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5.3 DID Model

5.3.2 DID Models

Em Galileia, estreia de Ronaldo Correia de Brito no romance e ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura 2009, existe uma série de representações do sertão que abordam, tal qual as

Cidades Invisíveis de Calvino, aspectos diversos desse espaço sertanejo. Assim, o sertão-

estereótipo, oposto ao litoral e ao desenvolvimento socioeconômico, é substituído por um “sertão árido, em movimento”25, onde signos “tipicamente” sertanejos são confrontados com elementos da sociedade globalizada, ao mesmo tempo em que cada personagem elabora o seu sertão particular, como é o caso de Marina, cuja visão do sertão não é a mesma dos personagens nômades, os três primos da nova geração, ou dos velhos tios, eternos habitantes da Galileia.

No caso de Marina, uma acadêmica paulista, o sertão é lúdico e poético justamente por conta de suas particularidades locais que, diferenciando-se do ambiente tipicamente urbano ao qual a personagem estava acostumada, são valorizados positivamente, de tal maneira que até Natan, o “exemplar viril dos Rego Castro” (BRITO, 2009, p.117), entra na lista dos elementos típicos admirados por Marina, que “deslumbrava-se com as cercas de varas, os mandacarus, os papagaios, as cruzes da estrada, os queijos de prensa, os doces de gergelim, o pôr do sol, a lua cheia. Com tantos alumbramentos, encantou-se por Natan, quando o rapaz retornou de uma de suas viagens” (BRITO, 2009, p. 116).

Desta feita, o sertão de Marina enfatiza os aspectos tradicionais do local, ao contrário, por exemplo, da percepção de Adonias que, ao voltar para as terras dos Inhamuns, estranha o sertão híbrido, em movimento entre a tradição e a globalização. Isso fica evidente, por exemplo, na desconstrução da figura do sertanejo, forte e másculo, constatada pelo narrador-protagonista logo no início do livro: “Mulher em motocicleta carrega uma velha na garupa e tange três vacas magras. Dois mitos se desfazem diante dos meus olhos, num só instante: o vaqueiro macho, encourado, e o cavalo das histórias de heróis, quando se puxavam boi pelo rabo” (BRITO, 2009, p.8).

A desconstrução da figura do “sertanejo forte” euclidiano, personagem essencial na caracterização da região, também faz parte da descrição do cenário que, apesar dos fortes vínculos com a tradição, começa a se transformar, desconstruindo os velhos paradigmas. Essa frase, ao início do livro, causa estranhamento em um Adonias profundamente negativo e ansioso. Ao final do romance, a mesma cena é retomada e, dessa vez, valorizada por Adonias: “Duas mulheres tangem o gado numa motocicleta. A mesma cena que vi antes agora me parece

41 graciosa. O poder masculino cede lugar ao feminino. Antônio buzina, aceno com a mão, elas também buzinam e sorriem para mim. São bonitas. O que pensam dos homens? Com certeza já não se escondem na cozinha e nos quartos da casa, atravessam as salas, ganham os terreiros, as ruas, as cidades.” (BRITO, 2009, p.227).

Dessa maneira, se ao adentrar no sertão Adonias afirma a imobilidade do espaço, igual no presente ao que fora no passado, ao fim o próprio protagonista percebe o sertão em transformação. Nesse trecho em específico, o estereótipo do sertanejo cede lugar ao prosaísmo da atividade exercida em motos por mulheres. A modificação do gênero é, em si mesma, uma desconstrução do patriarcalismo sertanejo, que, segundo Adonias, seria responsável pelos modos de vivência no sertão, influenciando desde a violência até o design de móveis, funcionais, mas desconfortáveis e duros26. Não só os modos de execução das atividades rurais modificaram-se, mas a própria natureza dos mesmos. Um exemplo disso é a substituição das “pastagens de gado dos sertões por plantios de maconha” (BRITO, 2009, p.9), fato mencionado por Adonias e também abordado em Árido Movie (2008), um filme que discute, como em

Galileia, a permeabilidade de fronteiras antes representadas de maneira estanque.

