O cultivo de ervas na Barra da Lagoa refere-se a uma cultura local que mantém vivos os resquícios da colonização açoriana. A comunidade se manteve isolada do resto da ilha até o final da década de 1970 quando foi construída a ponte que lhe permitiu maior acesso. Até então, a comunidade da não tinha acesso a nenhuma estrutura urbana próxima, mantendo-se isolada e exercendo a prática de antigos costumes. O único acesso à Barra da Lagoa era pelo norte, distando aproximadamente 43 km do centro neste percurso. Pelo sul seria possível o acesso, desde que pelo uso de uma balsa, a qual ficava suscetível às condições da maré no canal da Barra. Até a construção de uma ponte que ligasse a comunidade à Lagoa da Conceição (6 km), o isolamento fez com que a comunidade pudesse desenvolver processos de produção e gestão auto-suficientes, gerando uma autonomia que destaca a comunidade em relação às outras zonas de ocupação da ilha.
Em meados dos anos 1980 os reflexos de um regime neoliberal refletiram-se na comunidade através da atividade pesqueira. Grandes navios começaram a atracar no litoral catarinense para a prática da pesca em nível industrial. Desta forma, acabaram por desencadear uma concorrência desleal à pratica da pesca
99 artesanal até então realizada pelas pequenas embarcações de famílias locais que abasteciam a comunidade e grande parte da Ilha. Com os avanços da indústria pesqueira os peixes passaram a chegar em larga escala na prateleira dos supermercados e dos fornecedores de alimentos. Ficou consumado o fim da pesca artesanal como única fonte de trabalho. A grande oferta de vagas para que pescadores experientes ingressarem nas embarcações empresariais que saíam para o mar foi intensa. Estas mudanças econômicas interferiram na prática pesqueira alterando a rotina da comunidade. Reconhecidos pescadores saíram para o mar em longas jornadas de trabalho e conseqüente ausência domiciliar. As mulheres passaram a ficar sozinhas em casa com seus filhos por longos períodos. O cenário de uma comunidade tribal foi muito presente até o final da década de 1960 onde as roupas eram lavadas nas pedras, a água colhida nas fontes, a carne vinha do mar e os vegetais eram cultivados em hortas próximas às residências.
A tradição das hortas medicinais mantida até hoje foi em grande parte estimulada pela ausência de recursos em saúde pública. O sistema público de saúde instalou o primeiro posto de saúde para atender à demanda da comunidade local somente no final da década de 1990. Desde a sua inauguração, a unidade de saúde tem como coordenador um médico homeopata com formação e pesquisa acadêmica em nível de doutorado com o tema em comunidades indígenas e tribos xamânicas149. Somente em janeiro de 2011150 que o posto de saúde da Barra da Lagoa passa a contar com uma infra-estrutura de acordo com os padrões da secretaria nacional de saúde pública inaugurando uma nova sede.
149 Dr. Helio Barbin é autor da pesquisa
“Do Feitiço a Malária: uma etnologia do sistema de saúde na reserva extrativista do Alto Juruá-Acre” (UFSC, 1999)
150Conforme matéria jornalística divulgada no site da Prefeitura Municipal de Florianópolis quanto à
inauguração do atual posto de saúde. Disponível em:
100 Figura 41a Horta com função comunitária localizada na Rodovia Barra da Lagoa – Rio
Vermelho
O cultivo de pequenas hortas comunitárias é uma prática colaborativa exercida pela comunidade há várias décadas. Na maior parte dos casos, as hortas são cultivadas em espaços privados, mas com função comunitária [figura 7a]. Em uma noção tradicional de horta comunitária, um pedaço de terra é compartilhado por um coletivo. Neste modelo, muitas pessoas plantam num mesmo terreno, tendo em vista o compartilhamento do cultivo entre os que trabalharam na terra. Neste sentido temos o caso da Escola Estadual Acácio Garibaldi da Barra da Lagoa , que cede espaço para que diferentes integrantes da comunidade escolar possam usufruir dos cultivos semeados [figura 8a]. No caso da Fortaleza da Barra algumas destas hortas são privadas, outras são em terrenos públicos. Nestas hortas são cultivadas ervas medicinais para atender certas urgências da comunidade. O que vemos então, é o valor de uso da horta com um sentido afetivo pela preocupação com o outro, seu vizinho e ou conhecido.
101 Figura 42a Horta com função comunitária – Escola Estadual Acácio Garibaldi – Barra
da Lagoa
De acordo com relatos feitos durante a minha convivência na Barra da Lagoa percebi que Dona Benta cultiva guaco,151 para a tosse da filha da dona Lucia, que por sua vez cultiva capim limão,152 para as crises nervosas de Seu João. Em outras palavras, a troca de desejos de saúde pode ser evidenciada pelo cultivo das ervas medicinais.
A troca de experiências quanto ao cultivo destas ervas medicinais e suas formas de cura é também um espaço de troca de saberes que despertam interesses comuns e atendem às demandas do real e imaginário da comunidade. O desafio de um projeto em arte coletiva é poder estabelecer junto aos processos comunitários de cultivo, propostas que possam permitir novas experiências de convívio, aceitando novos saberes e que tenham como fim um objetivo comum que permaneça para esta comunidade.
151 Erva medicinal indicada para problemas respiratórios, segundo cultura popular. 152 Erva medicinal indicada para problemas psicológicos, segundo cultura popular.
102