Segundo os dados apresentados na Tabela 4, mais da metade da população estudada (72/55,3%), não se sente preparada para realizar a Orientação Sexual na escola, resultado que coincide com outros achados(24,25,60), fato este que traz grande preocupação.
A Orientação Sexual na escola não é uma tarefa fácil, portanto, o preparo do professor é uma questão fundamental para garantir a sua efetividade. A sexualidade não se trata de um tema apresentado nos livros como um manual a ser seguido, mas exige do educador muito mais conhecimento e habilidade para discutir esses assuntos do que muitas disciplinas do conteúdo curricular.
A questão começa na formação básica do professor, onde ele não recebe orientações suficientes sobre a sexualidade(25), e principalmente a didática indicada para sua abordagem.
Tabela 4. Prática dos professores na Orientação Sexual na escola. Embu- SP, 2007.
Variáveis Total
n % Se sente preparado para Orientação Sexual
Não 72 55,3
Sim 58 44,7
Aborda o tema sexualidade na sala de aula
Sim 73 56,2
Não 57 43,8
Como aborda o tema
Não respondeu 60 46,2
Quando surge o assunto 33 25,3
Dinâmicas e brincadeiras 18 13,9
Recursos áudio-visuais 11 8,5
No conteúdo programático 08 6,1
Assuntos que devem ser abordados na escola* Todos 53 40,7 DST/AIDS 56 43,0 Gravidez 34 26,1 Métodos contraceptivos 19 14,6 Relacionamento sexual 08 6,1 Drogas 08 6,1 Aborto 07 5,3 Preconceito 06 4,6 Valores/Responsabilidades 05 3,8 Interrelacionamento 04 3,0 Homossexualidade 02 1,5 Anatomia e fisiologia 02 1,5
Legenda: *= a questão permitiu que cada professor assinalasse mais de uma alternativa.
A escola precisa estar consciente da necessidade de abrir um espaço para reflexão como parte do processo de formação permanente de todos os envolvidos no processo educativo, e isso, com certeza, inclui o professor, peça chave nesse processo.
Para Freire(63) os educandos vão se transformando em reais sujeitos da
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processo. A prática docente envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar. Porém, é pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar as próximas práticas, pois é na prática do ir e vir (reflexão-ação) que se concretiza o pensar. Assumindo enquanto sujeitos sócio-histórico-culturais o ato da postura crítica e da ação pedagógica como instrumento de libertação e mudança é que se faz a grande diferença ao lidar com a Orientação Sexual e, conseqüentemente, na promoção da saúde sexual e reprodutiva.
No contexto escolar, o professor é a peça central na Orientação Sexual, pois é ele quem convive diariamente com o aluno, quem percebe e acompanha seu desenvolvimento e capta suas necessidades. Por isso, os professores demandam instrumentalização para trabalhar estes temas no cotidiano escolar, discutindo a sexualidade em sala de aula(25,64).
Uma questão interessante a ser considerada nos resultados desta pesquisa, é que apesar da maioria dos professores (72/55,3%) não se sentirem preparados para a Orientação Sexual na escola, quase a mesma percentagem (73/56,25) refere abordar os temas relacionados à sexualidade em sala de aula. Além disso, grande parte deles (60/46,2%) não mencionam a forma pela qual realizam a tarefa. Esse resultado suscita uma interrogação: como é realizada esta abordagem da sexualidade em sala de aula?
A espontaneidade, ou seja, a demanda trazida pelos alunos foi indicada como a forma mais usada para abordagem dos temas referentes à sexualidade pelos professores (33/25,3%).
De fato, as questões que as crianças e os adolescentes colocam, merecem atenção e respostas claras, verdadeiras e adaptadas às suas idades. O cotidiano da sala de aula revela questões que culminam com problemas relativos à
sexualidade(50), o que exige preparo do professor para aproveitar a oportunidade
para discussão e reflexão das questões envolvidas.
Para Freire(65), o poder do professor está em sua capacidade de refletir
criticamente sobre a realidade e transformá-la, pois a escola é o melhor espaço de diálogo, trocas, encontros e de uma postura crítica solidária.
Mas, os professores utilizam constantemente seus conhecimentos pessoais e um saber-fazer personalizado, baseando-se, muitas vezes, em sua própria
experiência(25). Porém, o educador deve ter cuidado para não moralizar ou impor
seus valores, mas sim contribuir para que as crianças e os adolescentes construam seus próprios valores, idéias e percepções sobre os temas.
O professor deve se policiar para não “adestrar” seus alunos com base em suas concepções do que venha a ser melhor para o aluno, regulando e criando padrões de comportamentos aceitáveis como sendo o que é certo e bom para o indivíduo e a sociedade, sem permitir ao aluno conhecer e escolher seu próprio caminho.
As dinâmicas e brincadeiras também foram citadas (18/13,9%) como forma de abordagem da sexualidade em sala de aula, bem como o uso de recursos áudio- visuais (11/8,5%), os quais têm grande importância no sentido de captar a atenção e facilitar a compreensão dos alunos.
