Já tratamos sobre a importância do trabalho para a constituição do homem. Afinal, é por meio da relação que o homem estabelece com a natureza que esse se constitui como um ser vivo diferente dos outros animais. Esse ser, o homem, ao transformar a natureza para resposta a uma necessidade concreta sua, ao mesmo tempo em que a responde, gera novas necessidades. Esse ato, de se pôr consciente perante o mundo em que vive, possibilitou ao homem o desenvolvimento de várias faculdades.
A primeira que aqui queremos chamar atenção é para o caráter teleológico do trabalho, que se expressa pela construção mental do resultado final por parte do homem, que já se inicia na escolha da matéria que pretende ser transformada e por quais meios. Ou seja, antes mesmo de começar sua ação o homem constrói idealmente o resultado que pretende alcançar. Ao final do trabalho o produto não será exatamente igual ao idealizado e se for elaborar um novo produto esse homem, certamente, a par da experiência, o fará por novos meios. Essa capacidade de abstrair o resultado que se quer alcançar é expressão da consciência, característica essencialmente humana, conforme reflete Lukács:
“Solo en el trabajo, en la posición del fin y de sus medios, consigue la conciencia, a través de un acto conducido por ella misma, mediante la posición teleológica, ir más allá de la mera adaptación al ambiente – en la que se incluyen también aquellas actividades de los animales que transforman la naturaleza objetivamente, de manera involuntaria –, y
83 Utilizamos como referência a versão portuguesa desse documento com quatro páginas. Neste país a
tradução do nome da entidade não é FITS (como no Brasil) e sim FIAS (Federação Internacional de Assistentes Sociais). Daí, a referência bibliográfica: FIAS, 2007.
consumar en la propia naturaleza cambios que para ella resultan imposibles e incluso impensables”84 (Lukács, 2004: 80).
Assim, a consciência – que pelo trabalho se materializa em ação, portanto não é apenas elucubração mental – é uma característica essencial do ser, o homem, que se constitui pelo trabalho. É num largo tempo histórico que o ser desenvolve, além da consciência, outras habilidades que o fazem se constituir em homem.
No processo de transformação da natureza o homem identifica a necessidade de construir instrumentos de trabalho que o ajudem na tarefa. Assim, esses instrumentos – resultados de sua ação consciente – são construídos exclusivamente para responder às necessidades humanas – e nesse processo o homem já escolhe, e valora, qual material da natureza serve melhor para suas intenções. Esses instrumentos também podem ser superados ou não, reconstruídos ou não, em virtude da sua factibilidade.
“Cuando el hombre primitivo elige, de entre una masa de piedras, una que le parece apropiada para sus fines, y abandona las restantes, es claro que aquí se presenta una elección, una alternativa. (...). La piedra elegida como instrumento es elegida, sin embargo, a través de un acto de conciencia que ya no posee carácter biológico. Es preciso reconocer determinadas propiedades de la piedra – a través de la observación y la experiencia; es decir, a través del reflejo y su elaboración acorde con la conciencia –, que la tornan apropiada o inapropiada para la finalidad planeada”85 (Lukács, 2004: 89).
É ainda por meio do processo de transformação da natureza que o homem constitui a linguagem86. Afinal, devido à necessidade de melhor potencializar o trabalho é que o
84 “Somente no trabalho, na posição do fim e dos seus meios, consegue a consciência, através de um ato
conduzido por ela mesma, mediante a posição teleológica, ir além da mera adaptação ao ambiente - no que também se incluem aquelas atividades dos animais que transformam a natureza objetivamente, de maneira involuntária -, e consumar na própria natureza mudanças, que para ela resultam impossíveis e inclusive impensáveis”. (Tradução nossa)
85 “Quando o homem primitivo escolhe dentre uma massa de pedras, uma que lhe parece apropriada para seus
fins, e abandona as restantes, é claro que aqui se apresenta uma escolha, uma alternativa (...). A pedra escolhida como instrumento é escolhida, sem dúvida, através de um ato de consciência que já não possui caráter biológico. É preciso reconhecer determinadas propriedades da pedra – através da observação e da experiência; é dizer, através do reflexo e sua elaboração de acordo com a consciência – que a tornam apropriada ou inapropriada para a finalidade planejada”. (Tradução nossa)
86 “Es evidente por naturaleza que, una vez que las necesidades del trabajo han impulsado el surgimiento del
lenguaje y el pensamiento conceptual, la evolución de estos tiene que mostrar una interrelación ininterrumpida, indisoluble, y el hecho de que el trabajo también constituye de ahí en más el factor dominante, no anula la permanencia de tales interrelaciones, sino que las refuerza e intensifica. De esto se sigue necesariamente que dentro de un complejo tal, debe tener lugar uma influencia ininterrumpida del trabajo sobre el lenguaje y el pensamiento conceputal, y viceversa” (Lukács, 2004: 106). Nossa tradução: “É evidente por natureza que, uma vez que as necessidades do trabalho tenham impulsionado a linguagem e o
homem desenvolve a necessidade de se comunicar com outros homens. Aliás, a necessidade de estabelecimento de uma relação do homem com outros homens é constitutiva da essência do ser; assim, portanto, o trabalho, é também na sua origem coletivo.
