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Posso ouvir o vento passar assistir a onda bater mas o estrago que faz a vida é curta para ver... O Vento, Marcelo Camelo

O trabalho pesqueiro articula-se dentro de um processo de aprendizado partilhado pelos comunitários, cuja interpretação do ritmo da natureza torna-se primordial. Além do mais, nas comunidades costeiras ligadas à pesca a apropriação social dos recursos disponíveis nas águas, nos seus mais diferentes níveis ecológicos, não seguem apenas estratégias de susbsistência; pelo contrário, esta apropriação é organizada dentro de um sistema de crenças culturais e valores morais que se entrelaçam construindo identidades sociais que se articulam com um sentido de lugar (CORDELL, 2000; BRITTO, 1999). Esse “sentido de lugar” pode ser percebido como um elemento de sociabilidade que se constrói através das relações de produção, tendo como vetor o espaço como fundante e fundador das relações sociais.

Figura. 8: Banhistas e pescadores se confundem nas águas do rio em Barra do Cunhaú. Foto: Rubens Elias da Silva

A apropriação social dos recursos aquáticos é desenvolvida segundo sistemas tradicionais de manejo que abarcam formas comunais de propriedade (CORDELL, Idem). Em Barra do Cunhaú, a apropriação social dos recursos disponíveis em seus ecossistemas é organizada segundo parâmetros consuetudinários de quem pode e deve se relacionar com as “coisas da água”12. Essa apropriação dá-se através da herança de várias gerações que já se relacionavam com o mar ou estuário, num processo incessante de socialização dos mais jovens com “os assuntos ou coisas da água”. Sem dúvida, esse processo de aprendizado de quando e como se apropriar dos espaços da produção tem forte conotação cultural, histórica, econômica e, por que não, religiosas (CORDELL, Idem).

Pode-se citar uma peculiaridade cultural observada na organização social do espaço em Barra do Cunhaú. Os pescadores – via relações de produção – têm forte identificação social com as embarcações onde se desenrolam as relações sociais fora da terra. Não obstante, essa identificação social viabiliza uma significativa forma de apropriação cultural de propriedade: a dimensão simbólica de nomear as embarcações segundo estratégias comunais de parentesco.

O sistema de propriedade das embarcações é uma extensão da lógica das relações interpessoais na comunidade. Isso não quer dizer, necessariamente, que a apropriação das embarcações não perpasse pela esfera econômica; longe disso, a própria estrutura da embarcação, capacidade de velocidade e de embarcar tripulantes, entre outros, é um fato inconteste da diferenciação e prestígio sociais dos que têm capital suficiente para ter um “bote” como posse.

Os modos como as comunidades pesqueiras constroem e mantêm seus botes, são elementos marcantes e estruturais à pesca simples, pois geralmente respondem a outros princípios da cultura do grupo a que pertencem e do sistema em que operam (MALDONADO, 1993, p. 71).

“O bote é a família”, sentenciou um pescador artesanal durante a pesquisa de campo de Maldonado (1993). Diante de uma constatação pontual acerca das relações de trabalho no mundo da pesca “o bote é a família”, reverbera objetivamente as complexas relações entre trabalho, instrumentos e o processo de reprodução social. Essa

ideologia acerca da importância da embarcação no universo pesqueiro fica evidente diante dos nomes de batismos das embarcações.

Foram elencadas três formas ideais típicas com relação às nomenclaturas das embarcações, deixando evidente como a cultura pesqueira também se faz presente nessas representações nominais. Foram registradas oito embarcações cuja nomenclatura faz alusão às qualidades físicas ou psicológicas dos embarcados. Em Baía Formosa foram catalogadas as embarcações Coração Valente, Valente e Rei do Mar; em Barra do Cunhaú, por sua vez, foram listadas as embarcações Sonho Meu, Brutus e Jóia do Cunhaú. Sem dúvida, a titulação das embarcações parece relacionar, no plano da intersubjetividade do grupo social, a ideia de que trabalhar no mar ou no estuário requer dos embarcados determinadas qualidades físicas e psicológicas. A ênfase a essas qualidades parece concordar com as considerações analíticas de Maldonado (1993) quando diz que:

Na pescaria, a noção de sorte, que é apanágio dos bons pescadores e sobretudo uma qualidade pessoal dos mestres, se expressa em fenômenos que ocorrem nas tensões específicas do seu meio social [...] refletindo-se na estabilidade das tripulações e no resultado da pesca [...] Em certa medida, a situação social reflete o fato de ser o mar um meio de posse comum, o que influencia os níveis de competição levando a recorrência de conflitos (MALDONADO, Idem, p. 163).

A pesca é uma atividade humana que oferece inúmeros riscos àqueles que a utilizam como meio de reprodução social. É um trabalho que, assim como a mineração e o nomadismo no deserto, por oferecerem risco por conta do distanciamento e isolamento necessários à produção, requerem atitudes corajosas frente à instabilidade do meio (MALDONADO, Idem). Sendo assim, ainda segundo Maldonado (Idem), os pescadores artesanais necessitam de mecanismos sociais fortes para superar dificuldades inerentes ao meio de produção, como forma de amainar o confronto com riscos e fatos objetivos que nem sempre podem dominar e vencer (MALDONADO, Idem; DIEGUES, 2004).