Os materiais educativos devem auxiliar o aluno a pensar, possibilitando o desenvolvimento de sua imaginação e de sua capacidade de estabelecer analogias. Devem aproximar o aluno da realidade e auxiliá-lo a tirar dela o que contribui para sua aprendizagem(66) , a fim de tornar o ensino mais concreto(67).
Esses materiais devem sempre servir para abrir a conversa, problematizar o tema, procurando antes levantar perguntas que dar respostas, não devendo trazer
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por si só verdades a serem aceitas sem discussão, interesses e visão ideológica ao
interpretá-los(25). Os materiais representam um meio para alcançar determinado
objetivo e não devem ser utilizados como um fim em si mesmos(66).
É importante lembrar que esses materiais precisam ser adequados para cada faixa etária, pois a capacidade de compreender o conteúdo que cada um deles traz, está relacionada ao estágio de desenvolvimento cognitivo dos alunos.
Com menor citação, mas de forma persistente, alguns professores (8/6,1%) reduzem a sexualidade apenas ao que é tratado no conteúdo disciplinar de ciências ou biologia. Esta questão nos remete a pensar que talvez o professor não se sinta preparado e/ou disposto a abordar a temática e transfira esta responsabilidade a outro, no caso, o professor de Ciências.
Cabe ressaltar, como já foi mencionado, que o conteúdo disciplinar, apesar de informativo, não é suficiente para suscitar reflexões que moldem concepções e comportamentos. O professor precisa transformar o aluno de ouvinte em ator, em uma relação estreita da teoria estudada com a prática cotidiana.
Em relação aos assuntos que devem ser abordados na escola, uma grande percentagem (53/40,7%) apontou que todos os assuntos relacionados à sexualidade devem ser discutidos no espaço escolar.
O assunto apontado como prioridade para discussão foram as DST/AIDS, seguidas da gravidez e dos métodos contraceptivos. São assuntos que fazem parte do nosso contexto social, pelos altos índices de gravidez na adolescência e contaminação por Doenças Sexualmente Transmissíveis, veiculados diariamente pela mídia e demais meios de informação em massa.
As escolas trabalham questões biológicas, como aparelho reprodutivo, DST/AIDS, contracepção e gravidez, no conteúdo de Ciências Naturais ou Biologia,
com informações ou noções relativas à anatomia ou fisiologia do corpo humano. Mas essa abordagem normalmente não abraça as ansiedades e as curiosidades das crianças, nem o interesse dos adolescentes, pois enfoca apenas o corpo biológico e não inclui a dimensão subjetiva da sexualidade, não tornando o saber científico aplicável à vida do aluno.
Por vezes o educador propõe uma sexualidade biologizada sem educar para o exercício da sexualidade, mas, acaba por fazer uma estrita relação entre a sexualidade e a reprodução(46).
Os assuntos a serem abordados na Orientação Sexual devem obedecer aos seguintes critérios: relevância sociocultural, isto é, conteúdos que correspondam às questões apresentadas pela sociedade no momento atual; consideração às dimensões biológica, psíquica e sociocultural da sexualidade, buscando contemplar uma visão ampla e não reducionista das questões que envolvem a sexualidade e o seu desenvolvimento no âmbito pessoal; possibilidade de conceber a sexualidade de forma prazerosa e responsável. A partir desses critérios, os Parâmetros Curriculares Nacionais(11) organizam os conteúdos relacionados à sexualidade em três blocos ou
eixos norteadores:
a) Corpo: matriz da sexualidade, cuja abordagem deve ir além das informações sobre anatomia e fisiologia, pois o corpo é concebido como um todo integrado de sistemas interligados e que inclui emoções, sentimentos, sensações de prazer e desprazer, assim como as transformações nele ocorridas ao longo do tempo. Há que considerar os fatores culturais que intervêm na construção da percepção do corpo, esse todo que inclui as dimensões biológica, psicológica e social.
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preconceitos associados ao gênero, no sentido de garantir a equidade como princípio para o exercício da cidadania;
c) Prevenção das DST/AIDS: visando desvincular a sexualidade dos tabus e preconceitos, afirmando-o como algo ligado ao prazer e à vida, não acentuando a ligação entre sexualidade e doença ou morte. As informações sobre as DST devem ter sempre como foco a promoção da saúde e a adoção de condutas preventivas.
É certo que a escola constitui-se em espaço privilegiado para a abordagem de temas como da prevenção das DST/AIDS, de problemas graves, como o abuso sexual e a gravidez indesejada, e sobre a contracepção. O conhecimento sobre os métodos anticoncepcionais, sua disponibilidade e a reflexão sobre a própria sexualidade ampliam a percepção sobre os cuidados necessários quando se quer evitá-la.
Com a inclusão da Orientação Sexual na escola, a discussão de questões polêmicas e delicadas como masturbação, iniciação sexual, o “ficar” e o namoro, homossexualidade, aborto, disfunções sexuais, prostituição e pornografia, dentro de uma perspectiva democrática e pluralista, em muito contribui para o bem-estar das crianças e dos adolescentes na vivência de sua sexualidade atual e futura(11,50).
Conhecedores das concepções e práticas dos professores quanto à Orientação Sexual na escola, passaremos agora a abordar a experiência deles com as questões práticas da sexualidade na vivência com os alunos.