4 Power generation
5.2 Modelling technology and behaviour in transportation
Ao nível conceitual, vários estudos vêm contribuindo para o melhor entendimento da indissociabilidade entre a teoria e aprática.
Examinando historicamente a relação teoria-prática, (Candau & Leis Apud Pimenta, 2011, P.66), identificam duas visões. A primeira é a dicotômica, que enfatiza a autonomia da teoria em relação à prática e vice-versa. A expressão mais radical dessa visão é o entendimento de que na prática a teoria é outra. Mas também considera teoria e prática como pólos associados, diferentes e não necessariamente opostos. A teoria tem primazia em relação à prática e esta é aplicação daquela, podendo eventualmente, ser corrigida ou aprimorada pela prática. Mas, via de regra, a prática conforma-se à teoria.
Segundo essa visão dicotômica, característica do positivismo, Candau & Leis defendem a visão de Unidade entre a teoria e prática. Unidade que não é identidade, mas relação simultânea e recíproca de autonomia e interdependência. Teoria e prática são componentes indissociáveis da Práxis55 definida, conforme (Vásquez apud Pimenta, 2011, p.67), como actividade teórico-prática, ou seja, tem lado ideal, teórico,
e um lado material, propriamente prático, com a particularidade de que só artificialmente, por um processo de abstração, podemos separar, isolar um do outro.
Traduzindo essa unidade de teoria e prática para a formação policial, podemos afirmar que o fazer policial, “o objecto do policiamento56” e “como realizar o policiamento” deve ser articulado ao para quê e para quem, expressando a unidade entre os processos proacvtivos e os processos reactivos; entre a prevenção e a
investigação; entre a manutenção e a reposição da ordem pública. A partir dessa ideia
podemos apontar para a possibilidade de o policiar (fazer policiamento) desenvolver uma práxis criadora.
Os estudos de Fávero (1992) citados por Pimenta (2011, pp.68-9), sobre o estágio curricular na universidade, trazem outras contribuições para a nossa reflexão. A autora parte do ponto de vista de que a propalada unidade entre a teoria e a prática, na
55
Para Marx (apud VÁSQUEZ1968), Práxis é a atitude (teórico-prática) humana de transformação da natureza e da sociedade. Não basta conhecer e interpretar o Mundo (teórico) é preciso transformá-lo (práxis).
56
Policiamento, como conjunto dos processos policiais (administrativos e operativos) realizados para a manutenção da ordem pública e garantia da segurança de pessoas e do patrimônio.
realidade, continua sendo um mecanismo de ajuste para encobrir o defasamento entre teoria e prática.
Partindo dessa constatação, a autora levanta três questões: deverá o estágio na universidade ser elemento de mediação entre teoria e prática? Em caso afirmativo, que factores impedem essa realização? Por que o estágio curricular, em geral, não prepara para o efectivo exercício profissional?
A autora inicia denunciando a prevalência da concepção dicotômica na qual o papel da universidade é possibilitar a aquisição de conhecimentos acumulados e não elaborar elementos que contribuam para a intervenção na realidade social. Esta concepção, continua a autora, também se manifesta pela ênfase e até privilégio da formação prática, vista como se tivesse lógica própria, independente de teoria.
Opondo-se a essa concepção, propõe a concepção dialéctica na qual teoria e prática são o núcleo articulador da formação do profissional. Teoria e prática são indissociáveis. A prática (a análise teórica da prática) é o ponto de partida e de chegada. A conseqüência disso é que ninguém se tornará profissional apenas porque sabe sobre os problemas da profissão, por ter estudado algumas teorias a respeito. Não é só com o
curso que o indivíduo se torna profissional. É, sobretudo, comprometendo-se profundamente como construtor de uma práxis que o profissional se forma (FÁVERO
apud PIMENTA, 2011, p.69).
Concordamos com a autora deste texto quanto à visão dialéctica sobre a relação entre teoria e prática, pois o nosso entendimento é que a finalidade do estágio supervisionado e das práticas pré-profissionais é proporcionar que o estagiário tenha uma aproximação e vivência com a realidade na qual irá actuar. Portanto, não se deve colocar o estágio como o pólo prático do curso, mas como uma aproximação à prática (entendida como intervenção e interacção com os profissionais), na medida em que será conseqüente à teoria estudada no curso, que, por sua vez, deverá se constituir numa reflexão sobre e a partir do policiamento no contexto em que decorre.
Se esse é o entendimento, o estágio curricular na ACIPOL deverá ser um projecto integrado e integrador das áreas científicas e disciplinas do curso, sob coordenação da ciência e tecnologia policiais, e será reflexão e análise dos problemas levantados do cotidiano das unidades e subunidades policiais.
As diferentes disciplinas, sob coordenação das respectivas áreas científicas, conforme a estrutura do currículo, deverão fornecer os subsídios para a compreensão dos determinantes dessa prática, pois o objecto do trabalho policial possui uma
dinâmica essencialmente articulada às determinações sociais mais amplas. A reflexão sobre a prática, sua análise e interpretação constroem a teoria que retorna à prática para esclarecê-la e aperfeiçoá-la.
Ivani Fazenda, conceituada pesquisadora em interdisciplinaridade, sistematiza da seguinte forma a sua visão sobre o estágio:
(...) o estágio vem sendo órfão da prática e da teoria (...): Como lida basicamente com as questões da realidade concreta, da prática, o aluno vai perceber que para explicá-la e nela intervir é necessário refletir sobre a mesma, e que essa reflexão só não será vazia se alimentar-se da teoria (...). O bom professor, o professor comprometido, tem a obrigação de saber o que indicar, o como indicar, o onde indicar, aí a importância das fontes (FAZENDA, 1994, p.20).
A lição que se tira da concepção de André & Fazenda sobre o estágio é que, enquanto processo da compreensão da realidade, o estágio deve indicar como o aluno a explora e a compreende, deve conduzir a observação do aluno, para que ele entenda em cada detalhe o todo, a totalidade, o como agir que, somado ao entendimento dos outros actores pode descortinar novos horizontes para processos policiais mais audaciosos relativamente aos novos paradigmas do policiamento. Em nosso entender, dessa forma vai desenvolver o discernimento de que a tecnologia policial se concretiza e se valoriza
nas práticas policiais (VENDRAMINI,2010, p.25).