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A CNBB em 1962 começa a reunir esforços para a fundação de entidades sindicais de trabalhadores rurais, disputando o prestígio com os movimentos camponeses como a União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas (ULTAB), o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e as Ligas Camponesas.

Como os conflitos agrários se tornam um tema relevante, então, o problema da terra passa, conforme mostrado anteriormente, a ser tema para o qual a Igreja, por meio da CNBB, se institui enquanto intermediária entre o campesinato e o Estado.

No caso brasileiro, Almeida (ibid), aponta as “Semanas Ruralistas entre 1950 e 1960”, promovidas pelas dioceses, como projeto que atingia tanto organizações dos “fazendeiros” quanto dos “lavradores”. Esse projeto se baseava num discurso de harmonia, com objetivo de

justificar “a propriedade privada” como baseada “no direito natural”, indo de encontro às idéias da ULTAB, do PCB e das Ligas Camponesas.

A encíclica Rerum Novarum, de João XXIII, em 1962, oferecia maior poder aos bispos, incentivando os a se voltarem para “as circunstâncias concretas” dentro de suas pastorais.

Na busca de conciliar as determinações papais e o incentivo de maior liberdade em suas pastorais ficando mais próximo delas, a Igreja passou a definir a “miséria do mundo” como desafio para sua ação. Assim, os clérigos se aproximam das “situações locais” e a Igreja “deixou de ser uma simples delegação ao laicato através da Ação Católica64(...) para atingir uma posição mais abrangente de todo o povo” (ATAYDE, 1980, apud ALMEIDA, 1993, p.36).

Nesse contexto, verifica se maior aproximação da hierarquia eclesiástica com as camadas populares, estendendo se em todo as áreas e alcançando principalmente o meio rural em áreas onde o Estado se encontrava ausente e o domínio concentrava se nas mãos dos grandes proprietários, que só estavam interessados em ampliar o seu capital em terras. Almeida (ibid) sublinha que após o golpe de 64, a perseguição aos militantes do partido comunista, das organizações camponesas ligadas ao PCB e das ligas camponesas destroçou as organizações, enquanto que a Igreja Católica, apesar de algumas perdas, manteve quase intacta sua estrutura de atuação no campo, passando a dominar o espaço de organização camponesa. Nesse contexto pós 64, na Amazônia, a Igreja deixa paulatinamente de se contrapor à dominação das oligarquias locais, para enfrentar os proprietários, gerentes dos empreendimentos bufalinos, que vão ampliando abusivamente suas propriedades e espremendo posseiros e pequenos proprietários, na estreita faixa de terra da beira.

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64 A Ação Católica também era praticada no município de Muaná era realizada pela Legião de Maria como é

informado nessa entrevista: “Aqui (...) era Legião de Maria (...). Depois que elas saíram dessa Legião de Maria que era a antiga Ação Católica; dessa Ação Católica elas entraram já para o Apostolado (...). O Apostolado da Oração não está como era aqui antigamente, pois depois que surgiram as comunidades... não é que acabou, mas os antigos membros entraram nas comunidades. Não parou, mas não é como era antigamente que todo mundo tinha a sua roupa branca, a bandeira – essa eu ainda tenho, a fita e toda 1ª sexta feira do mês tinha que se confessar ... isso não acontece mais” . A Ação Católica foi fundada por um músico muanaense, Genésio, que contou com o apoio de famílias abastadas do município. (Fátima Cobel, cidade de Muaná, 19/05/05).

A expansão da Igreja Católica no Marajó começou a se dar no ano de 1965, quando o padre jesuíta Ângelo Rivatto, italiano, foi nomeado bispo da Prelazia de Ponta de Pedras que abrangem os municípios de Cachoeira do Arari, Santa Cruz do Arari, Ponta de Pedras, Muaná, São Sebastião da Boa Vista e Curralinho. Já naquela época iniciava se uma ação política e social da Igreja, que fazia repercutir em suas paróquias o lema: “No Marajó, tem gente! Reforma agrária urgente!”65. A chegada das irmãs Dorotéias do Brasil que fundaram três colégios na ilha, sendo um em Muaná, também contribuiu para a transformação da Igreja, através do trabalham com educação nas escolas e nos núcleos populacionais espalhados por rios, igarapés e furos. Com efeito, uma ação mais social mais efetiva da Igreja estava em andamento desde o final dos anos 6066.