Assim, esse sertão é um sertão híbrido na medida em que congrega elementos e costumes tradicionais, contrapostos a signos da modernidade, caso da motocicleta que substitui o cavalo, ou da mulher que substitui o tradicional sertanejo másculo. Esse hibridismo, de difícil assimilação para Adonias no começo do livro, é marcado, sobretudo, pelos meios de comunicação em massa que, ao chegarem nos recônditos do país, influenciam e modificam a cultura e os comportamentos locais, como é o caso da televisão, marca cultural que, segundo a visão inicial de Adonias – também ele em transformação – é incompatível com a vida rural:

Ficamos em silêncio, olhando casas de luzes apagadas, com antenas parabólicas nas cumeeiras dos telhados. Eram bem poucas no planalto extenso, multiplicando-se próximo às cidades. Desejei bater à porta de uma delas, dar boa noite às pessoas, xeretar o programa que assistiam. Não consigo imaginá-las atravessando a porta para os afazeres nos currais e roçados, depois de se intoxicarem de novelas. (BRITO, 2009, p.15)

No entanto, é justamente essa aparente contradição que funda o espaço híbrido do sertão pós-moderno, onde a coexistência de elementos típicos e elementos modernizantes ou externos (caso da introdução do cultivo da maconha) define uma nova representação do mesmo, a qual

26 A mudança que ele verifica nessa cena, assim como a discussão sobre o patriarcalismo, é abordada ao longo do livro em diferentes ocasiões e permite uma série de considerações acerca dos estereótipos humanos no sertão.

42 não opõe sertão versus litoral ou cidade27, mas funde-os em um único espaço cultural, multiregional e multinacional, como nota Santini (2009).

Isso implica, também, em uma homogeneização de valores, no geral disseminados pelos meios de comunicação:

Uma televisão aporrinha meus nervos. Todo boteco possui uma, ligada no mais alto volume. O sotaque brasileiro que se impôs ao restante do país entra pelos ouvidos, contamina o jeito das pessoas falarem, a música de cada região. A nova língua geral do Brasil é esse arremedo de fala que todos copiam. Não há rapaz ou mocinha que não tente falar igual aos artistas da TV, envergonhados por serem diferentes (BRITO, 2009, p.232).

Ou seja, a coerção cultural, que se impõe através dos meios de comunicação, típicos da globalização, é também um modo de violência, pois tenta uniformizar, dentro de suas possibilidades, os costumes, interferindo até na fala, o sinal mais evidente de uma determinada cultura.

No entanto, nesse sertão em transformação, não é apenas a televisão que impõe-se como signo da globalização e meio de sua difusão. A internet começa a ganhar o seu espaço, possibilitando o acesso a uma cultura global, de alcance igualmente mundial. É, portanto, o elemento mais evidente e mais potente da globalização. Inclusive, ao fim do livro, Adonias, observando um grupo de garotos em uma lan house afirma que “Eles chegam com dois reais na mão, o preço do ingresso no mundo” (BRITO, 2009, p.234).

Isso é, mesmo custando caro (cada hora de acesso custa, para um dos meninos, o equivalente a cinco horas de trabalho), a utilização da rede mundial de computadores é a condição de estar no mundo dessa nova geração, sertaneja ou não. Do contrário, não pertencem à sociedade mundial, não têm lugar no mundo, já que a participação na cultura global propiciada pela conectividade, apesar de não ser uma necessidade básica e imediata, é uma imposição das novas relações sociais.

Obviamente, essa cultura transnacional disponibilizada pela internet, assim como os demais meios de comunicação em massa, influenciam e modificam o cotidiano do sertão. O tema da globalização de costumes é abordado diretamente no romance por meio de um diálogo mantido entre Ismael e um dono de bar onde os primos jantam. O taberneiro, ao perceber que Adonias recolhe e protege dois equipamentos eletrônicos de Davi, se defende da desconfiança e conta a história do seu filho, abordando o tema das velhas tradições em confronto com as

27Inclusive, no já mencionado Árido Movie (2008), as imagens de abertura são significativas pois juntam o mar ao sertão.

