Segundo Druck (2009) a descartabilidade das pessoas, a insegurança, a desvalorização pela precarização dos vínculos aprofundam o processo de coisificação das relações humanas, levando à “banalização da injustiça social”. Fragilizando o reconhecimento social e a valorização simbólica, a auto-estima é minada, sendo atingidas as identidades individual e coletiva, a dimensão ética e a dignidade humana.
Ou seja, no processo de construção e reconhecimento das identidades individual e coletiva torna-se mais complexo o estranhamento do trabalho, as mediações que são encontradas nessa relação, aparecem ocultas para a classe trabalhadora ocultas ou ainda mais difíceis de serem identificadas.
Todos estes apontamentos que traduzem a realidade do mercado de trabalho e a realidade social das relações nesse espaço apontam e fortalecem técnicas de gerenciamento, elevam a competição entre os empregados reforçando o individualismo, como podemos perceber na fala abaixo.
A gente faz um atendimento independente do vínculo da empresa. Por exemplo, o funcionário está com depressão, se eu detectar que a depressão pode estar vindo do trabalho, a nossa orientação é que ele não continue na empresa mas que ele procure algo para o bem estar dele, a gente traz essa reflexão. Eu não tenho que pensar somente no lado da empresa, tenho que pensar primeiramente nele. Então a questão no atendimento, por mais que a gente tenha sido contratada pelo cliente temos que prezar pelo bem estar do funcionário. Acho que essa questão aqui na consultoria é muito bem pontuada...que é importante o bem estar dele...não vou dizer para ele continuar mesmo no estado que está porque a empresa precisa que ele produza. Não, você tem que procurar o seu equilíbrio, na sua família, na sua casa...e o mercado de trabalho, se ele achar que é o caso, o mercado de trabalho está aí, se ele desejar voltar para ele, acha que aqui não está suficiente, acho que a pessoa tem que trazer isso para a reflexão e não só ficar vinculada a empresa naquela situação. Nós não damos suporte na busca de vaga de emprego no mercado, aí a gente faz orientação para ele, faz todo um processo de reflexão e ele chega a conclusão do que é bom para ele. (ALECRIM)
A partir da fala da entrevistada e de acordo com a ideia de Giovanni Alves (2010) da captura da subjetividade do trabalhador, vale questionar se
este sujeito do caso relatado acima conseguirá realocação no mercado; se vai arriscar um vínculo empregatício devido a uma insatisfação. Há possibilidade de encontrar um momento pleno de sentido ou felicidade em outra ocupação na qualidade de empregado?
Estar fora do trabalho no universo do capitalismo vigente significa “desefetivação, desrealização, brutalização ainda maiores do que aquelas já vivenciadas pela classe [que encontra-se empregada]”. (ANTUNES, 2009, p.176)
Segundo esse autor, o maior desafio da classe trabalhadora, no mundo atual e sob as condições tratadas, é soldar os laços de pertencimento de classe existentes entre os diversos segmentos que compreendem o mundo do trabalho, e isso ficou explícito na fala das profissionais entrevistadas.
Indicar como alternativa o mercado é esvaziar a discussão e possibilidades de enfrentamento da relação desigual do mundo do trabalho, pois a condição de “felicidade” no emprego não vem com a troca do mesmo.
Alves (2010) trabalha a noção de “captura da subjetividade” do trabalhador apontando o caráter manipulatório e o respectivo poder da ideologia no atual estágio do capitalismo, com os seus rebatimentos sociais para a classe trabalhadora como um todo.
A ideologia sob a sociedade de classes (e a sociedade burguesa é a forma histórica mais desenvolvida de sociedade de classes) tende a assumir, cada vez mais, um caráter manipulatório. A forma mercadoria e seu fetichismo, que se dissemina sob a sociedade capitalista, a mais desenvolvida sociedade mercantil da história humana, tende, por sua vez, a ocultar a natureza da manipulação... (ALVES, 2010, p. 43-44) A “captura” da subjetividade do homem que trabalha é uma escolha pessoal alienada, sendo um tipo de servidão voluntária de agentes/sujeitos de classe. Ela opera um nexo psicofísico de novo tipo que implica dimensões inconscientes e pré- consciente da alma humana. Enquanto efeito do trabalho ideológico, a “captura” da subjetividade do homem que trabalha significa a despersonalização do trabalho vivo por meio de dispositivos de desconstrução da pessoa humana (como, por exemplo, os processos sub-reptícios de culpabilização da vítima). (ALVES, 2010, p. 45)
A partir da fala do compromisso com os clientes, podemos observar a ideologia da excelência, conforme Seligmann-Silva (2011), que constitui uma
tecnologia de mascaramento para a superexploração e invasão do espaço privado do trabalhador, como é o caso da prestação do atendimento 24h pelo plantão telefônico quinzenal.