No município de Muaná, em 1970, o padre Benjamin assumiu a paróquia implantando o movimento pastoral, mas foi afastado um ano depois por motivo de saúde. O padre Luís Rossini então pároco de São Sebastião da Boa Vista, assumiu interinamente a paróquia e depois definitivamente em 1974. Um ano depois fundou a primeira comunidade evangelizadora, em São Miguel do Pracuúba. A esta, sucederam as de: Tijucuaquara, Alto Tartaruguinho, Bom Jardim (primeira comunidade fundada no alto rio Atuá) e Recreio, também no Alto Atuá. Permaneceu na paróquia até 1980, período durante o qual disseminou as comunidades evangelizadoras em boa parte do Município.

Para o trabalho de pastoral, em 1975, chegaram as irmãs Dorotéias (Antonieta, Nascimento, Rodrigues), religiosas que se estabeleceram no colégio Paula Frassinetti, escola de educação religiosa, em convênio com o governo do Estado.

65Jornal “Voz de Nazaré”, caderno 2, p.3. 23 de junho de 2004.

66Em toda a Amazônia essa mudança de ação da igreja ocorreu, especialmente na década de 1970, tendo

como pontos de partida o Encontro Inter regional de Santarém, em 1972, e de Manaus, em 1974. Nessas reuniões, a Igreja começou a traçar uma estratégia voltada para a “formação de agentes de pastoral,

comunidades cristãs de base, pastorais indígenas, pastorais da juventude, cursos na área da bíblia, da política, das questões sociais, educação de base, educação política, e, sobretudo análise da sociedade”

(HOORNAERT, 1992, p.397), tendo como resultado a organização de trabalhadores, que se fortaleceram basicamente através das Comissões Eclesiais de Base.

Os Bispos brasileiros do Regional Norte 2 da CNBB realizaram a visita “ad Limina”, entre 24 a 28 de outubro, que consistiu de audiências particulares com o papa, além de vários contatos de trabalho e visitas aos diversos Dicastérios da Cúria Romana. O Regional Norte 2, correspondente aos Estados do Pará e do Amapá, abrange uma só Província Eclesiástica constituída por: a Arquidiocese de Belém do Pará, 7 Dioceses sufragâneas: Ponta de Pedras, Abaetetuba, Bragança do Pará, Santarém, Macapá, Marabá e Conceição do Araguaia, e 5 Prelazias territoriais sufragâneas: Óbidos, Cametá, Xingu, Marajó, Itaituba.

Em 1982 assumiu a paróquia o padre Manoel Lima Pinho, baiano, jesuíta, vindo da Bahia67, formado dentro de uma ação da Igreja que disputava o espaço com as Ligas Camponesas, o PCB e ULTAB. Tratou imediatamente da implantação das comunidades Eclesiais de Base – CEB’s, nos mesmos lugares onde já havia as comunidades de evangelização e expandindo as para outros locais. Foi também nesse período que se fundou a pastoral da juventude (TLC – Treinamento de Lideres Comunitários) principalmente por ação das irmãs Dorotéias, cuja Casa Provincial ficava no Nordeste.

Com as irmãs surgiu, também, o grupo de mães. Nesse grupo tiveram destaque algumas senhoras (Nedi como presidente; Izabel Caldas; Terezinha Brabo Guimarães; e a missionária leiga Beatriz). Essas senhoras eram professoras, donas de casas comerciais, responsáveis pelos postos de saúde, mulheres de políticos. O padre Manoel Lima Pinho esteve igualmente à frente da fundação, na cidade, das comunidades de bairros. Deixou a Paróquia em 1983.

Com a saída do pároco, a Paróquia passou um longo período sem padre, o Apostolado da Oração, que ainda resistia ao surgimento das comunidades, e mais outros leigos, fizeram uma carta ao Arcebispo de Belém, Dom Alberto Gaudêncio Ramos, solicitando um padre, pois o bispo da Prelazia, Dom Ângelo Rivatto, estava em viagem e não havia destinado nenhum padre para a Paróquia. Em comum acordo com o Bispo da Prelazia de Ponta de Pedras, o Arcebispo de Belém, atende ao pedido dos fiéis católicos de Muaná e convida o Padre Mário, italiano de Lodi68, a assumir a Paróquia de Muaná, em 1985, o que foi aceito imediatamente.