43 novas tecnologias, inúteis no sertão que, no entanto já não é o mesmo. O taberneiro diz que o celular, cujo roubo foi o motivo da prisão de seu filho, não tem utilidade no sertão por falta de sinal, no entanto, afirma que a globalização, mostrada na TV, faz com que os jovens desejem esses objetos, inúteis, pela simples posse. O taberneiro também comenta que os jovens já não querem mais usar vestimentas típicas28 da região por acharem feias, enquanto ele defende a questão da utilidade como determinante na atribuição de valor aos objetos:

Ele viu na televisão e achou bonito. Agora, os rapazes acham feio vestir roupa de couro, botar um chapéu na cabeça. Estão no direito deles. Mudaram os tempos. Pra que serve vestir roupa de couro, botar chapéu na cabeça, se não tem boi pra correr atrás? Serve apenas pra dançar xaxado, folclore, o senhor conhece. Roupa de couro perdeu o valor porque não tem utilidade. Telefone celular tem utilidade pro senhor, pro seu trabalho. Pra mim não tem, porque não pega (BRITO, 2009, p.38-39).

Poucos cultivam a terra e criam gado (fato evidente também na fazenda Galileia, cuja principal fonte de renda é a fabricação de redes), mas, por outro lado, a globalização do sertão, a sua modernização é paradoxal, uma vez que surge na presença de produtos inúteis para o local ao mesmo tempo em que não se concretiza efetivamente: não há emprego, os jovens migram, não há mais a cultura rural, mas tampouco a urbanização absoluta, um meio caminho difícil de se compreender.

Além disso, discute-se como o típico regional, desprovido de sentido prático, é apenas folclórico, uma vez que os sentidos simbólicos e ideológicos são mantidos, por representarem um aspecto da identidade histórica e cultural da região, responsável, em última instância, por sua diferenciação do restante do país. Assim, há uma discussão que nos remete à construção arquetípica de um sertão meramente resumido às manifestações folclóricas ou às suas condições climáticas.

Todavia, no sertão híbrido, a justaposição de elementos de diferentes campos paradigmáticos configura uma representação multifacetada do espaço cultural, como podemos ver também na caracterização da banda musical que se apresenta no bar: o estilo musical regional, o forró, é executado pela tradicional sanfona, mas também pela guitarra e pelo teclado elétricos e pela bateria, instrumentos musicais usualmente relacionados à música urbana. Além disso, o vocalista usa “três argolas na orelha esquerda, um piercing no nariz e roupa brilhosa”

28A questão da vestimenta típica é mencionada ao longo do livro em várias passagens. Em especial, o uso da bota, defendido por Salomão por ser adequada ao clima e relevo do sertão (Adonias caindo e Ismael comentando o mesmo com Salomão)

44 (BRITO, 2009, p.34), misturando referências musicais e culturais diversas, mas de qualquer maneira quebrando o paradigma e os estereótipos tradicionais de sertão e sertanejo.

Além desse sertão globalizado, vemos personagens típicos dessa modernidade líquida, fragmentados e pós-modernos, sem espaço definido, como o próprio protagonista afirma: “Vago numa terra de ninguém, um espaço mal definido entre campo e cidade. Possuo referências do sertão, mas não sobreviveria muito tempo por aqui. Criei-me na cidade, mas também não aprendi a ginga nem o sotaque urbanos. Aqui ou lá me sinto estrangeiro.” (BRITO, 2009, p.160).

A natureza do protagonista é determinante na apreensão do espaço sertanejo, pois é nesta apreensão que Adonias admite as suas incertezas e deixa clara a sua identidade fragmentada pela pós-modernidade (HALL, 2006), reforçando o aspecto híbrido da narrativa que, também ela, se constrói hibridamente, valendo-se de técnicas literárias e cinematográficas, além da estrutura da seca, que define a sua sintaxe.

O atrito entre referências e valores culturais de espaços diversos e as consequentes sensações de não-pertencimento e de culpa oriundas desse conflito identitário são problematizados no seguinte trecho, no qual o narrador-protagonista discute acerca de sua relação pessoal com o sertão:

- Meu pai exigia que eu memorizasse as plantas da caatinga, por mais insignificantes que me parecessem. Eu recitava os nomes, mas era incapaz de reconhecer as árvores. [...] Recitei os nomes com orgulho da memória, e depois recaí na tristeza. O meu conhecimento me parecia inútil. Nunca o usei em nada. Atravesso os sertões vislumbrando sombras negras, os restos vegetais dessa memória. Carreguei esses nomes como se fossem fantasmas, sentindo-me culpado se os esquecia. Eles eram para mim como os mourões dos currais arruinados, sem uso desde que se esvaziaram de vacas e touros; troncos solitários, teimando em ficar de pé no planalto sem pastagens, sem rebanhos, sem gente. Consternado, lembrei da família. Ela ainda se agarra à terra que já foi rica e assegurou poder, e hoje sobrevive como um criatório de gente que, mal nasce, vai embora (BRITO, 2009, p.12).

