A sobrevivência de uma pessoa com algum tipo de deficiência nos grupos humanos primitivos era, na realidade, impraticável, porque o ambiente físico se mostrava muito desfavorável e essas pessoas representavam, com efeito, um fardo para o seu grupo social. Possivelmente, não conseguiam sobreviver, pois não havia abrigo satisfatório para os dias de calor insuportável e as noites de frio intenso. Não existia, da mesma forma, comida em abundância e, assim, precisavam caçar para garantir a alimentação diária eguardá-la para a época do inverno, porque, ainda, não se plantava para o próprio sustento. As tribos se formaram e, com elas, a preocupação em manter a segurança e a saúde dos integrantes do grupo para a sua sobrevivência. Só os mais fortes resistiam e as crianças deficientes eram, frequentemente, abandonadas (CARMO, 1991; GUGEL, 2007).
Ao longo da História, observa-se que a pessoa surda vem sendo excluída por ser considerada doente, principalmente pelo fato da surdez ser considerada uma doença, e, como tal, ser curada. Essas situações levaram ao surgimento de teorias, estudos e métodos
educativos direcionados para o desenvolvimento pleno dos potenciais cognitivos, linguísticos e sociais desses indivíduos, na tentativa de suprir a sua limitação sensorial.
A História da Educação de Surdos tem seu primeiro registro na Idade Moderna no final do século XV e início do século XVI, promovida e oferecida por ouvintes que tentavam ensinar aos surdos. Destacam-se como educadores: o médico italiano Girolamo Cardano (1501-1576), que, por ter um filho surdo, passou a investigar um método que usava a linguagem escrita e os sinais, demonstrando maior interesse pelo estudo do ouvido, nariz e cérebro. Ainda no século XVI, o Imperador Justiniano (482-565), em Roma, elaborou o Código Justiniano, que tinha como base legal o direito à herança apenas para pessoas que adquiriam a surdez por doença ou acidente, no entanto, as que nasciam surdas não podiam fazer testamento ou herança (GÓES, 2002; GOLDFELD, 2002; GUARINELLO, 2007; SÁ, 1999; SOARES, 1999).
Considerado também como um dos grandes educadores, Ponce de Léon (1520-1584), monge espanhol, criou uma escola com professores surdos, educando os alunos com o uso de leitura labial e treinamento de voz, além dos sinais. Desenvolveu um dos primeiros alfabetos manuais, que incluía datilologia (alfabeto manual) e o estudante aprendia a soletrar (letra por letra) toda a palavra utilizando o tato e a visão. Adotava também a leitura, escrita e oralização. Ensinou quatro surdos, filhos de nobres, a falar grego, latim e italiano, como também conceitos sobre física e astronomia (GÓES, 2002; GOLDFELD, 2002;GRÉMION, 1998; GUARINELLO, 2007; SOARES, 1999).
Bonet (1579-1633), também se destacou na educação de surdos da corte espanhola, contribui com a publicação da "Reducción de las letras y arte para enseñar a hablar a los mudos", o primeiro livro sobre educação de surdos, que tratava sobre o alfabeto manual criado por Ponce de Leon. Fez outras publicações, como Chirologia (1644), o primeiro livro inglês sobre língua de sinais e o livro Philocopus (1648), que contém a afirmação de ser a língua de sinais capaz de expressar os mesmos conceitos da língua oral. Considerado um dos mais antigos defensores da metodologia oralista e um dos precursores do oralismo, iniciava o processo pela aprendizagem das letras do alfabeto manual, passando ao treino auditivo, à pronúncia dos sons das letras, depois às sílabas sem sentido, às palavras concretas e às abstratas, complementando, com as estruturas gramaticais, o domínio da leitura, escrita e o alfabeto digital.Acreditava que, ao final de todo esse processo,o surdo estaria pronto para falar (GOLDFELD, 2002; GRÉMION, 1989; GUARINELLO, 2007).
O primeiro livro em inglês sobre língua de sinais, chamado Chirologia, foi publicado, em 1644, por Bulwer (1606-1656). Entendia que os surdos deveriam primeiro aprender a ler e escrever para depois falar, e, assim, facilitar a aprendizagem da leitura labial. Publicou Philocopus, seu segundo livro, no qual afirmava que a língua de sinais era capaz de expressar os mesmos conceitos que a língua oral/auditiva (GUARINELLO, 2007).
