3. Model framework
3.2. Model understanding
O modelo de Sperber e Wilson (1995), baseado no Principio da Relevância, propõe um sistema de inferências não-triviais, pois as implicações contextuais são derivadas da relação entre enunciado e contexto cognitivo, o que foge do tradiciocional cálculo lógico- dedutivo. Nesse modelo de comunicação ostensivo-inferencial, defende-se, basicamente, que há, por parte do falante, a intenção de alcançar efeitos cognitivos no ambiente cognitivo do
ouvinte a partir do menor esforço possível, por parte do último, para processar novas informações oferecidas pelo primeiro.
Além dessa sistemática, o que foi abordado até este momento é a questão do contexto que, de acordo com a TR, não é dado de início, e sim ao longo do processamento das informações, no qual suposições são acrescentadas – ou não - ao contexto (em constante mudança) a partir do enunciado a ser interpretado. Também o contexto é peça importante para a TR, posto que o esforço do processamento da informação nova é proporcional à acessibilidade do contexto cognitivo utilizado: quanto mais acessível o contexto, menos esforço mental e, consequentemente, maior a relevância da informação; ao contrário, quanto menos acessível o contexto, mais esforço mental e, consequentemente, menor a relevância da informação. Esse é o chamado processamento ótimo da informação, que implica a escolha do melhor contexto para a obtenção de mais efeitos com o mínimo de esforço e que pressupõe a Presunção da Relevância ótima, cuja definição, segundo Sperber e Wilson (1995, p.164), é a seguinte:
Presunção da Relevância Ótima
(a) O conjunto de suposições I que o comunicador pretende tornar manifesto ao destinatário é relevante o suficiente para fazer valer à pena, ao último, processar o estímulo ostensivo.
(b) O estímulo ostensivo é o mais relevante que o comunicador poderia ter usado para comunicar I.
Além do esforço mental exigido do ouvinte para o processamento da nova informação, parafraseado em (a), acima, e dos efeitos contextuais da nova informação sobre o contexto cognitivo do interlocutor, parafraseado em (b), acima, Sperber e Wilson (1995) melhoram a definição de Presunção de Relevância Ótima, levando em consideração as próprias expectativas do destinatário (quanto ao esforço necessário para atingir alguns efeitos contextuais) e do falante (quanto ao seu esforço, preferências e habilidades):
(xvii) O estímulo ostensivo é relevante o suficiente para merecer o esforço do destinatário para processá-lo.
(xviii) O estímulo ostensivo é mais relevante compatível com as habilidades e preferências do comunicador.
Sperber e Wilson (1995) ilustram essa simplificação do conceito de Presunção da Relevância Ótima e suas conseqüências com um exemplo abaixo adaptado:
Ana quer deixar manifesto para Pedro, seu chefe, que terá que se ausentar do trabalho na agência de publicidade por um período durante a manhã, entre10 e 12h. Para tanto, pode-se utilizar dos seguintes enunciados:
Não vou estar na agência entre 10h e 12h;
Não vou estar na agência entre 10h-12h: estarei visitando um cliente;
Não vou estar na agência entre 10h-12h: estarei visitando um cliente, porque ele está solicitando uma nova campanha publicitária.
Para Sperber e Wilson (1995), a informação realmente relevante é o fato de que Ana não estar na agência entre 10h e 12h; em segundo plano, estão o lugar onde ela estará e o motivo de sua saída. O fato principal aqui é que, em qualquer um dos três enunciados, sob o ponto de vista de Maria, atinge-se a intenção comunicativa de Ana, seja através de (a), (b) ou (c). O mais racional, no entanto, segundo os autores, é que Ana comunique-se com seu chefe através do enunciado que garanta mais relevância para Pedro, ou seja, através do enunciado cumpra melhor com a Presunção de Relevância Ótima. O enunciado mais relevante então, será o (c).
Conforme anteriormente afirmado, para Sperber e Wilson (1995), a suposição não é relevante em si mesma, mas somente é considerada relevante com relação a uma situação de comunicação e com os indivíduos nela envolvidos e suas diferentes realidades e especificidades. Nesse sentido é que se introduz, aqui, sob o ponto de vista do ouvinte, a noção de Relevância para um indivíduo, que busca o equilíbrio entre efeitos cognitivos e esforço de processamento através do melhor contexto possível para processar otimamente uma suposição. Tal noção é definida por Sperber e Wilson (1995) sob duas perspectivas: a classificatória e a comparativa.