Por conta das condições acima descritas, os proprietários das embarcações parecem querer reforçar essa ideologia do “heroísmo” mediante a presença do risco, cristalizada pela nomeação das embarcações em Barra do Cunhaú: Sonho Meu, Brutus e Jóia do Cunhaú. Com isso, entre os pescadores, as qualidades físicas e psicológicas têm que ser enfatizadas e compartilhadas, de modo a administrar no plano social a constatação de que as embarcações são frágeis13 mediante a imensidão da natureza e pela possibilidade sempre presente de sofrer agressão de peixes grandes (MALDONADO, Idem).

Medo, insegurança e risco são categorias sociais presentes na vida social dos pescadores artesanais. As águas bravias sempre ofereceram perigo àqueles que as desafiam. Concomitantemente com as estratégias sociais encetadas pelos proprietários das embarcações para reforçar uma “ideologia do heroísmo”, foi catalogada uma estratégia refratária a essa ideologia do heroísmo, cuja articulação se desenvolve a partir de relações simbólico-religiosas com o espaço marítimo ou estuarino. Foram enumeradas duas embarcações cuja nomenclatura faz alusão à dimensão religiosa dos embarcados. Em Barra do Cunhaú, Com Jesus vencerei, Janaína e Yemanjá.

13 Maldonado (1993) cita um provérbio costeiro francês que enuncia “A tábua que nos separa dos mortos”.

Figura.9 :Catraia seguindo para o bote: pescadores se preparando para a pesca da albacora em alto mar. Foto: Rubens Elias da Silva

A terceira tipificação remete às relações familiares, quando as embarcações recebem nomes de familiares ou homenageiam-se pescadores por suas atitudes de bravura durante o trabalho. Mais uma vez deve-se recorrer a ideia de risco para compreender a lógica interna do trabalho da pesca artesanal. Por ser uma atividade laboral empreendida num espaço diverso da terra, oferece riscos à vida dos embarcados. Sendo assim,

Por ser uma atividade caracterizada pela condição de risco e pela necessidade de se ter segredo em relação às rotas aquáticas para se atingir os melhores locais de pescaria, pescar com a família (pais, irmãos, primos), amigos e compadres, acaba sendo fundamental para que a atividade alcance os fins almejados (RAMALHO, 2006, p. 58).

O trabalho pesqueiro exige determinadas posturas daqueles que utilizam os territórios aquáticos como meio de produção. Confiança mútua, coragem, sentimento de grupo e trabalho racionalmente coordenado possibilitam vantagens concretas nas relações estabelecidas enquanto embarcados (MALDONADO, 1993; RAMALHO, 2006). Em virtude das singularidades das relações sociais desenvolvidas ao longo do trabalho da pesca, é mister afirmar que os sentimentos de solidariedade concedam ao universo do trabalho pesqueiro uma lógica interna distribuída segundo princípios de familiaridade – entendidos como organização da vida social baseado na unidade Figura.10 : Porto de Baía Formosa. Foto: Rubens Elias da Silva

familiar – que ficam evidentes no modo como as embarcações são nomeadas e distribuídas sob critérios de posse14. A pesca artesanal, assim, é o espaço que se constrói e se reorganiza pelas sociabilidades gestadas na parentela, como vetor de intercambiação entre passado, presente e uma projeção daquilo que se entende por “futuro” (RAMALHO, Idem).

A construção da identidade e identificação, enquanto pescador, é balizada pela apreensão dos ciclos naturais e o meio natural onde as relações sociais são aprendidas, transmitidas e reelaboradas. A interpretação dos ciclos da natureza como tipos de massa de ar, cardumes, períodos lunares, identificação e mapeamento das zonas de pesca compreendem uma forma de conhecimento inerente ao ser social enquanto pescador. Em contrapartida, sem a elaboração desse conhecimento, capaz de interferir e reorganizar o meio natural e as relações de trabalho, não se faz pescador. Esse savoir- faire é fruto de experiências adquiridas por longos anos de convivência social e inserção no trabalho da pesca.

Diante do exposto, pode-se considerar que o espaço da produção da pesca se organiza segundo padrões culturais locais, cujo vetor de solidariedade social é articulado pelas relações de parentesco e vizinhança. Nesse modo peculiar de solidariedade social, o trabalho assume posição de primazia no estabelecimento de relações sociais, não somente no mundo da pesca, mas compreende o universo sociocultural mais amplo que comporta a vida coletiva de Barra do Cunhaú e Baía

14 Maldonado (1993: 56), diz que “a pesca se caracteriza entre outras coisas pela utilização do parentesco como critério de organização e de divisão do trabalho”.

Figura. 11: A pesca artesanal, assim, é o espaço que se constrói e se reorganiza pelas sociabilidades gestadas na parentela. Foto: Rubens Elias da Silva

Formosa. Diante disso, não se pode compreender as complexas relações sociais de produção da pesca sem colocar no contexto de uma universalidade social da qual os pescadores fazem parte e a definem conforme circunstâncias e condições concretas (RAMALHO, 2006).

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