Seguindo a teoria da fala e da linguagem, na Inglaterra, em 1650, o reverendo Holder (1616-1698) priorizava o ensino da fala e Wallis (1616- 1703) fazia uso do alfabeto manual para pronunciar as palavras em inglês. Ensinou dois surdos a escrever e utilizava a escrita como meio de instrução. Por esse motivo, foi considerado o pai do método escrito de Educação de Surdos.
O sistema de datilologia, em que as letras são representadas pelo apontar de uma mão e partes da outra, foi descrito na metade do século XVII (1626- 1687) pelo escocês Dalgarno (1626-1687). Na sua declaração, afirmou que os surdos tinham o mesmo potencial para aprender que os ouvintes, desde que recebessem uma educação adequada e o acesso à datilologia desde pequeno.
A Educação obrigatória para o surdo foi defendida pelo alemão Keger, em 1704 (século XVIII) e, posteriormente surgiram e foram divulgados diferentes métodos de ensino. O método de ensino utilizado por Keger, em suas aulas, consistia em usar a escrita, a fala e os gestos.
Como seguidor das ideias de Bonet, o espanhol Rodrigues Pereira (1715-1780) priorizava a fala e proibia o uso de gestos durante a comunicação oral e escrita. Utilizava o alfabeto digital e, como tinha fluência na língua de sinais, usava-a para comunicar-se com seus alunos durante as instruções, explicações lexicais e conversação (GUARINELLO, 2007).
Em 1760, Michel de L’Épée (1712-1789), conhecido como Abbé de L’Épée, criou,na França, a primeira escola para surdos do mundo, o Instituto Nacional para Surdos-Mudos de Paris, acolhendo todos os surdos, independente do seu nível socioeconômico. Desenvolveu o método para a língua gestual, que serviu como base para a língua de sinais americana e outras línguas de sinais mundiais. Convivendo com os surdos que viviam nas ruas de Paris, aprendeu a língua de sinais e criou os Sinais Metódicos publicado no Instruction de sourds et muets par la voix des signes méthodiques, uma combinação da língua de sinais com a gramática da língua oral francesa e com o alfabeto digital, com o qual os surdos foram capazes de ler e
escrever adquirindo uma instrução. Foi o primeiro a considerar que os surdos tinham uma língua (LULKIN, 2011; GÓES, 2002; GOLDFELD, 2002; GRÉMION, 1989; GUARINELLO, 2007).
Adotando a base da filosofia oralista, na Alemanha, Heinicke(1729-1790) propôs o método oral utilizando apenas a linguagem oral na educação do surdo e rejeitando a língua de sinais. Contava com o apoio de inúmeros seguidores que acreditavam na possibilidade do surdo fazer parte do mundo do ouvinte. Fundou a primeira escola de ensino para surdos em Leipzig, na Alemanha, adotando exclusivamente, o método oral, embora, algumas vezes recorresse a sinais gestuais (GOLDFELD, 2002; GRÉMION, 1998; GUARINELLO, 2007).
L’Épée difundiu seu método até em praças públicas e, nas demonstrações, seus alunos
deveriam responder duzentas perguntas sobre religião em francês, latim e italiano, bem como, fazer os sinais de duzentos verbos. Já Heinicke não divulgava o seu método oralista, restringindo-se a trocar cartas com l’Épée, defendendo sua ideia, o que ocasionou o início de uma polêmica entre a língua de sinais e a tendência oralista. Quando submetidas à análise da comunidade científica da epóca, l’Épée teve melhores argumentos e, diante dos resultado, Heinicke teve que fechar a sua escola (GOLDFELD, 2002; GUARINELLO, 2007).
O apogeu da educação dos surdos aconteceu no século XVIII durante a disseminação de escolas para surdos e o emprego da língua de sinais entre os professores surdos, o que possibilitou a aprendizagem e o domíniode diversos assuntos, como, também, o exercício de várias profissões. Mas, com a predominância do oralismo nas escolas, os surdos ficaram submetidos à língua majoritária dos ouvintes e à exclusão da língua de sinais na sua educação. Compactuando com as ideias de Heinicke, o médico francês Itard (1774-1838), considerado um dos pais da otorrinolaringologia moderna, publicou Traité des maladies de l’oreille et de l’audition, no qual afirmava que os surdos poderiam aprender desde que pudessem falar. Com esse pensamento, na tentativa de conseguir devolver a audição para as pessoas que não podiam ouvir, fez uso de diversas práticas médicas, dentre as quais, aplicação da eletricidade no ouvido de alguns alunos do Instituto de Surdos de Paris e colocar sanguessugas no pescoço de outros, para que, a partir do sangramento ocasionado pelos cortes na tuba auditiva,os alunos pudessem ouvir. Sem conseguir nenhum resultado satisfatório, Itard concluiu que a Medicina não poderia curar a surdez, deduzindo, de maneira fatalista, que o ouvido de uma pessoa surda estava morto (GUARINELLO, 2007).