A perspectiva classificatória define as condições necessárias e suficientes para o enquadramento de um elemento em uma classe conceitual, já a comparativa leva em consideração os julgamentos dos diferentes graus de manifestações de um determinado fenômeno. Assim, de acordo coma perspectiva classificatória, um enunciado pode ou não ser
relevante para um mesmo indivíduo, ao passo que, em termos comparativos, um enunciado por ser mais relevante que outro. Sperber e Wilson (1995) formalizam esses conceitos da seguinte forma:
Relevância para um indivíduo (definição classificatória)
Uma suposição é relevante para um indivíduo em um dado momento se e somente se é relevante em um ou mais contextos acessíveis para tal indivíduo naquele momento.
Relevância para um indivíduo (definição comparativa)
(xix) Condição de extensão I: uma suposição é relevante para um indivíduo na medida em que os efeitos contextuais alcançados pelo processamento ótimo de suposição são amplos.
(xx) Condição de extensão II: uma suposição é relevante para um indivíduo na medida em que o esforço cognitivo necessário para o processamento ótimo de tal suposição é pequeno. (Sperber e Wilson, 1995, p. 144-145).
Retomando o exemplo acima analisado, se o enunciado de Ana fosse proferido para um desconhecido, sem nenhuma relação com seu trabalho, não teria nenhuma significação; consequentemente, não seria relevante: já que esta pessoa não tem relação alguma com Ana, não precisaria demandar energia cognitiva para entender o que Ana quis dizer.
Sperber e Wilson, no Postfácio da segunda edição de Relevance: Communication and
Cognition (1995), modificam o conceito de Relevância para um indivíduo, somando ao
objetivo inicial possíveis objetivos espistemológicos do falante, ou seja, o aumento do seu conhecimento de mundo e/ou a reorganização de seus conhecimentos, que, quando atingidos, se caracterizam como efeito cognitvo positivo. Assim, os autores propõem uma substituição dos conceitos anteriormente citados por:
Relevância para um indivíduo (definição classificatória)
Uma suposição é relevante para um indivíduo em um dado momento se e somente se trouxer efeitos cognitivos positivos em um ou mais contextos acessíveis para tal indivíduo naquele momento.
Relevância para um indivíduo (definição comparativa)
(xxi) Condição de extensão I: uma suposição é relevante para um indivíduo na medida em que os efeitos contextuais positivos alcançados pelo processamento ótimo de tal suposição são amplos.
(xxii) Condição de extensão II: uma suposição é relevante para um indivíduo na medida em que o esforço cognitivo necessário para se atingirem tais efeitos contextuais positivos é pequeno (Sperber e Wilson, 1995, p. 265 -266).
Definidos os conceitos de Relevância para um indivíduo, faz-se importante observar o conceito de Relevância de uma suposição, igualmente definido a partir de um ponto de vista classificatório e de um comparativo:
Relevância de uma suposição (definição classificatória)
Uma suposição é relevante em um contexto se e somente se apresentar algum efeito contextual no contexto em questão (SPERBER e WILSON, 1995, p.122)
Relevância de uma suposição (definição comparativa)
(xxiii) Condição de extensão I: uma suposição é relevante em um contexto na medida em que os efeitos contextuais promovidos por esta suposição em tal contexto são amplos.
(xxiv) Condição de extensão II: uma suposição é relevante em um contexto na medida em que o esforço requerido para o processamento dessa suposição em tal contexto é pequeno. (SperbereWilson, 1995, p.125)
Assim, Sperber e Wilson (1995) confirmam que a suposição se torna relevante de acordo com uma situação de comunicação e com os interlocutores que se fazem presentes; em outras palavras, a suposição em si não é relevante. Dada uma situação onde um dos interlocutores não faça parte daquele mundo, a energia cognitiva demandada não consegue chegar a efeitos contextuais justificados.
Além da Relevância para um indivíduo e da Relevância de uma suposição, Sperber e Wilson (1995) definem o conceito de Relevância de um fenômeno, que preconiza que alguns fenômenos são relevantes para os indivíduos de acordo com um esforço cognitivo que
mobiliza atenção e a energia mental para tanto. Os autores definem a relevância de um fenômeno da seguinte forma:
Relevância de um fenômeno (definição classificatória)
Um fenômeno é relevante para um indivíduo se e somente se uma ou mais suposições feitas manifestas a esse indivíduo são relevantes a ele.
Relevância de um fenômeno (definição comparativa)
(xxv) Condição de extensão I: um fenômeno é relevante para um indivíduo na medida em que os efeitos contextuais alcançados, quando do processamento ótimo de tal fenômeno, são amplos.
