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5.1 Modellen

No mesmo sentido trabalha este livro de Emile Baas deixado no pequeno do Frei Tito. Dedicado a um sacerdote chamado Jean Bernard, tudo indica francês ou suíço, membro da Companhia de Jesus que foi operário de minas, possivelmente ligado ao movimento dos Padres que se integraram aos locais de trabalho para melhor conhecer a vida dos trabalhadores da produção. 216

Trata-se de uma tentativa de diálogo respeitoso entre cristãos e comunistas, apesar de ficar em evidência o cristianismo como ponto de referência, sendo o corpo da obra dividido em três partes, que além da tradicional Introdução tem o primeiro capítulo dedicado O materialismo marxista, e o segundo A dialética marxista e o quarto as Reflexões críticas sobre as relações entre cristianismo e marxismo.

Nesta publicação as intervenções do Frei se deram com mais intensidade, tanto escritas quanto sublinhares, como aquelas que se referem aos filósofos Platão e G.W.F. Hegel, sendo o grego relacionado na introdução relacionado a uma concepção

214 Ibid. Idem. p. 230.

215 Sobre os teólogos europeus que influenciaram o catolicismo brasileiro e o terceiro mundo

ver LOWY, Michel. Op. Cit. pp. 230-255 e RIDENTI, Marcelo. Op. Cit. pp. 25-72; Existem vários documentos da ALN em que esta perspectiva aparece, citarei apenas O papel da ação

revolucionária na organização.

216 BAAS, Emile. Introdução crítica ao marxismo: perspectivas marxistas, perspectivas

comunista na antiguidade, o que, aliás, é uma constante do Tito, colocar em evidência qualquer coisa que se refira a este pensador, além do prussiano criador de um modo de pensar histórico dialético.

Fora isso também destacou o comentário de que o pensamento de Karl Marx e Friedrich Engels não se relacionava apenas a economia, mas também a filosofia, além de não ser exclusivamente um grito de revolta, mas uma tomada de consciência sobre as contradições do mundo moderno, e a visão de Trotsky e Tito, da Iugoslávia, de que o bolchevismo não era a concretização dos projetos almejados K. Marx e F. Engels. Na impossibilidade de transcrever todos os destaques feitos pelo Padre Tito, optarei por destacar algumas observações feitas pelo autor sobre o pensamento de alguns revolucionários a respeito de cada assunto, e ao mesmo os intercalarei com as intervenções escritas do Frei alencarino.

Então comecemos com esta observação de V. Lênin sobre o que caracterizaria a concepção não idealista explicativa do mundo: O “materialismo consiste em professar que o espírito não tem existência independente do corpo”. Porque “O espírito é um fator secundário, uma função do cérebro, a imagem do mundo exterior”. 217

Para reforçar esta opinião citou F. Engels: “Os que afirmavam a anterioridade do espírito com relação à natureza... pertenciam à tendência idealista. Os mais que consideravam a natureza anterior ao espírito pertenciam às diferentes escolas materialistas”. 218 E Josef Stálin: “que o mundo evolui conforme as leis do movimento da matéria e dispensa a existência de qualquer espírito universal”. 219

Aqui aparece a primeira apreciação escrita de Tito, que após destacar no texto o trecho “ora, diz Marx, a história ensina que a matéria existiu antes do homem”, afirmou o seguinte: “A mesma visão de Teilhard”. Percebemos então a referência ao teólogo jesuíta e geopaleontólogo francês Teilhard de Chardin, o que mostra a penetração do pensamento galo em certos setores católicos no Brasil e a mistura na cabeça de Tito do cristianismo e do marxismo.

Resultante desta materialização aparece K. Marx teorizando sobre a experiência histórica: “O primeiro ato propriamente histórico foi, pois, a produção de meios destinados a satisfazer a estas necessidades, foi à produção da vida material. Gesto realmente histórico e base de toda a história humana”. 220

217 LÊNIN, Vladimir. Materialismo e empiriocriticismo. In: BAAS, Emile. Ibid. idem. p. 27. 218 LÊNIN, Vladimir. In: BAAS, Emile. Ibid. idem. p. 27.

219 STÁLIN, Josef. Materialismo histórico e materialismo dialético. In: BAAS, Emile. Ibid.

idem. p. 26.