Acreditando no potencial do surdo e dotado de uma visão pedagógica, o francês Bébian (1789-1839), em 1822, resolveu se dedicar a aprender a língua de sinais com os alunos surdos do Instituto de Surdos de Paris. Teve a iniciativa de escrever o livro Mimographie,
considerado como a primeira tentativa de transcrição da língua de sinais e lançou a ideia de que a língua de sinais deveria ser usada, em sala de aula e ministrada por professores surdos (GUARINELLO, 2007).
Por volta do século XVII, não havia escolas para surdos e, para suprir essa carência, as famílias ricas contratavam tutores para serem responsáveis pela educação dos seus filhos. Nessa função, Gallaudet (1787-1851), aceitou ser tutor de uma vizinha surda, adotando o livro de Sicard (1742-1822), sucessor de l’Épée, como material pedagógico. Para uma maior aprendizagem na área da surdez, o pai da sua aluna o enviou à Europa com a finalidade de conhecer os diferentes métodos de educação dos surdos e participar de uma conferência de Sicard em Londres. Ao retornar aos EUA, vem acompanhado por Clerc (1785-1869), discípulo de Sicard e um dos melhores alunos de L’Epeé, como um dos primeiros professores surdos, educado no Instituto de Surdos de Paris, para juntos criarem a primeira escola pública para surdos nos EUA (GOLDFELD, 2002; GUARINELLO, 2007).
O Connectitcut Asylum for the Education and Instruction of Deaf and Dumb Persons, implantadoem Washington, em 1894 passoua chamar-se Gallaudet College, em homenagem a Gallaudet (1787-1851), posteriormente, transformado em Universidade Gallaudet, atualmente, considerada como referência internacional para estudantes surdos. Começaram por ensinar o
método adotado por L’Epeé, com uma mescla de Língua de Sinais Francesa (LSF),
francês gestualizado e de inglês; acabaram por optar pela Língua de Sinais Americana (ASL), apoiando-se na concepção de que os surdos faziam parte de uma comunidade minoritária, que deveria fazer uso do bilinguísmo. Atualmente, as universidades que existem direcionadas para surdos são a Gallaudet e Tsukuba College of Technology, no Japão (GOLDFELD, 2002; GRÉMION, 1998; GUARINELLO, 2007).
Com a proliferação do uso de exercícios auditivos para aprendizagem da fala e a morte de Clerc (1785-1869), diminuiu a importância dada à língua de sinais, aumentando, o número de profissionais defensores do oralismo nos EUA. Um dos mais importantes oponentes do oralismo foi Graham Bell (1847-1922), inventor do telefone, que tinha mãe e esposa surdas. Com a invenção do telefone, foi considerado um gênio da tecnologia, destacando-se ao abrir uma escola oralista para professores de surdos em Boston e tornando-se presidente da Associação Americana para impulsionar o ensino da fala aos surdos. Tinha também como propostas a eliminação das escolas residenciais e a oralidade em substituição à língua de sinais. Era também contrário ao casamento entre surdos (GOLDFELD, 2002; GRÉMION, 1989; GUARINELLO, 2007).
No ano de 1880, em Milão – Itália, o Congresso Internacional de Surdo-Mudez, que reuniu surdos da Europa e EUA, teve a maioria dos votos dada ao método oral, por ser considerado o mais adequado a ser adotado pelas escolas de surdos;já a língua gestual passou a ser proibida, oficialmente, com a alegação de que destruía a capacidade da fala dos surdos ao preferirem usar a língua de sinais. Na ocasião de votação, durante a assembléia geral realizada no Congresso, todos os professores surdos foram proibidos de votar e, dos 164 representantes ouvintes presentes, apenas cinco dos EUA votaram contra o oralismo puro. As delegações alemã, italiana, francesa, inglesa, sueca e belga apoiaram as decisões do Congresso, restando apenas ao grupo americano, liderado por Gallaudet (1837-1917), a oposição às determinações(proibição da língua de sinais). Dos 255 participantes, só três eram surdos (GOLDFELD, 2002; GUARINELLO, 2007; SÁ, 1999).