Com o Padre Mário dá se inicio uma nova ação junto às comunidades. O Padre através de um grupo de amigos, encorajados pela senhora Elena, inicia um trabalho de “ajuda às famílias mais pobres”, começando com a distribuição de cestas básicas. Essa ajuda passou a ser nomeada de e o grupo que a realiza é chamado de “Amigos de Lodi”. Após iniciar o trabalho de cesta básica, iniciou a formação de uma associação de moradores que recebem assistência financeira para desenvolver atividades produtivas.

A primeira associação fundada em Muaná, na sede municipal de Muaná chama se Associação dos Miniprodutores Rurais de Muaná – AGROMA, funcionando na estrada Pedro Ferreira, que liga a cidade ao porto do Mocajatuba, sendo solicitada, pelo STR ao grupo “Amigos de Lodi” por intermédio do pároco, uma ajuda financeira para realizarem um 67Os Jesuítas no Pará eram coordenados pela província da Bahia.

68O padre mantém contato com seu lugar de origem o que propiciará a ação no Recreio do grupo “Amigos de

trabalho de produção69. A maioria dos trabalhadores localizados na área dessa Associação foi constituída por imigrantes do rio Atuá, que já tinham alguma inserção no STR de Muaná.

Verifica se, a partir da chegada do Padre Mário, uma inflexão na atuação da Igreja em Muaná, que deixa de ter uma ação mais política de enfrentamento, para assumir uma postura mais evangelizadora e assistencial. Esse assistencialismo, passou tanto pela doação de cestas básicas, quanto pelo provimento de meios para que os trabalhadores pudessem alcançar melhores condições de vida. Algumas outras prelazias, como a do Xingu, continuaram mantendo uma postura de defesa dos trabalhadores rurais diante dos interesses de fazendeiros e capitalistas nos grandes projetos.

Em 1991 o Padre Camilo, gaúcho, assumiu a Paróquia de Muaná. Com o surgimento dessa instância houve uma ampliação das pastorais: Infância Missionária, da Criança, do Dízimo, Vocacional, da Saúde e outras. A ação ficou mais voltada para a formação do indivíduo e de sua participação nas indulgências como cristão.

Com a Diocese passaram a organizar assembléias diocesanas, nas quais são debatidos temas relevantes e que dão origem à criação das pastorais. No Município de Muaná algumas práticas, que com o surgimento das comunidades na década de 1970 deixaram de existir, foram revigoradas. Os santos voltaram a visitar os fiéis de casa em casa ou de povoado em povoado70 e nas fazendas, onde o acesso dos comunitários havia sido impedido nos anos 70. As pessoas vêm de vários lugares, inclusive das fazendas vizinhas que se organizam com antecedência para estarem presentes no momento da visita do Padre.

69Na década de 1970, a Maria José Brabo estuda os trabalhadores da agricultura que ocupavam essa área. Era

imigrante que vieram de outras áreas agrícolas, como Guajará e Rio Atuá. A história da década de 1970 parece repetir agora através da Igreja e do Sindicato de Trabalhadores Rurais – STR de Muaná. Segundo a Nazaré Monteiro, secretaria da AGROMA e do grupo aqui no Brasil, “Como eles não tinham condições financeiras, e com o padre Mario aqui e a Elena que fez o trabalho com a cesta básica, eles pediram uma ajuda pra ela. Naquela época eles foram beneficiados com a ajuda. Eles vendo que tinha muita necessidade, especialmente de água, que não tinha então mandaram fazer um poço artesiano, uma casinha, para os colonos que trabalhavam lá, foi feito assim: a casa, a pessoa chegava, queria trabalhar lá, já se tornava sócia e ganhava casa pra morar perto do trabalho” (Nazaré Monteiro, na cidade de Muaná, entrevista em 17/05/2005).

70 As visitas nas fazendas começam, segundo a Fátima Cobel, “na década de 1990, em localidades em que é

difícil a implantação de comunidades, devido ao impedimento de feitores [é uma espécie de administrador das fazendas categoria utilizada na região], é o jeito nós irmos nas fazendas, ainda, antes do começo das chuvas.... (...) Existe toda uma equipe. Primeiro vão a Naná, a Nono, o Nilson, o seu Antenor [este senhor era um folião que ia com os santos no período que a folia era muito presente no Município, antes da década de 1970], que sempre vai pro Atuá nas visitas e o Padre vai atrás. No mês de novembro, já vai o padre com outra equipe, passando de 8 à 10 dias nas fazendas, onde faz batizados, casamentos (...) por eles serem tão isolados. Começou com o Padre Camilo, depois o Padre Moacir (...) em seguida o Padre Antonio que ficou dando assistência aqui (...). Então já é de costume essas visitas nas fazendas ....”

