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Diferentemente da orientação do outro povo asiático estudado nesse trabalho, os malaios, conforme o Gráfico 12, foram identificados com uma tendência forte e sólida de possuir características de aversão a incerteza em sua sociedade e, dessa forma, um lugar aonde a insegurança e a ambiguidade são evitadas. Dessa maneira, 68,75% das opiniões coletadas apontam alto UAI contra os 31,25% que apontam os malaios com baixo UAI.

Gráfico 12 – Demonstrativo Consolidado da Aversão à Incerteza – Malásia

Fonte: O Autor (2015)

Da mesma forma que foi verificado nas nações anteriores, se dividir essa análise entre as percepções coletadas dos malaios versus as opiniões reunidas pelos estrangeiros, essa tendência também é verificada. Dessa forma, tanto os malaios (75%) como os americanos, brasileiros e indianos (62,5%) acreditam que a cultura malaia é composta por traços e características de alto UAI, ou seja, eles questionam as incertezas e ambiguidades assim que elas são identificadas. Todavia, 25% das opiniões reunidas dos malaios e 37,5% das percepções colhidas pelos indivíduos das outras nações identificaram que os malaios não se preocupam com as ambiguidades surgidas no dia-a-dia do processo de desenvolvimento de sistemas de informação, isto é, caracterizaram essa nação como um nível baixo de aversão à incerteza.

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% Todas Nacionalidades Malaios Americanos, Brasileiros e Indianos 68.75% 75% 62,5% 31.25% 25% 37,5%

Entre os malaios que identificaram o baixo nível de aversão a incerteza de seu país está o entrevistado de número seis, o qual caracterizou a forma como eles recebiam as tarefas e aceitavam sem maiores questionamentos: “Acho que nós temos essa característica de realizar atividades que foram estipuladas e designadas a nós [...] então as coisas ficam mais focadas em realizar tarefas [...].” Essa baixa aversão a incerteza também está presente no discurso do primeiro malaio, o qual não defende a utilização por completo do framework proposto pela organização:

Minha resposta é que não devemos seguir cegamente tudo que temos em mãos. O que eu vejo é que o framework é apresentado como um guia e você deve aplicá-las onde for possível. Mas existem tantos tipos de projeto, tantas variáveis dentro do dia-a-dia de trabalho que você não pode ter uma regra que se aplica a todas situações e todos projetos. Então eu diria que isso deve ser aplicado caso-a-caso ao invés de seguir cegamente. Já entre os estrangeiros que acreditam no baixo nível de UAI entre os membros da Malásia está o oitavo brasileiro, o qual relata: “[...] os malaios assim como alguns times na Ásia são melhores executores do que planejadores. Então eu acho que falta um pouco mais de preparação para eles. A minha experiência que eu tive com eles era que eles eram experientes técnicos, mas pobres em liderança [...].” Essa mesma característica de cultura nacional executora também é identificada pelo nono americano: “[...] Geralmente, os malaios são passivos executores que não buscam esclarecer e clarificar as incertezas [...] Eu acho que eles vão ficar sentados lá esperando ver o que acontece direito ao invés de ir obter à clarificação da ambiguidade [...] eu acho isso bem frustrante.”

Entretanto, como verificado no Gráfico 12, a grande maioria dos respondentes malaios e estrangeiros (americanos, brasileiros e indianos) indicaram essa cultura com alto grau de aversão a incerteza. Dessa maneira, dentre os malaios que defenderam essa opinião, está o respondente de número três: "Acho que pode haver um certo receio ou falta de confiança na hora de realizar tarefas desafiantes. Em contexto onde há incerteza sobre como agir em certas atividades, começam a acontecer rumores e um clima de instabilidade no ambiente de trabalho." Assim exposto, o primeiro malaio descreve os tipos de dúvidas que começam a surgir diante desse contexto de incertezas:

[...] quando as coisas não estão claras, as pessoas não se sentem confortáveis. Por que isso? Se você não entende o que precisa ser feito, então existe ambiguidade naquilo. Se você tentar fazer algo, sempre vão aparecer mais perguntas. Dessa maneira, você pode se perguntar: o que estou fazendo está correto? Estou no caminho correto?

Já em relação aos estrangeiros, o alto grau de UAI também foi identificado como, por exemplo, pelo sétimo brasileiro: "Na Malásia se não tiver escrito no papel e, em

consequência disso, existir a possibilidade de gerar alguma incerteza, eles não vão para frente. Eles vão travar. Isso em processo de desenvolvimento ou mesmo de teste." Essa visão sobre os malaios também é compartilhada pelo nono indiano: "Na Malásia, qualquer coisa que você precisa deles tem que ter documentação [...] e eles vão seguir fielmente aquele documento. Entretanto, algumas situações vão variar, coisas inesperadas irão acontecer e eles irão parar. Não conseguirão avançar na tarefa [...].” Essa busca pela segurança de um instrumento documentado também é identificada pelo sexto brasileiro, o qual afirmou: "Os malaios criticavam mais e buscavam fazer as coisas mais bem feitas como, por exemplo, o documento de requisitos. Eles eram mais perfeccionistas e também traziam bons comentários e dúvidas. Eles não se sentiam muito confortáveis com os requisitos no ar." Concluindo, o primeiro americano entrevistado relatou: “Os malaios fazem muitas perguntas. Eles não têm vergonha de perguntar.”

