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MODERNISERING OG VEDLIKEHOLD

In document NSB ÅRSRAPPORT 1981 (sider 28-33)

Na tradição marxista o homem é considerado produto de seu meio. Os homens fazem sua própria história, mas a fazem de modo arbitrário, em circunstâncias que não foram por eles escolhidas, mas que encontram

imediatamente diante de si, determinadas por fatos e pela tradição36. Neste

sentido, qual terá sido o peso nas vidas de Dora, Mafalda e Mara, das condições financeiras de suas famílias?

Nenhumas das três mulheres eram ricas, mas viviam em situações de relativo conforto, sem opulência, sem carências, embora tenham enfrentado situação de dificuldades em diferentes períodos e por diferentes motivos. Dora fala da dificuldade que a família passou, que os levou a se mudar do Nordeste para o Sul do Brasil e o quanto isso foi difícil. Mafalda menciona a vida simples no interior e as dificuldades que teve para estudar ao se mudar para capital. Mara, fala das diversas crises financeiras da família. Mas, ao menos não parece, em nenhum momento, que esses problemas foram fundamentais a ponto de explicar, por si só ou prioritariamente, quem elas se tornaram. Por outro lado, as três mulheres mencionam convivência com pessoas das classes populares, pessoas em condições financeiras menos favoráveis que as delas. Esse fato parece ter sido importante na vida de todas, o que é bastante coerente com os estudos de Heman (2003). Segundo ele, a convivência entre os vários e distintos grupos na sociedade provoca algum grau de aculturação com o passar do tempo, o que quer dizer que é comum e, (e parece benéfico) para toda a sociedade. Vasconcelos (2013), por sua vez, fala que neste encontro com as camadas populares há o encantamento com sua dinâmica de vida, cria-se intensos vínculos afetivos e, nesta condição, algumas pessoas podem assumir lutas que não são suas, como se fossem.

Não é possível afirmar que essa situação de proximidade com as pessoas de classe social diferente foi o condicionante mais relevante na constituição do compromisso que ora demonstram com o outro. Por outro lado, não é possível dizer que não tenha tido uma importância fundamental. O que parece evidente é que essas situações foram condicionantes relevantes, mas que poderiam não ter tido o efeito de torná-las pessoas melhores. Porém, essa convivência, associada aos ensinamentos da família,

36 Citado por Lukács em: Ontologia do ser social.

a vivência religiosa, pode tê-las orientado e/ou as mantido nesse caminho ético, moral e solidário. No mínimo, essa proximidade pode ter criado vínculos afetivos, despertado sentimento de solidariedade, empatia, pertencimento e despertado as cuidadoras que existiam dentro delas.

A maneira como o homem vive é determinada pelas formas de produções econômicas, sociais e culturais a que estão submetidos. Superar totalmente essas condições não é possível, mas existe espaço para conscientizar-se de seu papel social. Porém, esses espaços parecem ir afunilando com o aprofundamento do capitalismo. Parece que vivemos cada vez mais “cada um por si e Deus contra todos”, como diz a canção do Titãs. Mas qual é esse “deus” que está contra todos? Será o “deus” do consumismo? Será que o construtor de catedral é menos crente neste “deus” do que outros trabalhadores?

Nem todos acreditam que o homem é condicionado, ou seja, que a sociedade tem responsabilidade pelas escolhas individuais. Basicamente há duas maneiras distintas de abordar essa questão37. A primeira posição,

associada ao liberalismo, defendido por, entre outros, Adam Smith, compreende que o indivíduo possui liberdade para escolher e atuar na sociedade, desde que o estado não lhe esteja coagindo e que uma série de condições estejam dadas. Essas condições proporcionariam ao indivíduo uma infinita possibilidade de fazer o que precisa ser feito ou o que gostaria de fazer. Para isso bastaria querer e esforçar-se, ou “querer é poder”.