É ainda na riqueza possibilitada pelo trabalho que o homem pode exercer a sua liberdade, pois somente neste é que esse ser passa a realizar escolhas. Ao transformar a natureza o homem escolhe caminhos, elege um ou outro.
“Dicho a partir de una primera aproximación, la libertad es aquel acto de la conciencia como resultado del cual surge un ser nuevo, puesto por ella. Ya aquí se aparta nuestra concepción ontológico-genética de la concepción idealista. Pues, en primer lugar, el fundamento de la libertad consiste – si queremos hablar racionalmente de ella en cuanto factor de la realidad – en una decisión concreta entre diversas posibilidades concretas; si la cuestión a elegir es elevada a un grado mayor de abstracción, si es separada totalmente de lo concreto, pierde toda conexión con la realidad y se convierte en una especulación vacía. En segundo lugar, la libertad es una voluntad – en última instancia – de transformar la realidad (que, ciertamente, bajo determinadas circunstancias comprende la preservación de la situación dada); con lo cual la realidad debe ser conservada, en cuanto fin de la transformación, incluso en la más amplia abstracción”87 (Lukács, 2004: 166-167).
A liberdade se funda no entendimento do trabalho, processo em que o homem age em busca de resposta a uma necessidade. Mesmo que a resposta a essa necessidade seja singular, o homem dá resposta a questões postas na sociedade determinada em que vive.
pensamento conceitual, a evolução destes têm que mostrar uma interrelação ininterrupta, indisolúvel, e o feito de que o trabalho também constitui de aqui em mais um fator dominante, não anula a permanência de tais interrelacões, ao contrário as reforça e as intensifica. Disto se segue necessariamente que dentro de um complexo tal, deve ter lugar uma influência ininterrupta do trabalho sobre a linguagem e o pensamento conceitual, e vice versa”.
87 “Dito, a partir de uma primeira aproximação, a liberdade é aquele ato da consciência como resultado do
qual surge um novo ser, posto por ela. Já aqui se separa nossa concepção ontológico-genética da concepção idealista. Pois, em primeiro lugar, o fundamento da liberdade consiste – se queremos falar racionalmente dela enquanto um fator da realidade – em uma decisão concreta entre diversas possibilidades concretas; se a questão a escolher é elevada a um grau maior de abstração, se é separada totalmente do concreto, perde toda conexão com a realidade e se converte em uma especulação vazia. Em segundo lugar, a liberdade é uma vontade – em última instância – de transformar a realidade (que, certamente, sob determinadas circunstâncias compreende a preservação da situação dada); com a qual a realidade deve ser conservada, enquanto fim da transformação, inclusive na mais ampla abstração”. (Tradução nossa)
Contudo, o homem sempre tem diante de si a possibilidade de respostas alternativas, ou seja, pode escolher entre isto ou aquilo88 (Lukács, 2008).
