8.2 Med ulike starttilstander
9.1.1 Modell 2 og 3
Antes de iniciarmos a análise de Ninguém para me acompanhar, faz-se necessário conceituar as nossas duas principais categorias de análise : gênero e etnia.
Rita Terezinha Schmidt (1994), em um artigo intitulado Da ginolatria à genologia : sobre a função teórica e a prática feminista, afirma que
Enquanto que o termo sexo se refere ao dado biológico, o termo gênero constitui um sistema cultural, psicológico e literário construído a partir de idéias, comportamentos, valores e atitudes associados aos sexos, através do qual se inscreve o homem na categoria masculino e a mulher na do feminino. Essas categorias desempenham papéis na sociedade, no contexto do poder patriarcal, moldando realidades e processos de significação, pois está na base da ordenação simbólico-conceitual do mundo de acordo com o princípio da Lei do Pai. (SCHMIDT, 1994, p. 31-32)
A idéia de gênero como uma representação cultural, e não biológica, é ampliada por Teresa de Lauretis. Ela acredita que a noção de gênero nos possibilita vislumbrar um sujeito que se constitui a partir do gênero, numa composição múltipla, baseada em elementos como raça e classe, dando origem a um ser múltiplo, dividido e contraditório. (LAURETIS, 1987 apud DESCARRIES, 2000).
É nesse sentido que pretendemos pensar a categoria gênero – como uma construção social que se estabelece também em relação à classe social e etnia.
Uma outra questão importante é apontada por Cíntia Schwantes29:
Cada época elabora, a partir de suas necessidades econômicas e políticas, um ideal de feminilidade, e de masculinidade, que permita à sociedade manter-se operacional através de uma divisão de tarefas entre seus membros. Essa divisão é determinada tanto pela classe social quanto pelo sexo dos componentes de cada sociedade. Como parte do aparato ideológico que sustenta uma determinada ordem social, o gênero se constrói tanto na prática diária dos indivíduos quanto nos discursos que determinam estas práticas.
29 SCHWANTES, Cíntia. Interferindo no cânone: a questão do Bildungsroman feminino com elementos góticos, 1998. 298 f. Tese (Doutorado em Literatura Comparada) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1998. p. 19.
De maneira similar, ocorre a construção da idéia de etnia – um processo que se realiza tanto a partir das experiências de determinados grupos que compartilham a mesma origem e vivências (geralmente relacionadas a privações materiais) quanto a partir dos discursos que descrevem e determinam essas experiências.
De acordo com Hall30, “[a] etnia é o termo que utilizamos para nos referirmos às características culturais – língua, religião, costume, tradições, sentimentos de ‘lugar’ – que são partilhadas por um povo.”
Por outro lado, Carlos Rodrigues Brandão31, em Identidade & Etnia: Construção da pessoa e resistência cultural, antes de definir o conceito de etnia, discute o próprio conceito de pessoa e afirma que a pessoa é :
uma característica ideológica, uma representação social. Deste modo ela existe na encruzilhada onde as sociedades e suas culturas articulam, ao longo da história da organização social e simbólica de sua vida material, as suas relações de poder, de amor, de parentesco com as representações que a partir daí elas fazem do mundo e de suas existências individualmente coletivas.
Da mesma forma que o conceito de pessoa pode ser definido como uma representação social, assim também é o conceito de etnia. Para Brandão (1986, p. 105-106)
um grupo étnico possui ao mesmo tempo uma realidade de organização e de
adscrição. Ele existe como grupo enquanto preserva a sua própria organização em meio a outras organizações sociais, entre outros grupos organizacionais, frente a outros tipos de sociedades: equivalentes, diferentes ou desiguais. Ele existe como étnico enquanto preserva a sua própria identidade. Enquanto é capaz de atribuir a si próprio e fazer serem atribuídas pelos outros adscrições enunciadoras de diferenças étnicas: valores de uma identidade étnica.
Outra questão levantada por Brandão é que não podemos esquecer que a etnicidade também é um processo que busca reivindicações políticas. Não é, portanto, apenas, um conjunto de crenças, valores e idéias, é também um conjunto de condutas.
Por outro lado, Ellis Cashmore32 afirma que a expressão “grupo étnico” refere-se à resposta criativa de um povo [composto por pessoas que se aproximaram por compartilharem
30 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. p. 62.
31 BRANDAO, Carlos Rodrigues. Identidade & Etnia: construção da pessoa e resistência cultural. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 28.
experiências comuns e uma mesma origem] que, de alguma maneira, se sente marginalizado pela sociedade.”
É de Cashmore (2000, p. 202-203) a seguinte síntese:
Em resumo: (1) etnia é o termo usado para abranger vários tipos de resposta de diferentes grupos; (2) o grupo étnico baseia-se nas apreensões subjetivas comuns, seja das origens, interesses ou futuro (ou ainda uma combinação destes); (3) a privação material é a condição mais fértil para o crescimento da etnia; (4) o grupo étnico não tem de ser uma ‘raça’ no sentido de ser visto pelos outros como algo inferior, apesar de haver uma forte superposição desses dois conceitos, e muitos grupos que se organizam etnicamente serem freqüentemente designados por outros como uma ‘raça’; (5) a etnia pode ser usada para vários propósitos diferentes – algumas vezes, como um manifesto instrumento político, outras, como simples estratégia de defesa diante da adversidade; (6) a etnia pode vir a ser uma linha divisória cada vez mais importante na sociedade, embora nunca esteja inteiramente desconectada dos fatores de classe.
Como observamos nas definições acima, podemos encontrar muitas similaridades entre os conceitos de gênero e etnia – ambos são construções sociais, que não podem ser confundidos com os conceitos de sexo e “raça”33, respectivamente. Ambos também são marcados por articulações entre gênero/etnia e classe social. É justamente sob essa perspectiva que pensaremos as representações de gênero e etnia – como conceitos que indicam sujeitos construídos socialmente, a partir de uma série de cruzamentos entre classe, etnia, gênero, nacionalidade, entre outros.
33 O conceito de “raça” já perdeu o suporte científico, como frisa Hall (2005,p.62-63) “A diferença genética – o último refúgio das ideologias racistas – não pode ser usada para distinguir um povo do outro. A raça é uma categoria discursiva e não uma categoria biológica.” (grifo do autor).