A segunda posição, associada aos pensamentos de Karl Marx, compreende o indivíduo como um ser condicionado ao seu contexto social, com possibilidade de escolhas, com liberdade para agir, ainda que com grandes limitações econômicas, sociais, culturais e psicológicas. Portanto, não bastando apenas querer ou esforçar-se. Mas dependente das condições dadas, das oportunidades propiciadas pela sociedade.

37 Os argumentos aqui apresentados foram elaborados a partir do texto: Quanto de social há na dimensão particular? – breve análise acerca de duas formas de se compreender a responsabilidade e a justiça social, de Luiz Henrique Kohl Camargo.

O que nos interessa nestas abordagens é nos aproximarmos de uma explicação que possibilite compreender as responsabilidades individuais e/ou coletivas que abarquem o modo como conduzem suas vidas, Dora, Mafalda e Mara.

Os adeptos da primeira posição diriam que o trabalhador desmotivado, que aqui estamos chamando de quebrador de pedra, é unicamente responsável por suas escolhas. Ele não seria um profissional levado a desmotivação pelas condições, mas poderia ser considerado um indivíduo sem compromisso com o outro e com a sociedade, simplesmente. Nessa abordagem, seria simples encaixar os construtores de catedral, ou seja, são assim por que escolheram ser assim, ponto final.

Já os adeptos da segunda posição poderiam dizer que o profissional que quebra pedra está desmotivado pelas condições objetivas em que o trabalho é realizado, poderia ir mais além e dizer que não são apenas as condições de trabalho, mas da própria sociedade. Acreditam que o sujeito possui condições de quebrar pedra ou construir catedral, mas que essa escolha é sempre condicionada à sua história de vida e às condições econômicas e sociais em que vivem. Poderia acrescentar, em nosso caso particular, que o trabalhador está também condicionado pelo seu trabalho e/ou emprego. Como já enfatizado antes, nem todos os trabalhadores têm condições de construir catedral, não ao menos em determinadas funções.

Partindo do pressuposto dessa posição, como explicar comportamentos tão distintos no fazer em saúde? Será que se pode responsabilizar unicamente o indivíduo pelas suas escolhas, pelo modo de ser e estar? Se o quebrador de pedra não é totalmente responsável pela sua forma de se apresentar à sociedade, será o construtor de catedral?

Durkheim (2007, p.2), referindo-se ao comportamento dos indivíduos em relação aos grupos, diz: “esses tipos de conduta ou de pensamento não apenas são exteriores ao indivíduo, como também são dotados de uma força imperativa e coercitiva em virtude da qual se impõem a ele, quer ele queira, quer não”. A maior parte da conduta do indivíduo já vem pronta do exterior, de seu grupo, família, cultura, porém Durkheim (2007), Helman (2003), Geertz (2008), ainda advertem que mesmo assim é preciso considerar as

consciências individuais, pois segundo eles, nem toda coerção social é capaz de excluir a personalidade individual. Porém, advertem que muito do que julgamos consciência individual, nada mais é do que a coerção social se fazendo presente.

Essa ideia, parece coerente com muita coisa que falam as três mulheres. Mara, por exemplo, diz várias vezes que aprendeu tudo com a família, com os amigos, com seu grupo e que sempre encontrou em toda parte alguém fazendo antes dela e apenas o acompanhou. Mafalda e Dora enfatizam os bons exemplos que tiveram na vida, na família, nas escolas, nos movimentos sociais.

Essa ideia de que cada um pode conseguir tudo ou ser determinado em tudo tem suas limitações. Talvez se possa conseguir dentro de limites. É possível o retirante pobre se tornar presidente, mas nem todo retirante pobre conseguirá. Não se pode esperar que todos consigam ou usar isso como discurso de que basta trabalhar para conseguir. Talvez possa se esperar que todos (ou quase todos) aprendam a ler ou, em condições semelhantes, que todos os trabalhadores de saúde tenham um nível semelhante de dedicação, embora nem todos venham a demonstrar e fazer com amor, como alguns. Quem sabe dê para pedir e construir essa possibilidade?

