O conceito de interacção social assume um lugar central na abordagem psicossocial, ou seja, nesta abordagem multipolar, simultaneamente psicológica e social. «O próprio domínio da psicossociologia aparece então, essencialmente, como o da interacção [social]», escreve Maisonneuve (op.cit., p. 9), ou, dito de outro modo, a problemática da interacção social converge com a perspectiva psicossociológica (cf. Marc & Picard, 1992, p. 9).
O conceito de interacção social:
Foi introduzido na sociologia europeia em meados da década dos anos 50 e desenvolvido nos Estados Unidos da América por Talcott Parsons. Indica qualquer forma de acção mútua de duas ou mais pessoas ou grupos sociais em que cada uma das partes orienta a sua conduta em função da outra parte (estímulo ou reacção) ou então toma como base as expectativas postas na outra parte (papéis complementares, definição de situações, etc.). A condição prévia para se produzir a interacção é a presença de um mínimo de símbolos comuns (p. ex., coloquiais, gestuais, etc.). Contrariamente ao conceito tradicional de relação social, que se baseia num contacto que já existe, a interacção põe mais ênfase na tomada de contacto (Lexicoteca, 1986).
Segundo Dols et al.,
A interacção [social] é uma cadeia de acções entrelaçadas de dois ou mais indivíduos em que, como mínimo, um indivíduo A mostra uma conduta X a um indivíduo B e este responde com uma conduta Y que, por sua vez, determina uma conduta X1 em A. Um dos factores chave de uma interacção é que a conduta dos indivíduos que a protagonizam está bidireccionalmente determinada, isto é, a conduta X ou X1 de A depende da conduta Y de B, e vice-versa (Dols et
al., 2007, p. 17).
Notas distintivas do conceito de interacção social são, pois, o seu carácter integrador, ao considerar a relação entre a dimensão individual e a dimensão colectiva como um nó indissociável (Fischer, 1997); multipolar, que reúne ópticas diferentes sobre uma mesma realidade e articula as dimensões sociais e psicológicas de uma mesma realidade
(De Kayser, Peters & Malaise, 2003); e ser uma relação de troca entre um indivíduo e outro ou outros indivíduos, relação esta que é determinada pela situação (propriedades espaço-temporais do ambiente) (cf. Morval, 2009, pp. 25-53), os conteúdos das comunicações (isto é, pelo sistema e conteúdos das relações inter-humanas), as exigências, os resultados e a mudança de posição entre os participantes (funções “transaccionais”, ou seja, recíprocas, geradas de parte a parte).
Em sentido psicossocial, toda a interacção é sempre uma interacção social. É uma relação entre pessoas (uma pessoa e outra pessoa, ou uma pessoa e outras pessoas, ou ainda uma pessoa consigo própria).
Deste modo, deverá excluir-se, como regra, do conceito de factor psicossocial de trabalho a relação de uma pessoa com um objecto físico ou com as características puramente físicas do ambiente de trabalho. É esta a posição de Asch, quando diz que:
Os objectos não nos saúdam, não nos culpam ou elogiam, não nos amam nem odeiam. Reagem às nossas razões, não a nós; não estão conscientes da nossa presença. O espelho reflecte, mas não nos vê; só outra pessoa pode ser um verdadeiro espelho para um ser humano; somente as pessoas nos podem responder com sentimentos e compreensão, com irritação ou admiração, com ajuda ou competição (Asch, 1977, cit.in Monteiro & Santos, 2001, p. 147).
É a mesma a interpretação que transmite Jardillier, ao referir que:
As condições psicossociais do trabalho constituem uma terceira família de condições de trabalho claramente distintas das duas outras [as condições físicas e as condições mentais]. Estas condições não resultam nem do trabalho, em si próprio, nem do ambiente imediato do posto de trabalho mas de um ambiente colectivo, constituído, fundamentalmente, pela organização do trabalho e pelas práticas sociais da empresa (Jardillier, 1993, pp. 81-82) 38.
Segundo Hinde (1997, cit. in Dols et al, op.cit., p. 17), as interacções sociais «têm uma série de propriedades características que tornam a sua análise complexa, apesar de ser a unidade elementar da conduta social». As interacções sociais constituem a base das
38 No entanto, se toda a realidade social é eminentemente simbólica, como diz o Interaccionismo
Simbólico, se a «cultura material é um produto colectivo, socialmente estruturado e mediado», «os objectos existem sempre em actos, actos organizados, actos sociais (...) [e se] a “coisa” física existe ou como objecto percebido ou como objecto manipulado, nunca antes» (Doménech, Iñiguez & Tirado, 2003), sempre poderá dizer-se que mesmo num interacção física poderá haver aspectos psicossociais a considerar. É um aspecto a ter em conta, teoricamente, embora não para efeitos práticos de actuação diária no âmbito da prevenção de riscos psicossociais.
relações sociais e das estruturas sociais. As relações sociais resultam de um conjunto de interacções sociais repetidas entre dois indivíduos, levam implícita uma ideia de continuidade, isto é, de uma história de interacções repetidas e da expectativa que tais interacções se venham a repetir no futuro (cf. Dols et al., op. cit., p. 18). Por sua vez, ainda, as relações sociais dão lugar a fenómenos de nível superior que são, igualmente, mais do que «soma das partes», isto é, são mais do que simples agregados de relações sociais, dando lugar, neste caso, a uma estrutura social. Uma estrutura social pode definir-se, assim, «como um conjunto de relações sociais» (id., ibid.).
O conceito de interacção social, portanto, está na base da explicação psicossociológica e é nele que reside a essência do conceito de factor psicossocial no trabalho. Diz Maisonneuve (op.cit., p. 11) que «o próprio domínio da psicossociologia aparece então essencialmente como o da interacção [social]: interacção dos processos sociais e psicológicos ao nível dos comportamentos concretos; interacção das pessoas e dos grupos no quadro da vida quotidiana e junção também entre a abordagem objectiva e a do sentido vivido, ao nível do ou dos agentes numa dada situação».