Portanto, ao escolher o homem está exercendo a sua liberdade, entendida não como algo no campo do ideal, do humanamente inalcançável e sim como uma possibilidade concreta e historicamente dada. Assim, o exercício da liberdade deve aqui ser compreendido como a escolha entre alternativas concretas. Ser livre hoje é diferente de ser livre nos anos cinqüenta. Contudo, se hoje, ou lá, existir a possibilidade de escolha
consciente o homem é livre. Por isso:
“Diz-se que só o homem pode-se comportar como ser ético porque só ele é capaz de agir teleologicamente. Para tal, ele cria alternativas de valor, escolhe entre elas, incorporando-as em suas finalidades; por isso o ser social é também capaz de viver com liberdade, capacidade fundamental do agir ético. Para que a liberdade exista é preciso que os homens tenham, objetivamente, condições sociais que lhes permitam intervir conscientemente na realidade, transformando seus projetos ideais em alternativas concretas de liberdade, ou seja, de novas escolhas e novos projetos” (Barroco, 1999:122).
Assim, pelo que aqui vimos, podemos entender, tal qual nos ensina Lukács, que é
pelo trabalho que o homem se auto-constrói e se diferencia dos outros animais. Ao dominar a natureza, mas sem nunca poder viver fora dela, o homem se constitui num novo ser, o humano genérico, o ser social. (Lukács, 2004: 102).
O ser social nada mais é que o homem, constituído pelo trabalho, entendido este por Lukács (2004) como o modelo de toda práxis social89. Mas não é o trabalho a única forma de práxis, pois existe aquela que centra na relação de transformação dos homens sobre os próprios homens. Sobre isso distingue Lukács:
“El trabajo en este sentido originario y restringido, contiene un proceso entre la actividad humana y la naturaleza: sus actos están orientados a la transformación de objetos naturales en valores de uso. En las formas posteriores, más evolucionadas de praxis social, aparece además, en primer
88 Para explicar esse raciocínio é recorrente em Lukács a célebre afirmação de Marx de que os homens
constroem a sua história, mas não em condições por si escolhidas.
89 Conforme registrou Gajo Petrovic, em sua contribuição ao dicionário organizado por Bottomore (2001):
“A expressão práxis refere-se, em geral, a ação, a atividade, e, no sentido que lhe atribui Marx, à atividade livre, universal, criativa e auto-criativa, por meio da qual o homem cria (faz, produz), e transforma (conforma) seu mundo humano e histórico e a si mesmo; atividade específica ao homem, que o torna basicamente diferentes de todos os outros seres”. Para Heller (1992: 32): “A atividade prática do indivíduo só se eleva ao nível da práxis quando é atividade humano-genérica consciente; na unidade viva e muda de particularidade e generidade, ou seja, na cotidianidade, a atividade individual não é mais do que uma parte da práxis, da ação total da humanidade que, construindo a partir do dado, produz algo novo, sem com isso transformar em novo o já dado”.
plano, el efecto sobre otros hombres, cuyo objeto es en última instancia – por cierto que solo en última instancia – uma mediación para la producción de valores de uso. (...) El contenido esencial de la posición es, sin embargo, a partir de ahora – dicho en términos muy generales, muy abstractos – la tentativa para conseguir que un hombre (o un grupo de hombres) realice, por su parte, posiciones teleológicas concretas.”90 (Lukács, 2004: 103).
Portanto, o ser social aqui é o homem no máximo da sua potencialidade – criador, sujeito da suas escolhas, portador em si de toda a essência humana – resultado da sua autocriação por meio do trabalho. Conforme aponta Marx:
“O homem faz da sua atividade vital mesma um objeto da sua vontade e da sua consciência. Ele tem atividade vital consciente. Esta não é uma determinidade (Bestimmtheit) com a qual ele coincide imediatamente. A atividade vital consciente distingue o homem imediatamente da atividade vital humana. Justamente, [e] só por isso, ele é um ser genérico. Ou ele somente é um ser consciente, isto é, a sua própria vida lhe é objeto, precisamente porque é um ser genérico. Eis por que a sua atividade é atividade livre. (Marx, 2004: 84. Colchetes e parênteses originais).
Contudo, na história da humanidade o homem foi se afastando gradualmente dessa grandeza e se abstraindo de si mesmo (perdendo a sua identidade com os outros homens) e se alienando progressivamente (ao não se ver no trabalho, como processo de sua auto- criação). É sobre isso que passaremos a refletir.