Nesse trecho, Adonias novamente associa o espaço e as memórias deste à morte, reiterada por duas figuras: os “restos vegetais” e os fantasmas, criando um paralelismo que retoma e reitera as frases que abrem o romance. Também nesse trecho vemos nitidamente a associação entre as memórias e a psicologia do personagem e a descrição do cenário, uma vez que o narrador afirma a relação direta entre o seu estado psicológico e o modo como ele lê o cenário, caracterizado pelas sombras, símbolo universal de aspectos negativos, grotescos e de falta de visão. Além de um passado lúgubre, vemos uma série de figuras relacionadas a restos

45 de uma realidade, à qual ele não pertencia no passado, sendo que, no presente nem mesmo as árvores existem, cortadas para dar passagem à autoestrada (BRITO, 2009, p.8). Assim, o referente, para Adonias é totalmente desprovido de significado, se tornando um fantasma realmente, uma vez que o “mundo” sertanejo existe apenas retoricamente para ele, distante como se pertencente ao plano das ideias.

Essa fala de Adonias é parte de um diálogo mantido com Ismael, cuja ideologia difere de maneira exatamente proporcional à de Adonias, gerando um conflito psicológico que se externaliza de maneira passional, culminando em assassinato, conforme veremos. De qualquer maneira, nesse diálogo, ocorrido no início da narrativa, os dois primos tentam lembrar nomes de plantas e pássaros típicos da região, descrevendo as mesmas de maneira indireta, mas definitivamente individual:

Ismael exultou com a minha lembrança. Gritando, bateu as mãos no volante. A memória comum nos aproximava, refazia laços que eu imaginava desfeitos./ - Adonias, eu vou dizer os nomes das árvores que conheço. Sei detalhes das folhas, dos troncos e da floração de cada uma delas. Não pense que essa lembrança é inútil. Ela me serviu muito, no tempo que fiquei preso na Noruega. Quando não tinha nada o que fazer, eu imaginava a floresta, as plantinhas mais bestas. Escrevia os nomes num caderno, desenhava as flores e chorava arrependido do rumo que dei à minha vida. Só desse jeito eu aliviava a depressão (BRITO, 2009, p.13).

O diminutivo “plantinhas” em conjunto com o adjetivo, teoricamente pejorativo, “mais bestas”, demonstra a noção de pertencimento de Ismael ao espaço circundante, pois enquanto Adonias cita nomes, mas não consegue reconhecer árvores e pássaros e nem mesmo diferenciar os tipos de vento típicos da região, Ismael sabe cada detalhe da fauna e flora da região sertaneja, de tal maneira que a imagem acústica, o referente linguístico, tem o seu correspondente em um objeto do mundo natural. Para Adonias, as palavras são vazias, porque ele não consegue relacionar o referente ao significado. Ismael, por outro lado se sente pertencente ao sertão – ainda que renegado na família – de tal maneira que a sua presença no mundo é realmente mediada por esses referentes, que fazem sentido para ele, como vemos pela sua reação e pela sua aceitação da proposta que, algumas frases antes, Adonias havia feito, sugerindo que eles tentassem se lembrar dos nomes das plantas. Assim, enquanto Adonias tenta se lembrar dos nomes das plantas, Ismael vai tentar preencher essas imagens acústicas com significados, descrevendo para Adonias a floração, folhas e troncos de cada uma delas.

Ou seja, para Ismael as imagens acústicas cumprem o seu papel linguístico, permitindo que os objetos sejam apreendidos conceitualmente, diminuindo a distância entre si e aquilo que

46 não se pode possuir literalmente, a realidade, por ser exterior ao próprio corpo. Por dominar o código referente ao sertão, Ismael consegue negociar valores típicos e comunicá-los e, não por acaso, Adonias o define como o mais conservador dos primos, o único com a “solenidade sertaneja”. No entanto, para ambos os primos a tentativa de recordar os nomes de plantas e pássaros é um “ardil” para fugir da realidade circundante e, no caso de Adonias, da ansiedade que o consome, como o próprio narrador-protagonista afirma (BRITO, 2009, p.20), sendo que a relação dos dois é de oposição diametral, o que significa que, de alguma forma, eles se complementam.