Apesar de não ter escrito nas partes referentes à história e ao materialismo, deu atenção especial a relação entre a infra e a superestrutura, como nas seguintes observações destacadas: “Na realidade, os homens começam a deixar de ser animais a partir do momento em que começam a produzir seus meios de subsistência; ou então quando conclui que a consciência “é o reflexo de um regime econômico de uma sociedade”. 221

Neste momento começa A crítica materialista da religião através de uma nova utilização de K. Marx que ao apropriar-se de uma opinião de Ludwig Fuerbach sobre o assunto, concluiu que “A religião, como sistema filosófico, foi tributária, correspondeu a um estágio da civilização hoje superado”. 222

A partir desta observação e dos embates mais voltados para a religião os escritos pessoais de Tito reapareceram quando aponta nesse trecho: “Ver em de Lubac: o drama do humanismo ateu”. Se trata então de outro teólogo francês, Henri de Lubac, uma dos pensadores que coordenaram as discussões no Concílio Vaticano II.

Este jesuíta foi autor de um clássico teológico, A crise do humanismo ateu, obra na qual procurou construir um dialogo com as teses ateístas do século XIX, com objetivo de entendê-las para recolocar no centro da vida humana aquele que vinha sendo negado desde pelo menos a época do renascimento, Deus.

Observa Henri de Lubac que três foram os teóricos que mais afirmaram o ateísmo no mundo pós 1789, Ludwig Fuerbach, Auguste Comte e Friedrich Nietzche. O primeiro com a tentativa de desvendar a religião em A essência do cristianismo, o segundo com a religião da humanidade e o terceiro quando decretou a morte de Deus. Provavelmente esta parafernália filosófica deve ter causado fortes tensões no Frei Tito.

As discussões são complementadas no capítulo sobre A dialética marxista com subitens como Introdução à dialética, O homem e o Estado burguês, A ditadura do proletariado e A sociedade comunista. Aproveito para chamar atenção do fato de que foi neste capítulo, onde quantitativamente está a maioria das grafias de Tito.

Na introdução riquíssima em vestígios, resquícios, para os padrões do livro as sublinhações começam em baixo dos nomes de Platão criador segundo o texto do diálogo entre os contrários que resultaram na operação do outro assinalado G.W.F. Hegel Tese-Antítese-Síntese.

Em seguida pergunta-se como K. Marx utilizou esta operação filosófica, estando à resposta na substituição da idéia pela matéria. Tito então diz: “as coisas fazem as

221 Ibid. Idem; LÊNIN, Vladimir. Op. Cit. In: BAAS, Emile. Ibid. idem. pp. 37 e 39. 222 FUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. In: BAAS, Emile. Ibid. idem. p. 41.

idéias e não as idéias fazem as coisas”, para a seguir destacar uma citação de J. Stálin que diz: “os fenômenos da natureza estão em eterno movimento, e contínuas transformações. O desenvolvimento da natureza é o resultado do desenvolvimento das contradições, isto é, da ação recíproca de forças contrárias da natureza”. 223

Tito destaca e realiza diversos comentários associando e comparando fatores biológicos e ação humana. Assim o método dialético seria “um renovar-se incessante e uma contínua evolução”, sendo o progresso o nascer do novo, a “passagem de um estado qualitativo para outro”. Mas para que a superação histórica aconteça é necessário que em determinadas circunstâncias aconteçam movimentos de rupturas, que identifico como as revoluções. 224

Foi justamente esta concepção que fez surgir uma tensão entre o Frei Tito e as suas leituras, expressas através de uma nova ação escrita tendo novamente T. de Chardin como referência: “Tailhard admitiu tal tese na cosmogênese, mas afirma seguramente que tais saltos bruscos já não mais existirão na evolução pela consciência”. 225 Vemos cá um choque entre a pregação violenta dos marxistas e a transformação pacífica cristã.

Creio que nesta encruzilhada o Frei tomou posição ao se alinhar com a organização que não aceitava nenhum tipo de caminho político que envolvesse táticas graduais ao socialismo. Também não podemos esquecer que aqueles militantes que romperam com o PCB para criar a Ação Libertadora Nacional (ALN), saíram do Partidão acusando-o de imobilismo.

Por outro lado não podemos deixar de recordar que toda leitura é seletiva. As partes que interessavam que poderiam servir de instrumento teórico para a ação política foram aceitas e utilizadas e as que não correspondiam aos anseios de oposição ao sistema foram deixadas de lado pelos leigos, noviços e sacerdotes. O certo é que algumas contradições não impediram que Frei Tito tivesse escolhido ser base de apoio da ALN.

