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NI SE DA SI LVEI RA

(1905 – 1999)

“Nise da Silveira é um arquétipo” disse uma colega, para se referir ao quanto a imagem de Nise está sedimentada como uma referência da psicologia analítica em nosso país. Nise, no entanto, comentava que seu trabalho não recebeu o devido reconhecimento dos psiquiatras brasileiros, citando, para embasar a sua afirmação, o baixo número de colegas de profissão que visitaram o Museu de I magens do I nconsciente. Ali estão reunidas milhares de obras produzidas pelos freqüentadores do ateliê de pintura da Seção de Terapia Ocupacional e Reabilitação – STOR, do Centro Psiquiátrico Pedro I I em Engenho de Dentro, hoje denominado I nstituto Nise da Silveira.

De fato, o trabalho de Nise se destaca pelo questionamento que provoca ao modelo da psiquiatria organicista, um confronto que Nise teve que viver em condições bastante desfavoráveis para uma médica psiquiatra formada em 1926. Naquela época a polarização entre psique e matéria estava muito mais acirrada, fazendo com que as tentativas de atribuir alguma significação de valor ao “bizarrismo” dos doentes mentais fosse considerado, por muitos, como algo

desprovido de sanidade. Apesar da pouca aceitação que Nise refere ter recebido de seus colegas psiquiatras ela não iria estar sozinha em sua caminhada. O seu principal aliado na psiquiatria, no entanto, só apareceria de forma consistente ao seu lado, quase trinta anos depois de seus primeiros contatos com pacientes psiquiátricos no antigo Hospício Pedro I I na Praia Vermelha. Foi para lá que se mudou, em 1933, a fim de se preparar para um concurso de psiquiatria do Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia. Quase vinte anos mais tarde, Nise se correspondeu com o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, a fim de elucidar o conteúdo de pinturas produzidas por doentes internos no então Centro Psiquiátrico D. Pedro I I em Engenho de Dentro. Mais tarde, Nise declarou que o encontro com a psicologia junguiana, foi “o mais importante acontecimento ocorrido nas minhas buscas de curiosa dos dinamismos da psique” (Silveira, 1982, p. 11).

Tentar esclarecer o que motivou esse encontro e quais os elementos que contribuíram e interferiram para que, através dele, a psicologia junguiana pudesse se fazer presente de maneira mais consistente no Brasil através do trabalho desenvolvido por Nise da Silveira, é o que pretendemos com as linhas a seguir. Para tal, iremos tentar conhecer não só a Nise psiquiatra mas buscaremos, também, entender o percurso que a levou a afirmar que Jung chegou ao Brasil através das pinturas dos doentes (Passetti, 1992).

De Maceió ao Rio de Janeiro

Cláudio Manuel da Costa (1729-89), um dos principais poetas brasileiros do período colonial, envolveu-se com a I nconfidência Mineira e foi encontrado morto em função de suicídio ou assassinato, dependendo da versão sobre o fato. Sua musa Nise foi homenageada no início do século XX por Faustino Magalhães da Silveira e Maria Lydia, que assim chamaram a sua primeira e única filha, nascida na rua Boa Vista, em Maceió, no dia 15 de fevereiro de 1905 (Calaça, 2001 e Sant’ana, 2001).

O casal Magalhães da Silveira participava ativamente da vida cultural de Maceió, tendo o costume de receber “em concorridos saraus, artistas e intelectuais” nos quais Maria Lydia, “exímia pianista, executava composições musicais” (Sant’ana, 2004 p. 209). Nise não herdaria o dom musical da mãe, apesar do desejo dos pais em formá-la pianista. “Eu era desafinadíssima”, reconhece. (Gullar, 1996, p. 34)

Faustino era professor de matemática e jornalista. Trabalhava no jornal do irmão, o Jornal de Alagoas, que era oposição ao governo de Euclides Malta, razão de seu envolvimento em conflitos políticos que o obrigou a andar armado por determinado período. Nise gostava de visitar o jornal com o pai, “especialmente ir à oficina ver o pessoal trabalhando, compondo os textos na mão, com aqueles tipos móveis de antigamente. Ficava fascinada com a habilidade deles” (op. cit., p. 32). O trabalho manual já chamava a atenção de quem iria se voltar para a terapeutica ocupacional.