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No lugar desse entreposto de seringa foi instalada a comunidade do Recreio, cujos atuais moradores negociaram com os antigos donos a permanência na terra. A capelinha do lugar está instalada no terreno do antigo barracão. Por ação do Padre Luís Rossini surgem as comunidades do Alto Atuá. Primeiramente, fundara se a comunidade de Bom Jardim, local de propriedade do senhor Alcindo Mendes Ferreira, funcionando na escola municipal que era atendida pela professora Tereza Moraes. Na mesma estrutura, inicia se a Comunidade Recreio, funcionando, nesse local, por apenas seis meses71. Benedita Conceição Pinheiro, em sua entrevista (29.10.2004), relata em detalhe como se deu a implantação e organização da comunidade Recreio. ; 8 7 " + ; = 7 " " ; " " " - - 4 4 8 - " > " 7 " ? 4 8 ;" 4 8 ? " 3 " @ - " & " ; ) - " " " ? % " ) # 5 - 3$5 $ 4 A ; 5 ; 4 4 5 4 ) .. ? " " $ " " B C ) ; " " " ) @ , # # , D ) # 3 " # & 7 7 & 7 " ; " # 3 # & E " & & @ F E G ) " ) <' C $ G $ H $ D % G & $ , $ G @ &

71Os dados citados estão relacionados a entrevistas realizadas com Maria de Fátima Cobel (19/05/2005), que é

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Nos anos setenta, começam a ser constituídas as comunidades no Município de Muaná. Nos anos de 1980, as comunidades proliferaram em todo o município e também no rio Atuá, chegando ao número atual de 52 sendo 03 na cidade e 48 no meio rural72.

Com muitas comunidades para atender, a paróquia resolveu mapear as áreas de atuação. No caso do rio Atuá, sendo o mais extenso maior rio do Município houve a necessidade de dividí lo em áreas de ação ao longo do seu curso. A setorização do rio foi considerada pelos responsáveis da paróquia como uma maneira de melhor atender os fiéis e facilitar o trabalho dos párocos, principalmente, por serem os padres, em sua maioria, estrangeiros ou de outra região do país e terem dificuldade para se situarem. A Igreja adotou a divisão: Alto, Médio e Baixo Atuá73. Na realidade a identificação dos rios em alto, médio e baixo é de uso comum na Amazônia para os rios de grandes dimensões. Estas divisões no caso do rio Atuá, passou a ser adotada por todos, com a chegada da Igreja da Teologia da Libertação.

72Dados colhidos na entrevista Fátima Cobel, em 19/05/2005.

73Esta divisão é explicada por Fátima: foi dividido assim porque ele [o rio Atuá] é muito longo, no caso, então,

as comunidades Cristo Libertador, Menino Jesus, que são mais distantes lá pro Alto Atuá. Por exemplo, melhora na identificação do trajeto. Médio Atuá, por exemplo, é quando entro no furo, tem Nossa Senhora das Graças, tem o Espírito Santo, tinha o Mariahy, mais acabou. Tem o São Benedito Branco, tem já o Bom Jardim; Para o Alto Atuá já começa a Sagrada Família, tem, também, o São Miguel furo, igarapé São Miguel, depois tem Jaratuba, tem Menino Jesus e São Sebastião das Baratas que chamam, (...) o Recreio tem também no Alto Atuá. (...) Então devido a toda essa dificuldade espacial, foi criada essa divisão para facilitar e ajudar quem não conhece a região, principalmente aos padres que chegam e não estão “por dentro” vão através do mapa que tem o alto o médio e o baixo Atuá. (Fátima Cobel, cidade de Muaná, 19/05/2005).

Essa classificação facilitou a ação da Igreja e trouxe para o contexto local uma forma diferente de conceber o espaço, agrupando os indivíduos por suas identificações de comunitários. Ao separar os grupos por região, a Igreja redefiniu a condição anteriormente estabelecida. A relação dos grupos das comunidades de acordo com os espaços de pertencimento revela uma identificação diferencial com relação aos demais.