Em um determinado momento, o trabalhador deve ter a sensação de que deixar a sua casa ou atividades privadas para atender um caso devido a um plantão, que é oferecido as empresas durante 24hs, não tem preço, pois “o sentido do tempo está inserido numa dimensão qualitativa e quantitativa, e assim se organizam as prioridades da organização social”. (ANTUNES, 1999, p. 172)
A discussão da jornada de trabalho ultrapassa o imediato, pois se relaciona com a reflexão sobre o tempo, o tempo de trabalho, o tempo livre, o autocontrole do tempo e a luta por uma vida com sentido fora do trabalho.
Ainda segundo o autor, “pode- se articular a ação contra o controle opressivo do capital no tempo de trabalho e contra o controle opressivo do capital no tempo de vida” (ANTUNES, 1999, p. 172).
Os próprios clientes saem na vantagem na medida em que oferecem aos seus funcionários atendimento 24hs, quando eles precisarem e em situações emergenciais. É o discurso de que “nos preocupamos com vocês, mesmo quando está fora do seu horário de trabalho”, mas há alguém por trás desse atendimento que está atrelado à relações flexíveis da contratação da força de trabalho e esse alguém é uma Assistente Social.
A percepção do próprio cansaço e do isolamento, juntamente com a inexistência do reconhecimento, leva cada assalariado a vivências profundas de insegurança. Dessa forma, esses modos de gestão tornam-se desgastantes e fomentam o crescimento da incerteza e do medo quanto ao futuro. (SELIGMANN-SILVA, 2011, p. 468)
A questão da falta de reconhecimento, a partir da percepção das profissionais, não foi identificado por elas, que elogiaram a gestão da consultoria, com ponto forte para o conjunto de trabalhadores como um suporte mútuo à equipe.
[...] todo suporte é dado, na questão da carga horária é bem tranquilo, no suporte das supervisoras, nós somos consultoras, mas temos uma supervisão, então todo este apoio é dado, todo esclarecimento, todo o material. Não tenho problema nenhum,
são boas condições, não tem diferença das empresas que eu passei, mesmo sendo consultora, a gente tem toda a assistência. (ALECRIM)
O sistema de supervisão ou reuniões, apontado pelas entrevistadas, permite que os trabalhadores contestem e discutam os problemas mais frequentemente encontrados, propondo soluções que podem ou não ser adotadas pela consultoria. Porém o objetivo das empresas é o de minimizar a dimensão dos conflitos e buscar aproveitar as divergências como potencial criativo para a elevação da produtividade.
Esse suporte é observado a partir da supervisora que o identifica como suas atribuições:
Acompanho todos os atendimentos, praticamente realizo os atendimentos juntamente com a profissional, tiro dúvidas, dou orientações, buscamos recursos para auxiliá-las nos atendimentos...Eu falo que eu trabalho na supervisão não com a intenção de fiscalizar, mas para apoiar a consultora em suas diversas necessidades, na verdade eu penso que fundamentalmente eu trabalho para integrar a equipe para que exista esta união para que quando tenha os atendimentos haja uma troca de experiências, que um apoie o outro, isso é fundamental para que o trabalho de equipe seja realmente bem feito. Tenha eficácia. É basicamente esse o nosso trabalho. Não existe uma rotina, mas eu tenho como foco isso, para que elas façam um bom trabalho eu preciso também estar muito disponível para orientá-las. E também tenho que buscar muito conhecimento para poder estar a disposição delas. (MARGARIDA)
A ideia da precarização parece oposta à ideia do envolvimento dos empregados com os objetivos das empresas que competem entre si a médio e longo prazo. É a captura da subjetividade do trabalhador na aparência do discurso de comprometimento total, são novas ideologias fabricadas, é um processo de persuasão e sedução, de disciplina no trabalho.
Nesse movimento torna-se um diferencial para a empresa reconhecer seus trabalhadores. Isso os aproximam do ambiente empresarial de forma a capturar suas subjetividades na direção da reafirmação da ideologia desta empresa.