(xxvi) Condição de extensão II: um fenômeno é relevante para um indivíduo na medida em que o esforço cognitivo necessário para processar tal fenômeno é pequeno (SperbereWilson, 1995, p.152-153)
Dados os conceitos acima, Sperber e Wilson (1995) deixam claro que um estímulo é um fenômeno que tem, como objetivo, realizar os efeitos contextuais. Consequentemente, em uma situação de diálogo, o falante que deseja produzir um efeito cognitivo específico, deve produzi-lo de forma que, quando processado otimamente, atinja somente o efeito pretendido. Vejamos um exemplo no qual se pode ilustrar a relevância de uma suposição e a relevância de um fenômeno:
Pedro mora sozinho em um apartamento e tem um cachorro, chamado Buddy. Toda vez que Pedro chega no corredor do andar de seu apartamento, Buddy ouve seus passos, vai até a porta do apartamento começa a latir. Quando Pedro entra em casa, Buddy continua a latir e fica aos pés de seu dono, pedindo atenção e carinho. Nesse caso, Pedro não ativa nenhum esforço mental para fazer qualquer suposição, porque trata-se de uma situação cotidianas e normal; portanto, nenhum fenômeno é manifesto que chame sua atenção. Como não existe um fenômeno relevante, consequentemente, não existem suposições relevantes.
Certo dia, Pedro chega no corredor de seu apartamento e não ouve os latidos de Buddy; ao abrir a porta, Buddy não vem ao seu encontro. Pedro sente um forte cheiro de lixo o que faz com que algumas suposições se manifestem a ele, como:
(a) Buddy deve ter feito alguma coisa errada, e deve estar escondido; (b) Buddy deve ter virado o lixo da cozinha;
(c) Buddy esta com medo da repreensão do dono;
Nesse caso, os fenômenos não usuais observados por Pedro tornam-se relevantes à medida que a energia cognitiva para processá-los otimamente traz os respectivos efeitos contextuais (a), (b) e (c), que se tornam, assim, suposições relevantes.
Com base em todos os conceitos até aqui desenvolvidos, Sperber e Wilson (1995) assim caracterizam o Princípio da Relevância9: “Princípio da Relevância: Todo ato de comunicação ostensiva comunica a presunção de sua relevância ótima” (SPERBER e WILSON, 1995, p58).
Se somente observamos este princípio, sem levar em consideração todo o construto teórico elaborado pelos autores, torna-se difícil apreender detalhadamente as implicações do modelo criado por Sperber e Wilson (1995) e, consequentemente, perde-se muito da sua colaboração para o entendimento da comunicação inferencial.
O ponto mais básico de toda a TR e, portanto, mais significativo para esta tese, é o fato de toda ostensão carregar, em si, uma garantia de relevância, que torna manifesta a intenção por trás da ostensão. Isso posto, deve-se levar em consideração que o Princípio da Relevância possui as seguintes premissas:
(i) O estímulo ostensivo é suficientemente relevante para que valha a pena para o ouvinte processá-la;
(ii) O estímulo ostensivo é mais relevante quando compatível com a capacidade e preferências do falante.
Silveira e Feltes (1997) resumem os diferentes graus de relevância da seguinte maneira:
9
No posfácio da segunda edição de Relevance: Communication e Cognition (1995), esse Princípio passa a ser desdobrado em um de base cognitiva, considerado mais geral, em que a cognição humana tende a ser guiada pela maximização da relevância; e um de base comunicativa, mais específico, e que permanece igual à formulação original da Teoria da Relevância (1986). Nesta tese, tanto quanto na obra de Sperber e Wilson (1995), toda vez que se citar ‘Princípio da Relevância’, está-se referindo ao Princípio Comunicativo da Relevância.
Quanto mais efeitos contextuais e menos esforços de processamento, maior a relevância, quanto menos efeitos contextuais e mais esforço de processamento, menor a relevância; entretanto, um maior esforço de processamento, compensado por mais efeitos contextuais, aumenta a relevância (p. 43).
Conforme anteriormente afirmado, o Princípio da Relevância faz parte de um modelo cognitivo, no qual as operações mentais são o centro das análises, diferentemente da máxima da Relevância da Teoria das Implicaturas de Grice, concentrada no enunciado.
3 ANÁLISE DA PRODUÇÃO AUDIOVISUAL PUBLICITÁRIA SOB O PONTO DE