Subjacentes às denominações $ e ; há sentidos de

afirmação e diferenciação. Vão aparecer “disposições distintas e coexistentes” desses grupos em relação aos demais grupos da região. Levando em consideração a ocupação histórica de terras na região, Loureiro (1987) identificou as populações que desenvolvem agricultura na região, como aquelas que ocuparam os cursos dos rios em pequenas propriedades “espremidas” entre as grandes propriedades de fazendas de gado e o rio. Até a década de sessenta os “da beira” eram quase invisíveis, uma vez que a identificação de seu espaço se confundia com o das fazendas da região. No caso do antigo “Barracão” este pertencia a um único proprietário, com seus moradores. Com o aparecimento das comunidades os trabalhadores anteriormente invisíveis são claramente localizados no espaço e identificados por meio do nome de sua comunidade, sobrepondo se e se confundindo com um ou mais “territórios de parentesco”.

Com o aparecimento das comunidades, o domínio que antes estava concentrado no poder dos grandes proprietários como donos de mais de 500 hectares, sobre esses trabalhadores, foi sendo aos poucos substituído pela ação da Igreja, que reorganizou os grupos de pequenas propriedades com até aproximadamente 20 hectares e os colocou sob sua orientação. Deve se considerar, que este foi um momento de transformação das relações. A dominação que se reproduz por meio das relações personalizadas agoniza, enquanto as relações que se estabelecem com os representantes dos novos empreendimentos são marcadas, pelo menos de início, pela despersonalização. Nesses interstícios entre as duas formas de dominação, os novos espaços físicos e sociais são criados.

A Igreja, conforme visto, exerce, igualmente, um poder sobre os trabalhadores, mas ao mesmo tempo, fornecem lhes instrumentos para que estes possam incrementar seu capital cultural. Através da ação da Igreja os trabalhadores reorientam suas ações, participando de sindicatos, associações de produtores, cooperativas, conselhos e outras formas de organização74.

O capital econômico reduzido desses grupos tem sido superado pelo aumento no capital cultural ao longo dessas décadas, após o aparecimento das comunidades. Anteriormente o poder era concentrado na figura do pai, mas, por intermédio da ação da Igreja, aos poucos, a juventude passou a tomar decisões nas reuniões comunitárias e reflete nas relações no interior do grupo doméstico. Nesse momento, os jovens assumiram as primeiras coordenações comunitárias, passaram a participar dos STRs e a assumir lideranças.

Para compreender melhor esse processo, tomei como referência para análise a noção de “espaço social” de Bourdieu (2003), entendida como o: “... conjunto de posição distintas e coexistentes, exteriores umas às outras, definidas umas em relação às outras por sua G H e por relações de proximidade, de vizinhança ou de distanciamento e, também, por relações de ordem como acima, abaixo e entre;...” (BOURDIEU, 2003, p.18 9).

De acordo com essa concepção, entendo que os agentes ou os grupos são distribuídos de acordo com sua posição e suas funções são diferenciadas, como os trabalhadores das margens dos rios, que possuem pequena propriedade com agricultura e produtos extrativistas em relação aos grandes proprietários pecuaristas. Estando eles separados e diferenciados por seus capitais econômicos, mas servindo na região de referência para identificação de um com relação ao outro. Mesmo, coexistindo exteriores um do outro e ao mesmo tempo sendo definido a partir um do outro. Segundo Bourdieu (ibid, p.21), “o espaço de posições sociais retraduz um espaço de tomadas de posição, pela intermediação do espaço de disposição (ou " )”. Havendo “um sistema de separações diferenciais”.

Segundo Bonnewitz (2003), o estudo da diferenciação social apresenta duas abordagens sobre as desigualdades sociais que são: uma marxista, que “considera que a sociedade está dividida em classes antagônicas a partir de um critério econômico” e a outra, baseada nas obras de Weber, que “analisa a sociedade em termos de estratos constituídos a partir de três princípios de classificação: poder, prestígio e riqueza”.Bourdieu vê essa diferenciação social como aquela que apresenta “conceitos e instrumentos que permitem não apenas analisar a posição dos grupos e suas relações, mas também compreender a tendência à reprodução da ordem social” (BONNEWITZ, 2003, p. 51 2).

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A categoria comunidade ou definições de comunidade encontrada na área de estudo se apresenta de quatro formas:

1. Comunidade como a “expressão e o desenvolvimento da vontade original, naturalmente homogênea, portadora de vínculo, representando a totalidade” (TOENNIES, 1887, apud BUBER, 1987, p.50). Nesse sentido estou considerando todas as pessoas que estão vinculadas à área estudada e que compartilham dos mesmos interesses comuns. Sejam