Nise acompanhava o pai também em alguns colégios onde ele lecionava, e dos quais alguns dos melhores alunos eram convidados para estudar na casa do professor. A convivência com alguns desses alunos que freqüentavam sua casa, e que iriam prestar exames para a Faculdade de Medicina da Bahia, é que parece ter influenciado na sua opção para medicina. Sabe-se que vocação para tal atividade Nise não possuía. Ela dizia que “quando vejo sangue, fico tonta” (op. cit., p.35). Pode-se conjeturar que entre esses rapazes estaria seu primo Mario Magalhães, que partilhava da convivência com Nise desde a infância e que iria se tornar um importante médico sanitarista, com quem Nise viria a se casar anos mais tarde.

O gosto pela leitura foi estimulado desde cedo, seja na biblioteca do pai, seja nas livrarias, onde Nise tinha conta para suprir suas constantes aquisições. Nise apreciava a literatura brasileira, particularmente Machado de Assis, de quem vamos encontrar referências em seus escritos posteriores. Adolescente, já lia filosofia e se interessava pela cultura francesa em função de sua formação escolar no Colégio do Santíssimo Sacramento, dirigido por freiras francesas. Ao terminar o colégio, Nise fez o curso preparatório no Liceu Alagoano.

Em final de 1920, Nise foi para Salvador a fim de realizar os exames para a Faculdade e juntamente com outros colegas alagoanos foi aprovada para iniciar o curso superior. Neste início de 1921, porém, ainda não tinha completado 16 anos, idade mínima para ingressar na Faculdade. “Mas em Maceió tudo se arruma. E assim deram lá um jeito e eu entrei para a faculdade com quinze anos, como se tivesse dezesseis” conta em depoimento a Gullar (op. cit., p. 35).

Apesar das poucas informações disponíveis sobre esse período da vida de Nise, podemos encontrar, aí, vários indícios que marcariam sua trajetória futura: a condição de oposicionista à política dominante presente na escolha do seu nome e na atividade jornalística do pai; a proximidade com o ambiente artístico e cultural vivido na casas dos pais. Ainda o afeto, que se colocou como um critério de direcionamento e escolhas, evidente na opção pela carreira médica; e a atenção ao trabalho manual, já aparecendo no fascínio pela manipulação dos tipos na gráfica do jornal onde o pai trabalhava.

O início do curso médico reservava à estudante alagoana duas peculiaridades: além de ser a caçula do curso, era a única mulher em uma turma de 157 alunos. A situação por si era desafiadora, porém seu professor de parasitologia resolveu testar as possibilidades de sua aluna. Nos primeiros dias de aula o austero professor entrou no grande salão lotado por estudantes recém- admitidos na faculdade e ofereceu à única jovem presente uma serpente para que ela a segurasse. Sentindo a pressão dos olhares que se dirigiam para a sua pessoa, Nise respirou fundo e aceitou o desafio. Recolheu a oferta do professor, para em seguida repassá-la ao colega que estava ao seu lado (Bezerra, 1995, p. 136/ 7).

Nem todos os seus professores tiveram essa atitude provocativa com a jovem estudante. Um dos que tiveram uma postura mais condizente com a função pedagógica foi o professor Prado Valadares que acompanhou a turma de Nise da Silveira nos três últimos anos de faculdade. A presença do professor nas visitas de atendimento aos internos do setor de clínica médica do Hospital Santa I sabel permitiu que seus alunos pudessem ter uma aproximação aos pacientes que não

ficava restrita à fragmentação em peças ou órgãos. Melo considera essa vivência como tendo possibilitado a Nise uma visão mais integrada do ser humano, já que Valladares “não era um cartesiano, posição filosófica que cada vez mais domina a medicina contemporânea.” (Silveira, 1992. Em Melo, 2001, p. 135)

Outro fator que pode ser atribuído aos tempos de faculdade e que norteiam o trabalho de conclusão do curso médico de Nise, é a perspectiva social na medicina. O seu trabalho de final de curso, Ensaio sob e a Criminalidade da Mulher

no Brasil “gira em torno da preponderância de fatores intrínsecos ao indivíduo ou

de fatores sociais na determinação de um crime” (op. cit., p. 135). Entre os fatores sociais considerados mais relevantes estão os econômicos e educacionais e “em meio a essas teorizações, Nise da Silveira cria dois argumentos: o de que existe uma mistura de criminosos com doentes mentais; a idéia de que a medicina deve contribuir no sentido de que se tomem medidas no campo social” (op. cit. p. 136). As medidas propostas no trabalho da doutora recém-formada refletiam de um lado as idéias da eugenia sobre a degeneração das raças além das concepções higienistas presentes na época

r

21.