Sobre a violência chama atenção que quando estava lendo os comentários de F. Engels sobre os escritos de K. Marx a respeito da violência na história que diz “É o instrumento graças ao qual o movimento social abre caminho e rompe tôdas as fôrças políticas mortas e paralisadas”. De forma contundente Tito exclamou “Nem sempre”. Quanto a Tito mesmo tendo visto alguma simplificação e exagero nesta representação, na prática a ignorou por completo ao aderir às teses foquistas

223STÁLIN, Josef. Op. Cit. In: BAAS, Emile. Op. Cit. pp. 64-65. 224 STÁLIN, Josef. Op. Cit. In: BAAS, Emile. Op. Cit. p 66.

guevarista e as práticas políticas marighellianas reinantes na ALN, que paradoxalmente acabavam elevando a enésima potência esta visão. 226 Nestas partes encontramos novamente o silêncio do leitor em relação a determinados assuntos. Notas escritas não foram feitas, tudo se resumiu a quatro sublinhações, sendo uma sobre as divergências entre Leon Trotsky e Josef Stálin sobre o tempo necessário da Ditadura do proletariado, outro sobre a luta de classes e o caminho em direção ao mesmo tipo de sistema.

Por último fez um destaque sobre o que caracterizaria o comunismo, “De cada um conforme a sua capacidade, a todos segundo suas necessidades” e o tipo de seres humanos que construiriam o novo: “... um tipo de homem bem diferente do que o de hoje tão inclinado a esbanjar as riquezas públicas, e a exigir o impossível”. 227

Terminada as observações do autor sobre o marxismo, a partir de agora veremos no capítulo IV as Reflexões críticas de Emile Baas, considerando que se trata do olhar de um cristão se opõe a literatura revolucionária, e ainda não privilegiará a economia, mas que tem “A intenção é de fazer um esboço do humanismo marxista e é só sobre este ângulo da filosofia do homem que vamos encetar as reflexões críticas”. 228 No item três matéria e espírito, que, portanto envolvem duas questões que estão muito presentes na discussão, o nosso sujeito mostra familiaridade com o assunto ao escrever “materialismo histórico” para em seguida grifar uma observação de Jacques Maritain a respeito de Santo Tomás de Aquino que “considera imprescindível entre as quatro colunas para o entendimento do homem a casualidade material”. Depois escreve religiosamente que o “espiritual dorme na cama do corpo temporal”.

Mais a frente sublinha o livro de Victor Hugo “Les pauvres gens” e o traduz “Os miseráveis” no instante em que se discutia Homem total ou homen mutilado. Tito só escreverá algo maior no capítulo seguinte que tratará de Pessoa e comunidade, quando Emile Baas diz que “Colocando o amor nas estruturas fundamentais do ser humano, deparamos pela primeira vez o mistério da pessoa. Estão, longe, porém de serem eliminados tôdas as dificuldades”. 229

O jovem Tito então repete a mesma citação, mas através de outro teólogo: “Pe. Congar: o Cristianismo e o mistério da pessoa = vasto mundo...”. Deparamo-nos novamente com outro dominicano francês Yves Congar, também consultor do Concílio

226 MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas. In: BAAS, Emile. Op. Cit. p.82. 227 BAAS, Emile. Ibid. Idem. p. 86. MARX, Karl. Critica ao Programa de Gotha. In: BAAS,

Emile. Op. Cit. pp. 87 e 100; LÊNIN, Vladimir. Pequena Biblioteca Lênin. Op. Cit. In: BAAS, Emile. Op.Cit. p. 101.

228 BAAS, Emile. Op. Cit. p. 110. 229 BAAS, Emile. Ibid. Idem. p. 149.

Vaticano II e um dos defensores da renovação da Igreja Católica na segunda metade do século XX.

Sua obra mais conhecida é Jalons pour une théorie de laïcat, onde defendeu certo grau de autonomia das organizações laicas diante da hierarquia eclesiástica. Para o sociólogo Michael Löwy estas opiniões levaram a consolidação entre os militantes de organizações como a Ação Católica, a qual pertenceu Frei Tito, de posturas que privilegiavam o trilhar de caminhos próprios na sua movimentação política. 230 Como num pêndulo, ora é um teólogo, ora é um dos pais do ateísmo humanista recente, que aparecem interagindo com Tito, como vemos em O homem-Deus e Deus feito homem. Após a frase “O homem é para o homem seu próprio Deus”, este é o princípio que resume talvez de maneira mais exata todo pensamento e toda ação marxista”, ele corrige ou intervém simplesmente para mostrar a origem exata desta observação dizendo: “Ludwig Fuerbach: A essência do cristianismo”.

Na mesma linha pendular nosso revolucionário católico fez sua última participação neste livro após ler uma mensagem do Papa Pio XI que versa sobre a inquietude dos cristãos diante da decretação da morte de Deus e a apologia da ciência e do trabalho como salvadoras da humanidade. Ele pontualiza o raciocínio ao afirmar: “Esta afirmação deve-se particularmente a Nieztche – A morte de Deus”.

In document Pariteter og stabiliseringspolitikk (sider 37-41)