Considerando que Durkheim possa estar certo, que muito do que julgamos ser vontade individual, é na verdade elaboração grupal, seria possível, dentro de determinadas circunstâncias, a vontade de um construtor de catedral, influenciar um quebrado de pedra, e vice versa. Isso parece especialmente possível ao considerar que o construtor de catedral não é um, embora possa muitas vezes parecer só, mas um grupo ou representar um grupo, mesmo que disperso no espaço, e grupos se influenciam mutuamente, como afirmam Durkheim (2007) e Geertz (2008).

É impressionante como, no caso das três entrevistadas, agem de modo muito parecido, mesmo não se conhecendo entre si e sendo de regiões diferentes do país. Como diz Geertz (2008), não dá para dizer que não exista uma cultura comum que perpassa os grupos e as famílias, mesmo em lugares distintos e/ou em gerações diferentes. Parece possível dizer que as condições de vida, a aprendizagem na família e o suporte dos grupos dos quais

escolheram (ou foram escolhidas) fazer parte, determinaram quem são e a conduta de cada uma.

No fim, parece verdade que “somos as escolhas que fazemos”, como disse o Cylon, que vivia entre os humanos sem saber de sua origem, na série de televisão, Battlestar Galactica. Na história, o Cylon é um ser sintético que sem consciência de sua origem, vive entre os humanos, e quando descobre sua condição é confrontado com seus próprios sentimentos em relação à sua espécie, mas, segundo ele, as nossas escolhas são o que nos constitui e é preciso aceitar e conviver com elas. O que parece verdade para a condição de nossas entrevistadas. Elas escolheram ser quem são, mesmo considerando que essas escolhas foram feitas, em grande parte, pela coerção social representada por suas famílias, pelos grupos e por todas as escolhas que fizeram a parti daí.

Por mais que o contexto em que o homem vive e trabalha o condicione a fazer como faz, há ainda os espaços de individualidade. Esses espaços, a força do querer, não podem ser simplesmente ignorados e, as histórias de vida dessas três mulheres parecem dar testemunho disso. Essa força do querer parece ser melhor exercitada por algumas pessoas do que por outras, mas definitivamente parece existir. E, em certa medida, ajuda a explicar por que algumas pessoas, submetidas, aparentemente aos mesmos condicionantes, apresentam condutas diferentes.

Lukács (1972, p.84) fala do homem singular e chama atenção para o fato de que esse processo de individualidade, do homem singular (em nosso caso, da mulher singular), também obedece a determinações sociais, mesmo quando não é percebido de modo consciente. O ato singular alternativo, do homem singular, embora obedeça às circunstâncias sociais de seu meio, produzem outras alternativas de estruturas análogas e fazem surgir outras séries causais.

Dora, Mafalda e Mara parecem ter consciência dessa condição singular e social de seu estar no mundo e/ou com o mundo. Elas reconhecem-se como sendo diferentes da maioria de seus colegas, mas iguais a outras pessoas em diferentes lugares e, sobretudo, não se acham melhores do que outros por essas diferenças. Não se veem como heroínas, como merecedoras de algo

mais, por fazer como fazem, mas reconhecem, mesmo que implicitamente, que com mais pessoas como elas, o serviço para a população e o próprio SUS seriam melhores. Ao mesmo tempo em que se reconhecem diferentes, não se definem em momento nenhum como prontas e perfeitas. Pelo contrário, em diferentes trechos das entrevistas, frisam a importância de continuar aprendendo e, sobretudo, sobre o quanto aprendem no cotidiano, nas relações com as pessoas. Dora, Mafalda e Mara parecem se reconhecerem como seres inacabados, como fala Freire (1996) e, portanto, em construção.

In document NSB ÅRSRAPPORT 1981 (sider 28-33)