Podemos afirmar que um fator de influência neste direcionamento que levou Nise para longe da clínica médica foi a sua aversão ao sangue. Outro ponto que confluiu para esta área e pode ter contribuído neste sentido é a opção de seu primo Mário, que se formou na mesma turma de 1926 e que se dirigiu para a saúde pública, vindo a se tornar um respeitado sanitarista. Consta que, durante o curso de medicina, Nise já vivia com seu futuro marido, união que não tinha a aprovação da família “pelo fato de serem primos e de não terem se casado” (Melo, 2001, p. 144).

Não existe menção à presença de Jung, entre as leituras de Nise, nesta época da faculdade. No entanto, cabe lembrar que um conterrâneo e contemporâneo seu, de faculdade, foi Arthur Ramos (1903-1949), também aluno

21 Como já vimos anteriormente (p. 40), Gustavo Riedel, diretor da Colônia de Engenho de

Dentro, fundou a Liga Brasileira de Higiene Mental em 1923, cuja meta era “a melhoria da assistência ao doente mental” (Antunes, 2001, p. 50).

do professor Faustino Magalhães no Colégio São João em Maceió. Ramos obteve seu doutorado com a tese “Primitivo e Loucura”, publicada em 1926 pela I mprensa Oficial do Estado da Bahia, onde “reflete um belo conhecimento da obra de Freud e Jung” (Penna, 1992, p. 24). Dada a proximidade anterior entre esses dois alagoanos, é possível especular sobre um contato de Nise com as idéias junguianas já durante a faculdade, embora tais enunciados não se fizessem presentes em seu trabalho de conclusão de curso.

O doutoramento de Nise era uma grande aspiração de seu pai, que esteve em Salvador para assistir a apresentação da tese de sua filha. Voltaram a seguir para Maceió, quando Faustino poderia prosseguir rumo a outra grande aspiração sua. Ele era um sonhador, diz Nise, “nunca pensou em comprar uma casa para a família. E quando minha mãe falava nisso, ele dizia: ‘Não, quando a Nise se formar a gente vai morar em Paris’ ’’(Gullar, 1996, p. 35). Este projeto não teve seguimento, pois em 10 de fevereiro de 1927 Faustino faleceu aos 44 anos de idade.

Fazia um mês que Nise havia voltado para sua terra natal e, de repente, se viu em uma situação inesperada. Segundo ela, “acabaram-se as mordomias. Minha mãe foi morar com o pai dela e a irmã mais moça (...). E adoidadamente vendeu- se tudo de casa. I magine que tínhamos dois pianos de cauda. Vendeu-se tudo, jóias de minha mãe, tudo.” (op. cit., 1996, p. 36). A jovem alagoana não aceitou aquela condição e se posicionou dizendo: “Eu não fico aqui (...) ai eu tomei um navio e me toquei para o Rio de Janeiro (...). É aí que começa a segunda etapa de minha vida” (op. cit., p. 36).

No Rio de Janeiro, Nise foi morar em uma pensão no Catete, onde ficou por pouco tempo. O dinheiro que trouxera ia se consumindo e o que se oferecia de trabalho era em casas de saúde, que não interessavam à médica que não podia ver sangue. “Antes que o dinheiro acabasse, busquei no jornal um lugar mais barato para morar. Encontrei um em Santa Tereza, no Curvelo” conta Nise sobre sua chegada ao local onde iria fazer novas e importantes amizades. (Gullar, 1996, p. 36)