Ao fim do livro, quando Adonias já passou pelas suas transformações, ele tem uma conversa semelhante sobre passarinhos com Antônio, o motorista que o levará para o aeroporto a fim de voltar para o Recife:

Não quero o Recife. Ao lado do avô e dos parentes só pensava em voltar para casa. Agora prefiro esse espaço neutro, um caminho que me leve a lugar nenhum./ - Escutou esse?/ - O quê?/ - O canto./ - Que canto?/ - O senhor pediu para eu desligar a música, queria ouvir os pássaros./ - Ah, desculpe! Era o quê?/ - Um cabeça-vermelha./ - Não ouvi./ - Vou parar o carro. Aqui tem muito passarinho./ Repito a lição de meu pai, os nomes decorados na marra. Antônio arrasta-me para o meio do mato e ficamos escutando./ - Você conhece muitos passarinhos e árvores. Tem alguma utilidade saber essas coisas?/ - Nunca pensei nisso. Conheço porque nasci e me criei aqui./ Quanto mais queimo debaixo do sol, e olho o planalto sem futuro, mais desejo não voltar para o Recife. (BRITO, 2009, p.228)

Nesse trecho, vemos a falta de pertencimento do narrador, que prefere um lugar neutro, um lugar sem os valores expostos nos dois paradigmas. Talvez o que ele espere é um pertencimento ao natural, talvez tido como neutro. Além disso, vemos novamente um paralelismo estrutural e temático, uma vez que esse diálogo lembra tanto a conversa inicial com Ismael quanto a que precede a tentativa de assassinato do último.

Ao retomar a questão sobre a utilidade de saber os nomes de passarinhos e árvores, Adonias é exposto àquilo que desconhece, a naturalidade do familiar e do pertencimento, pois Antônio não concebe a existência de uma utilidade possível para o conhecimento, mas revela ao protagonista que o mesmo é fruto de um pertencimento a determinado local e cultura, algo distante que Adonias desconhece, sempre perdido entre dois polos. Já Antônio deixa explícita a sua relação com o lugar, ele conhece os nomes porque, tal qual Ismael, fazem parte de seu repertório cultural, logo, têm a ver com a sua percepção do seu mundo. Isto é, os passarinhos são parte integrante de sua realidade, fato que ele percebe como lógico, natural, ao contrário de Adonias.

47 Dos primos que retornam juntos à Galileia, Davi, o terceiro dos “três vaqueiros desgarrados” (BRITO, 2009, p.135), é aquele que nem sequer tenta lembrar de nomes ou das plantas e admite, desde o começo ser “analfabeto no assunto” (BRITO, 2009, p.13) e não distinguir “mangueira de mamoeiro” (BRITO, 2009, p.12). Durante a viagem, ele constantemente mexe em eletrônicos, como é o caso do computador em que escreve na Galileia e do joguinho eletrônico com o qual se diverte no caminho para a fazenda, negando por absoluto interagir com o cenário ou reconhecê-lo.

Desse modo, em relação à adesão ao ambiente sertanejo, temos em lados extremos Ismael e Davi, sendo que Adonias está a meio caminho de cada um dos lados, resultando na sua parcela de crise identitária e de despertencimento. Ismael e Davi também são sujeitos pós- modernos, divididos entre espaços, mas em Adonias a desterritorialização se dá em termos de sertão versus não sertão. Isto é, Adonias é uma personagem avessa ao sertão, mas que, de alguma maneira se identifica, ainda que às avessas, com o espaço. Para Davi, por outro lado, a sensação de não pertencimento absoluto a um local geográfico implica no binômio nacional

versus internacional29. Ele é o contraponto total ao irmão, o “civilizado” por excelência, músico, com traços que não lembram a agressividade comumente atribuída aos índios, cujas características físicas e sinais culturais (marcas tribais, tatuagens, etc.,) são visíveis em Ismael, para quem a situação é mais complexa, pois ele vê o sertão até mesmo nas paisagens gélidas da Noruega. A desterritorialização de Ismael é muito mais literal que metafórica, haja vista a sua expulsão da Galileia, por exemplo, e as origens kanela, inscritas literalmente em seu corpo, seja por meio da genética, seja por meio das intervenções estéticas-culturais.