Conclui-se, portanto, que o planejamento de um corpus é fundamental ao ensino/apredizagem de uma língua, pois um corpus “vivo” e funcional facilitará o processo de aquisição linguística.
A próxima seção foi incluída como subtópico do planejamento linguístico, pois trata dos critérios adotados para organizar ou planejar a apresentação dos grafemas que compõem uma ortografia, ou seja, apresenta que critérios são utilizados para se organizar um livro cujo objetivo é apresentar de maneira didática o sistema ortográfico de uma língua.
1.2.3. Planejamento da apresentação de sistema de escrita: alfabetização
Segundo Correa (1995, p, 20), para facilitar o processo de alfabetização em uma língua, três fatores são importantes na programação do material a ser usado: “os elementos do sistema fonológicos, que são substituídos por sinais gráficos; o material linguístico utilizado como meio de transferir tais elementos; e os critérios na organização do material linguístico” para preparação de um livro didático. (grifos da autora)
Segundo a autora, entre os elementos de transferência do sistema fonológico para o gráfico, há dois elementos a serem considerados: primeiro, “sequência temporal da fala para a sequência espaço direcional da escrita; e segundo, a forma sonora da fala para a forma gráfica da escrita.” Quanto ao primeiro elemento, é necessário chamar a atenção do aprendente à maneira como os elementos linguísticos se dispõem na área visual, por essa disposição ser arbitrária, a direção é um assunto que requer treinamento. Já em relação ao segundo elemento, é importante entender que o sistema ortográfico varia de acordo com as operações fonológicas.
A autora faz críticas aos materiais didáticos que apresentam as letras sem qualquer preocupação de relacioná-las ao fone que cada uma representa, “como se fonemas e letras tivessem valores estanques; o grau de simplicidade nessa relação também não é considerado.”
40 É importante que o elemento a ser ensinado seja apresentado de forma contextualizada. Contudo cada texto deve servir apenas à transferência de uma letra ou mais especificamente de um elemento linguístico, como a organização espaço direção da escrita ou ainda a paragrafação. A introdução de textos, frases ou palavras-chaves devem ser criteriosas e respeitar o grau de complexidade dos padrões silábicos e as mudanças fonológicas que estas podem promover. Outro cuidado que se deve ter diz respeito à escolha do léxico, o qual deve estar de acordo com o vocabulário do aprendente.
Quanto à ordem de apresentação dos elementos em um material didático, Corrêa (idem) afirma que devem ser apresentados primeiro aqueles que estão em uma relação de contraste. Por exemplo, o ensino do valor de “ç”, já tendo-se ensinado o “c” diante das vogais “a”, “o” e “u”, deve ser feita em posições contrastantes, como em faca/faça.
Silva (apud Corrêa, 1995, p.23) formula regras de equivalência entre o sistema fonológico e o sistema ortográfico e explica que nessas regras se chama de fone o elemento fonológico que se distingue pelos traços fonéticos mais relevantes. Desta forma, conclui que as letras que devem ser ensinadas primeiro são as que mantêm entre fone e letra uma relação biunívoca, ou seja, um único fone se relaciona a um símbolo ortográfico. Em português, as letras “p” e “b” são exemplos dessa relação de um para um.
O segundo grupo de letras que deve ser trabalhado na alfabetização é designado de representação cruzada. A esse grupo pertencem os fones que são representados por mais de uma letra, por exemplo, a semivogal [j] que pode ser representado tanto pela letra “i” como pela letra “e”, como nas palavras boi e mãe. Ainda a esse grupo pertencem as letras que representam mais de um fone. A letra “e”, por exemplo, pode representar o[i], o [j] ou o [e].
Segundo Correa (idem), essas relações cruzadas de representações, uma letra representando vários fones e um fone representado por várias letras, aumentam o grau de complexidade do processo de ensino aprendizagem da leitura e da escrita. Por esse motivo,
41 devem ser apresentadas depois das que possuem uma relação biunívoca, além disso é imprescindível apresentar cada uma das variações de forma sistemática, contudo completa, ou seja, deve-se apresentar, por exemplo, os múltiplos fones que a letra “e” pode representar e se esse fator é determinado ou não pelo contexto, caso seja, apresentar esses ambientes de maneira sistemática, um em cada aula ou lição.
Lemle (1987 apud Correa, 1995) enumera cinco conhecimentos básicos necessários ao aprendizado da leitura e da escrita: o primeiro é capacidade de compreender a relação simbólica entre as letras e os sons da fala; o segundo é a habilidade de perceber as distinções entre as letras; o terceiro diz respeito à capacidade de ouvir e ter consciência dos sons da fala, identificando suas diferenças relevantes; o quarto é a capacidade de diferenciar as unidades que são palavras na corrente da fala e o quinto está relacionado à habilidade de reconhecer sentenças. Esse conhecimento é indispensável ao professor alfabetizador, pois se este não conhecer a estrutura da rede de relações simbólicas entre escrita e fala, o processo de alfabetização será duplamente complicado.
Além da organização das letras de um livro de alfabetização, que é estabelecida por meio do conhecimento fonológico de uma língua, há também outro aspecto de suma importância em um material de cunho alfabetizador: a presença de textos no material didático . Segundo Corrêa (idem, p. 26) “a identificação do significado não requer a identificação prévia das palavras, mas onde a sequência de palavras faz sentido”, ou seja, o contexto é um facilitador para a construção dos sentidos.
Em muitos casos, na alfabetização se adota o método denominado de sintético, isto é, há primeiramente a identificação da letra para depois se chegar à palavra ou à frase. Ou então, adota-se o método analítico, no qual parte-se de uma palavra ou frase para se chegar à unidade mínima de significação. Nesses casos, os símbolos aparecem isolados ou em frases soltas, cuja descontextualização se dá em dois níveis: primeiro, os enunciados ou palavras não
42 pertencem ao mundo do aprendente e segundo, representam apenas um fragmento de um todo, no qual o sentido das palavras fica perdido, pois, segundo Smith (apud Correa, p. 30):
É o texto que constrói e reconstrói a realidade da criança, que lhe dá elementos de um sistema, onde ela pode alcançar as relações e tirar-lhes os sentidos. É o texto o facilitador da identificação das palavras, permitindo sua leitura imediata, através de pistas contextuais, satisfazendo o interesse do leitor, que pode estar procurando palavras ou letras Os textos podem ser construídos e/ou recriados, com o auxílio dos alfabetizandos.
Conclui-se, assim, nesse tópico que a apresentação de sistema de escrita deve obedecer a critérios linguísticos, que determinam que essa apresentação ocorra sempre considerando-se o grau de dificuldade na relação entre letra e som, como também sobre o valor imensurável da utilização de textos na alfabetização, já que toda comunicação é feita por meio de textos.
Na próxima seção, mostrar-se-á em que consiste o planejamento da aquisição de uma língua bem como o valor desse planejamento à aquisição.