Nise na Rua do Curvelo

No novo endereço, em cuja rua habitava também Manuel Bandeira, Nise procurou seu conterrâneo, Otávio Brandão, que era um importante membro do Partido Comunista Brasileiro. Sua esposa, Laura, recebeu a nova vizinha “na pequena sala que servia de quarto para as três meninas, filhas do casal” (Bezerra, 1995, p. 138). Segundo Bezerra (op. cit.), Laura Brandão foi uma pessoa marcante na vida de Nise. Convidava-a para almoçar com freqüência em sua casa dominada pela alegria, apesar da simplicidade e poucos recursos financeiros do casal e das prisões constantes de Otávio, pois o seu partido foi colocado na ilegalidade em agosto de 1927. Sobre seu relacionamento com Otávio Brandão, Nise conta que ambos discutiam “sobre o Cristo, Nietzsche, sobre Tolstoi...Em 1930, houve a revolução de Getúlio22 e os comunistas, inclusive Brandão, foram presos e depois tiveram que ir embora...para a Alemanha e depois para a União soviética” (Gullar, 1996, p. 37).

Apesar de sua ligação com o líder comunista, a sua aproximação com a esquerda se deu através de um amigo cearense, Hyder Correa Lima. Na época havia dois grupos entre os estudantes: os católicos, liderados por Tristão de Athaíde e os de esquerda, ligados a Castro Rebelo, professor da Faculdade de Direito. Certa noite, esse professor iria dar uma palestra sobre direito marítimo, a qual, graças a insistência de Correa Lima, Nise foi assistir. Em depoimento a Gullar (1996, p. 41), ela descreve Castro Rebelo como alguém muito convincente em sua

22 A Revolução de 30 marca a tomada do poder por Getúlio Vargas, com a suspensão da

Constituição e a proclamação, pelo chefe militar do golpe, de um governo provisório. Marca também o refluxo da oligarquia cafeeira que dominava a política da Primeira República, também conhecida como “café com leite”, em função do acordo pela alternância de poder entre paulistas e mineiros.

argumentação, de tal forma que se tornou uma adepta em defesa do direito marítimo. Seu movimento em direção á esquerda foi reforçado quando soube que um conhecido, Santa Rosa, pintor e chargista de O Jornal, havia sido demitido por pressão de Tristão de Athaíde.

Neste período começou a ler Marx e frequentou algumas reuniões do Partido Comunista Brasileiro ao qual se filiou, permanecendo por pouco tempo nesta agremiação. Fora dela, Nise participou, como médica voluntária, da União Feminina do Brasil (UFB), um grupo “em defesa dos interesses da mulher no Brasil, especialmente daquelas que estão submetidas às mais precárias condições de existência e trabalho”, conforme citação de panfleto da UFB (Em, Melo, 2001, p. 139).

Em meio a essa época, Nise já trabalhava junto ao professor Antônio Austragésilo que era catedrático de neurologia e possuía uma clínica, freqüentada por estudantes interessados no aprendizado prático que, assim como Nise, não recebiam remuneração. O interesse pela psiquiatria já havia despertado para a jovem médica estagiária. Ela conta que lia “pelo prazer de conhecer o assunto e até ganhei algum dinheiro fazendo teses para psiquiatras, a fim de conseguirem ingressar na carreira...Uma imoralidade horrível” (Gullar, 1996, p. 38). A possibilidade de se sustentar financeiramente com a sua profissão viria em 1933. Graças ao incentivo do professor Austragésilo, que inscreveu Nise em um concurso para psiquiatra, na antiga Assistência a Psicopatas e Profilaxia. Devido à proximidade das provas, Nise mudou-se da rua do Curvelo para o Hospício Pedro I I , na Praia Vermelha, a fim de se preparar para os exames e lá ficou lotada como médica psiquiatra, após a aprovação no concurso.

Em 1935, Nise disse ter ouvido o barulho de tiros. Era a I ntentona Comunista, um movimento liderado por Luís Carlos Prestes em reação a Lei de Segurança Nacional, aprovada pelo Congresso em 4 de abril daquele ano23.