Goldfeld (2002, p. 31) assevera que:
No início do século XX a maior parte das escolas em todo o mundo deixa de utilizar a língua de sinais. A oralização passou a ser o objetivo principal da educação das crianças surdas, e, para que elas pudessem dominar a língua oral, passavam a maior parte de seu tempo recebendo treinamento oral e se dedicando a este aprendizado. O ensino das disciplinas escolares como história, geografia e matemática foram relegados a segundo plano.
O oralismo perdurou até a década de 1970 e, durante esse período, caiu, consideravelmente, o nível de escolarização dos surdos. Diante da publicação de diversas pesquisas que confirmaram o baixo rendimento na aprendizagem dos alunos comsurdez, educadores manifestaram insatisfação com o método oral e, a partir daí, passou-se a acatar a proposta da língua de sinais.
No Congresso Internacional de Paris, em 1900,Gallaudet (1837-1917) propôs que uma instrução oral inicial, proporcionada a todos, só fosse continuada com os que dela pudessem ser beneficiados. A sua proposta foi amplamente rejeitada e os professores surdos tiveram que se reunir em separado. O Congresso proclamou novamente a superioridade da fala sobre os gestos e declarou a sua adesão ao Congresso de Milão.
Ainda, na década de 1970, Stokoe (1919-2000) publicou o artigo Sign language structure: an outline of the visual communication system of the american Deaf, escrevendo que a Língua Americana de Sinais demonstra as características das línguas orais. Apoiada nessa publicação, Schifflet, professora e mãe de surdo, passou a utilizar um método combinando a língua de sinais com a língua oral, leitura labial, treino auditivo e alfabeto manual, que recebeu o nome de Total Aproach, traduzido como Abordagem Total. Mais tarde,
Holcom (1943-2001) trocou esse nome por Total Communication, o que deu origem à Comunicação Total (GOLDFELD, 2002).
Em 1971, no Congresso Mundial de Surdos, em Paris, a língua de sinais passou a ser valorizada. Apoiada, também, na Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais, em 1994, fica firmada, na Declaração de Salamanca, a importância da língua gestual como meio de comunicação entre os surdos, com seu reconhecimento e garantia de acesso à Educação na língua gestual do seu país (GRÉMION, 1998).
Suécia e Inglaterra foram os primeiros países a aceitaram a ideia de que a língua de sinais deveria ser usada independente da língua oral, e dependendo da situação, o surdo poderia utilizar a língua de sinais ou a língua oral, mas não as duas ao mesmo tempo. Partindo dessa concepção, surge a filosofia bilíngue, que vem conquistando seguidores em todos os países do mundo (GOLDFELD, 2002).
A educação de pessoas surdas em instituições públicas, no Brasil, apresenta seu registro histórico em 1857, com a criação da Instituição Escolar Imperial, fundada no Rio de Janeiro, no dia 26 de setembro, por ordem de D. Pedro II, após sua visita ao Gallaudet College, nos EUA. Recebeu, na época, a denominação de Imperial Instituto dos Surdos- Mudos, hoje, Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Daí a razão do dia do surdo ser comemorado em 26 de setembro, em homenagem à inauguração da primeira escola de surdos do Brasil (LULKIN, 2011; GÓES, 2002; GOLDFELD, 2002; GRÉMION, 1998).
Anterior a esse período, em 1855, chegou ao Brasil, por solicitação de D. Pedro II, o professor surdo francês Huet, com bolsa de estudo paga pelo governo, para ser responsável pela educação de duas crianças surdas (GOLDFELD, 2002).
Seguindo a tendência mundial, em 1911, o INES adotou o oralismo puro em todas as disciplinas da escola. Por ocasião da sua criação, imaginava-se que, dessa forma, o surdo estaria integrado na comunidade ouvinte através da reabilitação oral e auditiva. Em 1957,a língua de sinais passou a ser determinantemente, proibida em sala de aula após a mudança de direção do INES, assumida por Ana Doria, juntamente, coma professora Alpia Couto, como sua assessora. Todavia, mesmo sendo proibidos, os alunos usavam a língua de sinais nos pátios e corredores da escola. Atualmente, o INES é considerado um modelo de referência em todo o país.Nos dias atuais, a comunidade surda e os profissionais da área da surdez consideram a filosofia bilingue como sendo a melhor abordagem para a educação do estudante com surdez (GOLDFELD, 2002; GUARINELLO, 2007).