Essa mesma realidade de aversão a incerteza é identificada em relação a utilização ou não do framework proposto pela organização, pois, de acordo com o segundo malaio, “[...] é necessário seguir todos os processos porque se aquilo foi colocado no papel, então é imprescindível para garantir que você controle grandes grupos e projetos e, em consequência disso, alcance o sucesso [...].” Nesse mesmo sentido, o quinto malaio disse: “Práticas que estão detalhadas em documentação ou frameworks de gestão de projetos são importantes. Eu acho que elas são responsáveis por 70% do sucesso de um projeto. Os outros 30% são influenciados por situações, cenários e contextos do time [...].” Finalizando, essa rigidez a processos e regras também é identificada pelo sétimo brasileiro: “E os malaios são o extremo, pois eles seguem regras. Eu acho que é factível falar isso pela experiência que eu tenho trabalhando com esses times. Eles são orientados a regra e precisam das regras para fazer funcionar.”

A partir do exposto acima, a seguir foi elaborado o Quadro 10 com diferentes percepções coletadas sobre a aversão à incerteza na Malásia.

Quadro 10 – Resumo da Aversão à Incerteza – Malásia

Índice Fonte Percepções

Baixo

UAI 4º Malaio

“Para funcionários novos ou menos experientes, eu acho que processos devem ser seguidos, mas depois quando você ganha mais experiência e vê algo que não é tão valoroso você pode adaptar aquilo. Acho que o processo tem que ter valor e a razão de usar aquilo deve estar clara também.”

Alto

UAI 1º Malaio

“[...] Quando algo ocorre, eles vão avaliar se eles podem entregar aquilo ou não. Outra abordagem bastante comum é, ao menor sinal de algo que pode não estar de acordo, avisar ao gerente de projeto ou algum outro líder em busca de aconselhamento sobre como proceder. O objetivo é buscar uma confirmação que aquilo é realmente prioritário e o que precisa ser entregue.”

7º Malaio

"Acho que posso falar em relação ao manual de gestão de projetos da empresa. Ele é muito bom, completo e padronizado e, dessa maneira, todos podem seguir o manual independentemente aonde estão localizados geograficamente. Então, eu acho que é bastante benéfico contar com esse tipo de processo ou manual, pois se todos seguissem ele, as entregas provavelmente seriam mais sucedidas."

Alto

UAI 4º Indiano

"Participei de um projeto a um tempo atrás que estava sendo transacionado de um gerente para outro e houve bastante hesitação por times da Malásia, que se viam sem direcionamento para continuar o trabalho e bem receosos."

Fonte: O Autor (2015)

4.2.4.1 Efeitos da Aversão à Incerteza – Malásia

De acordo com o que foi apresentado na análise anterior, a cultura malaia tem uma forte e sólida tendência de alta aversão à incerteza o que, de acordo com os entrevistados, causa alguns efeitos positivos e negativos nos fatores de sucesso do processo de desenvolvimento de um SI. Conforme identificado pelo sétimo brasileiro entrevistado, a cultura malaia procura ter o detalhamento excessivo e perfeccionismo das tarefas realizadas com o objetivo de mitigar as incertezas e, em consequência disso, garantir a qualidade do produto final do processo de desenvolvimento de um sistema de informação. Nesse sentido, apesar de garantir a resolução de todas as questões em aberto e eliminar a ambiguidade do projeto o que, a longo prazo, garante tanto um bom desempenho dos envolvidos como o escopo planejado inicialmente, essa morosidade também acabará sendo prejudicial para o projeto como um todo. Assim sendo, o custo versus o benefício dessa abordagem determinará a necessidade de grandes intervalos ociosos na equipe de desenvolvimento e, em consequência disso, os prazos serão alongados significativamente na mesma proporção que os custos para responder a todas as incertezas e ambiguidades e para atender as necessidades do negócio da organização.

Além desses pontos identificados e como já verificado anteriormente nas entrevistas sétimo brasileiro, segundo e quinto malaio, a total utilização do framework eleito pela organização trará benefícios para o processo, pois a equipe de trabalho terá a confiança e certeza de que todas as etapas estão sendo cumpridas e, dessa forma, garantirá a qualidade da execução das tarefas (desempenho) e da entrega do escopo inicialmente proposto. Entretanto, esse engessamento excessivo do processo de desenvolvimento também resultará em efeitos negativos, pois, com a necessidade de passar por todas as etapas desse guia, mais tempo será necessário para atingir a todos os objetivos desse projeto devido as características de alta burocratização do framework proposto e, em consequência disso, o custo será alavancado proporcionalmente.

Isto posto e analisado, no próximo subcapítulo desse trabalho será realizado o fechamento da dimensão aversão à incerteza, bem como uma análise comparativa entre esse trabalho e os de Hofstede (2001) e Donato (2013).