23 Vencidos as paulistas na Revolução de 32, que queria a volta da legalidade ao país, Vargas

decidiu convocar uma Assembléia Nacional Constituinte. Esta se formou em 1933, cujo trabalho terminou em 16 de julho do ano seguinte, com a promulgação da Constituição de 1934. Neste

Seguiu-se um período intenso de prisões que culminou com a detenção de Prestes junto com sua companheira Olga, em uma casa no bairro do Méier (RJ). Era início de março de 1936. Foi também quando Nise foi chamada pelo diretor do hospital, doutor Valdomiro Pires. “Veio imediatamente atendê-lo. Não imaginava encontrar ao lado do diretor a polícia de Getúlio Vargas, que viera prendê-la, e ouvir, perplexa, as palavras de Valdomiro Pires: - É esta.” (Bezerra, 1995, p. 146). Nise havia sido denunciada pela enfermeira que fazia a limpeza de seu quarto quando essa encontrou, entre as diversas leituras às quais a médica se dedicava, alguns livros de cunho marxista.

Nise chegara ao Rio durante a transição política no Brasil que culminou com o fim da República Velha. O debate político era intenso, ao mesmo tempo em que no campo das artes vivia-se ainda um clima de produção nacional criativo com os reflexos da Semana de 22. Esses dois aspectos, política e arte, já eram familiares à Nise, porém esse período foi um período marcado por rupturas com modelos anteriores, o que fez desseum tempo bastante peculiar no qual Nise teve um lugar privilegiado. Não tanto pela sua produção pessoal ou profissional, mas certamente pela sua convivência próxima com personagens importantes das áreas da política e das artes, como os vizinhos da rua do Curvelo, por exemplo. Nesta época, com Nise tendo chegado aos trinta anos de idade, o seu percurso profissional ainda estava se definindo. Suas opções mantiveram a influência prioritária dos grupos afetivos com os quais convivia, como vemos na adesão ao grupo de estudantes de esquerda e no fato de ter prestado o concurso para psiquiatra, em função de o professor Austragésilo ter feito a inscrição da estagiária de sua clínica. É certo que a vinda para o Rio marcou a sua autonomia em relação à família, o que foi, possivelmente, precipitado pelo falecimento prematuro de seu pai.

A saída de sua moradia no hospital psiquiátrico, para ficar confinada na cela de uma prisão, trouxe novos desafios para serem confrontados por Nise da Silveira.

mesmo dia os constituintes elegeram Vargas presidente do Brasil, dando um caráter legalista ao seu governo.

A prisão e anos turvos

Após receber voz de prisão, Nise foi levada para o DOPS, na rua da Relação, onde permaneceu por uma semana, sendo transferida, em seguida, para o presídio da rua Frei Caneca e alojada no Pavilhão dos Primários, em uma cela destinada às prisioneiras políticas, chamada Sala 4. Ali havia dezesseis camas e uma mesa sem cadeiras em um espaço compartilhado por mulheres que haviam se destacado na militância política de esquerda, como Olga Benário, Maria Werneck e Elisa Berger, que ocupava a cama ao lado da de Nise. Entre as duas estabeleceu-se uma relação de amizade e solidariedade mútua, conforme Nise conta em depoimentos a Bezerra (1995) e Gullar (1996). A tortura era um método usual, na prisão, para obter informações confidenciais e Nise, apesar de não ter sido submetida diretamente a este tipo de prática, não deixou de ser marcada pela violência de que suas companheiras foram alvo. Elisa teve seu marido, Harry Berger, torturado até enlouquecer. Ela, além de ter presenciado algumas torturas aplicadas ao marido, foi também vítima das práticas violentas de interrogatório e depois “ela me mostrava as queimaduras nos seios...Eu ficava nervosíssima vendo aquilo” relata Nise (Gullar, 1996, p. 42).

Graciliano Ramos (1946/ 2004) fornece uma versão primorosa de sua vivência deste período, em Memórias do Cárcere, no qual descreve momentos compartilhados com Nise da Silveira. A amizade entre esses dois alagoanos transcendeu os muros da prisão e, depois da libertação do escritor, ambos costumavam se encontrar na livraria José Olympio. Depois da efervescência dos anos 1920 e no início dos anos 3024, esses tempos sob a ditadura Vargas, que Ramos (op. cit.) se refere como “fascismo tupinambá” (p. 15), marcaram uma involução na produção cultural de alguns setores do mundo artístico, conforme o

24 Em 1929 aparecera Cecília Meireles. No ano seguinte temos os primeiros livros de Carlos

Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Em 1933, surgem publicações importantes que possibilitam um novo olhar ao Brasil como Casa Grande e Senzala de Gylberto Freire e Evolução Política do Brasil de Caio Prado Júnior, somadas a Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda