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3. METHODOLOGY

3.5 Modelling a system

É preciso encarar a variação linguística como fato real presente no dia a dia das línguas. A escola deve compreender, de uma vez por todas, que os alunos falam de maneira diferente, e isso deve ser não só estudado, como também, especialmente, valorizado. Deve-se ensinar que a língua que o Brasil fala é multifacetada; entretanto, há uma variante ou dialeto de prestígio, que todos têm que aprender, pois é esta que conduz a bens culturais mais valorizados. Os livros didáticos e outros materiais devem não só mostrar uma forma de variação, um recorte do real, mas, sim, o real como todo; mostrar e exemplificar os usos de São Paulo, do Sul, do Sudeste e também do Nordeste, com os regionalismos e as variantes possíveis.

Faulstich foi a pioneira nos estudos de Socioterminologia no Brasil, ao reconhecer que a pesquisa terminológica deve ter como auxiliares princípios funcionalistas da variação e da mudança linguística, assim como da etnografia, em vista da comunicação no seio da sociedade. (CRUZ, 2013, p. 22). A pesquisadora, em sua trajetória de pesquisa, ao criticar o ponto de vista de Wüster, esclarece que, no lugar da prescrição, deveria haver descrição dos dados terminológicos e que normalização, no contexto wüsteriano, era o mesmo que normatização. Com fundamentação epistemológica, Faulstich (1995b) declara que “as características de variação, no universo da terminologia, revelam peculiaridades próprias a serem estudadas pela disciplina socioterminologia, que requer método próprio para a sistematização de termos e de variantes” (p. 281). Para esta autora, a “Socioterminologia já era prenúncio para o desenvolvimento de uma terminologia de cunho funcionalista e de natureza social”. (CRUZ, 2013, p. 22).

Em toda comunidade linguística são frequentes as formas linguísticas em variação, que são, portanto, diversas maneiras de se dizer a mesma coisa em um mesmo contexto.

Os estudos que a Linguística tem desenvolvido para analisar os fenômenos recorrentes na língua já ganhou espaço dentro de alguns compêndios. Isso serve para que os estudiosos Surdos, nas pesquisas da Libras, percebam necessidade de pesquisar e analisar o que de fato ocorre na língua.

Strobel e Fernandes (1998) observam que a Libras apresenta dialetos regionais, salientando assim, uma vez mais, o seu caráter de língua natural.

No nosso caso, o desenvolvimento da pesquisa que estuda a variação lexical regional e as implicações desta no processo de padronização dos sinais, permitirá o desenvolvimento de estratégias que contribuirão para a valorização da variação linguística da Libras. Entende-se também que, na educação das crianças Surdas, a primeira língua deva ser a Língua de Sinais, pois possibilita a comunicação espontânea inicial na escola. Assim as crianças, são estimuladas e se desenvolvem. Para isso, é necessário que o professor conheça profundamente Língua de sinais (LS) para ensinar crianças surdas, daí a preferência por professor Surdo, pois LS é sua língua nativa. A maioria das crianças Surdas vem de famílias ouvintes, que não dominam LS, sendo por isso, essencial essa imersão escolar na primeira língua.

No contexto da educação de Surdos, essa é uma questão instigante. Investigações sobre a variação lexical regional da Libras se concentram em apenas mostrar como os sinais- termo são variantes em seus diferentes contextos, havendo poucos estudos acerca de quais são os critérios que possibilitam a classificação e a organização dos sinais-termo por meio de suas condições de sinalização, sendo que muitos sinais-termo são criados em sala de aula, quando para uma palavra em Língua Portuguesa não existe um sinal-termo correspondente. Esse sinal-termo criado não é disseminado nem reconhecido por uma instituição na tentativa de ser ter um sinal-termo padrão e, assim, possibilitar e contribuir para o processo de padronização da Libras.

Assim sendo, a Libras caracteriza-se por possuir um universo linguístico próprio, quase desconhecido por quem ainda não experimentou constituir sentidos com palavras- imagens. Além disso, a grande diversidade de sinais contribui para enriquecer e valorizar a Libras como uma língua, e não para torná-la uma língua individualizada.

Já em 1995, Brito advertia a Libras é dotada de uma gramática constituída a partir de elementos constitutivos das palavras ou itens lexicais e de um léxico (o conjunto das palavras da língua) que se estruturam com base em mecanismos morfológicos, sintáticos e semânticos com a especificidade da língua, mas seguem também princípios básicos gerais. Esses princípios básicos permitem a criação de um número infinito de construções a partir de um número finito de regras. É dotada também de componentes pragmáticos convencionais, codificados no léxico e nas estruturas da Libras e de princípios pragmáticos que permitem a geração de implícitos sentidos metafóricos, ironias e outros significados não literais. Esses princípios regem também o uso adequado das estruturas linguísticas da Libras, isto é, permitem aos seus usuários usar estruturas nos diferentes contextos que se lhes apresentam, de forma a corresponder às diversas funções linguísticas que emergem da interação do dia a

dia e dos outros tipos de uso da língua. Citem-se os recursos expressivos da língua portuguesa em seus vários planos: fonológico, morfológico e léxico-semântico dão forma à estrutura da língua, e a linguagem se produz de modo integral quando intervêm as estruturas fonológicas, morfológicas e semântica, e as diferenças prendem-se aos modelos se gerados, um não sendo inferior ao outro, mas diferentes. Assim a linguagem é, na verdade, a chave que abrirá a porta para um leitor no mundo e caso tal modalidade não seja adequadamente escolhida, as intenções se perdem no caminho.

Na pesquisa da gramática da Libras, os modelos de representação que se pretende propor na investigação contêm informações morfossintáticas e semânticas baseadas em dados pertencentes ao uso da língua. Assim, na falta de vocabulários terminológicos em uma língua não é possível descrever, discutir e explicar determinados termos e, por isso, buscam-se modelos inseridos na interface paramétrica, para que seja possível a compreensão dos processos que são decorrentes do uso da língua. Isso se justifica pelo fato de que os Surdos e profissionais da educação de surdos anseiam por um recurso que possibilite o conhecimento e a divulgação de sinais padronizados no Brasil.

Desse modo, usar a língua com propriedade deve ressaltar também dos estudos da variação linguística na Libras, por exemplo, na análise dos verbetes dos sinais-termo. Muitas palavras em língua portuguesa, quando são passadas para a Libras, não apresentam um sinal- termo, e o falante da língua necessita compreender que não é só copiar, através da forma ou da representação visual, para mostrar domínio e competência, é preciso conhecer o objeto, o conceito, a função e como se deu a construção mental do objeto ou o significado pelo Surdo através de representações das condições paramétricas, por isso é importante valorizar e registrar a construção e a formulação do significado e de todas as inúmeras possibilidades que a linguística oferece para a pesquisa do sinal-termo em relação ao objeto ou ao conceito, ou ao significado. Por exemplo, para o verbete Projetor de imagem: Qual é o sinal-termo do objeto em Libras? Qual é o sinal-termo de projetar? Como se dá a construção mental do sinal- termo do objeto? Pesquisas têm mostrado que a forma de conceituar esse verbete seria: aparelho + ligar + projetar + imagem, e isso seria a construção mental, e não se limitaria apenas à forma icônica que se supõe o objeto ter. Em outras análises, se o verbete remete a outro, para que possamos entender as relações de estrutura, é preciso apresentar algum termo que o leitor conhece além de compreender o tema. Aí, estaremos na dimensão espacial, que organiza campos lexicais e semânticos.

Antes de qualquer processo, é preciso delimitar o campo lexical e o semântico para saber o termo e contexto em que um termo foi empregado. Os verbetes, seja, no léxico

concreto, seja, na construção mental, apresentam uma linearidade quantitativa, porém não é a quantidade de informação que define o verbete, e sim o conhecimento que ele contém. O conjunto de verbetes organiza o dicionário, que é um documento que contribui para a construção das informações e para a disseminação destas. Por isso, é um desafio elaborar dicionário e outras obras lexicográficas e, por isso, para quem não sabe Libras, as condições e representações paramétricas devem ser enfocadas, bem como os resultados apresentados desse processo. De início, deve ser elaborado um dicionário de configuração, quer dizer, um dicionário paramétrico, se o público para o qual o dicionário se direcione for usuário de Libras. Caso contrário, poderá ser um dicionário bilíngue bidirecional, que apresente a estrutura Português → Libras; Libras → Português e ofereça condições para a consulta dos verbetes nas duas línguas. A qualidade dos dicionários está ligada ao conhecimento do processo lexicográfico e de quem os elabora. Assim, no caso da Libras é preciso que o registro da Libras seja feito, preferencialmente, pelos Surdos que dominam a língua.

Para fundamentar ainda mais a discussão exposta neste capítulo, passaremos, no item seguinte, a enfatizar alguns conceitos de estruturação e organização dos estudos da variação linguística.