiu o procedimento) concedida ao final dos anos 90, quando foi requerido para uma apresentação de trabalho e posterior apresentação do mestrado. No caso das figuras 1 e 2 foi encontrada guia em branco e na ocasião foi realizado escaneamento (hoje chamada digitalização), já a figura 3 foi feito fotocópia, apagados nome e prenome com corretivo e novamente fotocopiado.
Por fim, a título de informação, a questão ética envolvendo os prontuários, no sentido de não divulgar nomes de pacientes, deve ser vista como algo atual, pois esta condição não era respeitada à época estudada, entre 1900 e 1925, sendo divulgado o nome completo de alguns pacientes e sua procedência. Abaixo, alguns exemplos de notícias extraídas de jornal em 1911:
Figura 4 - Em 28/10/1911, página 6 do jornal Correio do Povo178
“Bagé, 27 – Seguiram, hoje, para ai, afim de serem internados no Hospício S. Pedro, os alienados Francisco Medran e Francisco Mattos”.
Figura 5 - Em 04/06/1911, página 4 do jornal Correio do Povo
“Um alienado – Depois de examinado na Chefatura de Polícia, pelos Drs. Carlos Penafiel e Pitta Pinheiro, médicos legistas, foi, ontem, internado no hospício S. Pedro o alienado Albino Isaacson, proprietário da Livraria Pelotense, de Pelotas, e vindo, pela manhã, dessa cidade, em companhia de duas praças do Corpo de Bombeiros dali”.
178 A reprodução do texto abaixo de cada noticia digitalizada, tem intuito apenas de auxiliar na leitura em caso de
Figura 6 - Em 29/06/1911, página 6 do jornal Correio do Povo
“Bagé, 28 – Está acometido de alienação mental, nesta cidade, Hypolito Soares Meirelles, que já tem um irmão atacado do mesmo mal e recolhido ao Hospício S. Pedro, dessa capital”.
Figura 7 - Em 07/07/1911, página 4 do jornal Correio do Povo
“Alienada – Conforme antecipamos, foi recolhida ao Hospício S. Pedro d. Maria Thereza Rangel, que residia à rua Marcilio Dias n. 117. O dr. Hugo Teixeira, juiz distrital, nomeará o Sr. André Leão Puente tutor dos filhos menores daquela senhora”.
Figura 8 - Em 25/07/1911, página 5 do jornal Correio do Povo
“Alienadas – Deram entrada, ontem, no Hospício S. Pedro, Maria Fernandes e Manoela Custodio, vindas de Santa Maria”.
Salienta-se que alguns dos mencionados acima não foram encontrados nas caixas manuseadas, e não fazem parte do Banco de Dados que originou este trabalho.